Crítica

O que está a acontecer às nossas vidas

Duro, difuso, comovente, perturbante: Colo não é um filme da crise, na crise, sobre a crise, é um filme sobre nós, ontem como hoje.

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“Nunca mais vamos ter dinheiro?” É o dinheiro que paira sempre sobre as personagens de Teresa Villaverde em Colo, um filme que parece arrancado a ferros da psique dos anos da crise mas que é muito menos sobre a crise do que sobre viver, ou melhor, sobreviver. História de uma família de classe média como tantas outras, que, quase sem dar por isso, deixa de o ser, sobre um pai arrasado, uma mãe exausta, uma filha que não compreende o que se passa. “O que está a acontecer às nossas vidas?”, pergunta Alice, ou melhor, pergunta Teresa, enquanto filma precisamente o que está a acontecer a estas vidas, com um pudor e uma determinação equitativamente enormes.

Quem conheça o cinema da realizadora não vai encontrar em Colo mudanças significativas, quem não gostava não vai passar a gostar, quem gostava não vai encontrar razões para não gostar. Mas há algo mais em Colo, há outra coisa que leva este filme para lá do que Teresa fez antes como Os Mutantes, Transe ou Cisne. Há um silêncio, uma compreensão, uma presença; a sensação que Teresa Villaverde não fala só destas personagens mas fala de si, partilha com elas uma desorientação, um questionamento, uma incompreensão, uma necessidade de afecto. É um grande filme político que não diz uma única vez a palavra “política”, uma busca de redenção que não sabe por onde começar; não é um filme perfeito, mas é um filme que nos agarra e não nos larga, arrancado a ferros não só da psique dos anos da crise mas também da garra e das tripas de uma cineasta que quer partilhar connosco a sua dúvida. Colo não dá respostas nenhumas. Mas as suas perguntas são apaixonantes.