Crítica

Os fardados e os mortos

Um soldado alemão desertor, nos últimos dias da II Guerra, disfarça-se de capitão. Passa a agir como se espera: ordena e comete um sem número de atrocidades, infligidas sobretudo a outros desertores. A história é boa, o filme nem por isso.

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A partir de uma história autêntica, O Capitão é um regresso aos últimos dias da II Guerra, vividos do lado alemão. Nos primeiros meses de 1945, quando perante o avanço dos Aliados de Leste e Oeste só os mais fanáticos podiam acreditar noutra coisa que não na derrota, multiplicaram-se as deserções no exército alemão e, em consequência, multiplicou-se a severidade das medidas de punição da deserção. O Capitão segue a história de um desses desertores, Willi Herold, que teve a particularidade de encontrar, na sua fuga, uma farda de capitão intacta e imaculada. Depois de a vestir, quase só pelo conforto da roupa lavada, percebeu que os outros, tanto soldados como oficiais, a levavam a sério. Investiu-se do papel e, tomado por capitão, como capitão passou a agir, cumprindo aquilo que se esperava que um capitão fizesse: ordenar e cometer um sem número de atrocidades, infligidas sobretudo a outros desertores menos sortudos em achados de guarda-roupa.

A história é boa, o filme nem por isso. Fica tudo dado na primeira meia-dúzia de sequências. A assunção convicta da impostura e do papel que ela implica, o efeito de prostração perante sinais exteriores de poder, o carácter hipnótico da veneração da hierarquia — maneira de chegar a um bê-á-bá da “psique nazi” que não tem em si mesmo, e enquanto retrato, qualquer espécie de surpresa (ainda durante a guerra, com a mordacidade permitida pelo seu exílio americano, já Lubitsch andava, no To Be or Not Be, por estas paragens). Mas até aqui tudo bem. O pior é que o filme de Schwentke, uma vez erigido este seu pilar temático, por assim dizer, mais nada tem a oferecer além da sua confirmação, muito descritiva e muito previsível, sem fazer vacilar o olhar do espectador sobre aquela personagem, sem encontrar cambiantes que tragam outra ordem de complexidade à narrativa, sem um ponto de vista digno desse nome (inclusive, sobre a vertigem do protagonista, rapidamente desumanizado e transformado em boneco mecânico animado pela farda e pelo seu poder). Fica-se com a recriação, sobretudo nas cenas no campo de prisioneiros onde se passa fatia crucial da acção (e coexistem oficiais, soldados, desertores e até a mulher de um oficial), do ambiente de corrupção moral semi-niilista dos “últimos dias do nazismo”, mas até isto parece reiterativo e estereotipado, filmado que já foi dezenas de vezes, e frequentemente muito melhor. O Capitão não tem, a isso, nada a acrescentar ou a matizar. Para o genérico final, Schwentke ainda puxa dum último truque: Herold (o actor Max Hubacher) e os seus comparsas, vestidos a preceito e montados na camioneta que usam no filme, a circularem por ruas de uma cidade alemã, e a câmara a registar o efeito daquela presença nos transeuntes incautos. Em certo sentido — que efeito provoca um farda nazi? — podia ser o filme a começar. Mas a indiferença com que Schwentke se contenta com a farsa (ao estilo dum programa de TV de “apanhados”) mostra bem a reduzida ambição do seu filme.