Crítica

Odisseia na falsidade

Muitas ideias, mas o choque entre elas nada produz: o pior filme de Todd Haynes.

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Quase todos os filmes de Todd Haynes são reconstituições de época, e ele é, desta forma literal, um cineasta doutros tempos. Também doutros cinemas, porque o seu interesse não se esgota na observação dos “códigos” (sociais, por exemplo) desses outros tempos, e contém uma reflexão sobre as formas como esses códigos foram cinematograficamente representados — um exemplo evidente será Longe do Paraíso, que revia os anos 50 americanos no mesmo passo em que revia o cinema de Douglas Sirk. Para o lado “emulador” de Todd Haynes a história de Wonderstruck (adaptada de um best seller de Brian Selznick, com argumento do escritor) é um maná. O mergulho não se faz só numa época, faz-se em duas, separadas por meio século: o final dos anos 20, altura em que o cinema deixava de ser mudo, e o final dos anos 70, quando as ruas de Nova Iorque eram redescobertas como cenário de alguns dos mais vibrantes filmes americanos da época. A unir as duas épocas, histórias de crianças em aventura solitária pela paisagem novaiorquina à procura dos pais ou das mães, com uma articulação que o último terço do filme (quando a montagem deixa de ser “paralela”) iluminará.

Não sendo um Hazanavicius qualquer, é forçoso reconhecer que a “emulação” que Haynes faz do mudo é um pouco mais interessante do que todo o Artista, em fragmentos (não apenas de “filmes no filme”) que evocam, com evidente gozo do cineasta, a força melodramática de Griffith ou a pujança do olhar de Vidor sobre a “grande cidade” (se The Crowd não é citado naqueles contra-picados das ruas de Manhattan fica perto de o ser). Do tempo do mudo para o tempo dos anos 70 a narrativa importa o silêncio, porque em ambos os casos os miudos são surdos e o filme quer dar a ver (ou a ouvir...) um som subjectivo. Opção que parece menos “natural” nos segmentos de 70, e mal resolvida: se as imagens de Ed Lachman (que é um dos grandes operadores do cinema americano e vem mesmo daquela década) reconstituem com convicção as tonalidades e o grão das “mean streets” de Manhattan, a ideia de substituir o som ambiente pela imersão musical constante (assim cortando o silêncio e a sua verdadeira “subjectividade”) apenas sublinham o artifício, fica-se com uma espécie de teledisco prolongado. O que é um indício da falha principal do filme, que nunca é capaz de criar o “elan” melodramático que parece procurar, e depois de uns vinte minutos iniciais promissores se vai diluindo e diluindo progressivamente, cada vez mais longe de ser a space oddity (a “urban space oddity”...) para que o emprego da canção de David Bowie aponta.

Claro que não se pode ignorar a forma como este filme “emulador” assume a presença do “falso” e, para voltar ao tão caro Sirk de Haynes, da “imitação da vida”: o cenário do Museu de História Natural, com os seus dioramas de animais e paisagens, e sobretudo o climax dramático, o encontro de avó (Julianne Moore) e neto sobre uma grande “maquette” de Manhattan. Mas até por aí, pelo modo falho de força em que esses elementos são tratados, e reduzidos a instrumentos de composição ou decomposição do “puzzle” narrativo, se pode medir a frustração que este filme provoca: muitas ideias, mas o choque entre elas nada produz. Facilmente o pior filme de Todd Haynes.