Opinião

Depois de Bruxelas, o râguebi vai continuar a tapar os olhos?

O que se passou no Bélgica-Espanha não é uma surpresa. A modalidade a nível mundial deve mudar, exige-se que mude

É recorrente ouvir-se que o râguebi é uma modalidade ímpar, carregada de valores únicos, praticada pelos melhores, dirigida por visionários. No dia 11 de Março, em Madrid, celebrou-se uma vitória da selecção espanhola, que praticamente deixava “nuestros hermanos” no Mundial 2019, que será disputado no Japão. O rei de Espanha desceu ao relvado; o jornal Marca, no dia seguinte, deu a capa a este "inevitável" apuramento. Pois bem, os espanhóis esqueceram-se de um detalhe: o râguebi mundial não é bem aquilo que diz ser, nomeadamente no que toca aos domínios e poderes instalados.

Os responsáveis pelo râguebi espanhol esqueceram-se que a modalidade é dirigida, a nível mundial, por um clube privado, onde só alguns têm acesso. Onde os franceses, não tendo o peso merecido na World Rugby, transferem as suas frustrações para a Rugby Europe, responsável pela gerência na Europa, onde elegem ou fazem eleger personalidades que estão fora da órbita de britânicos e irlandeses, e que lhes serão obedientes nos momentos certos. A eleição de Octavian Morariu, infelizmente com o apoio de Portugal, e a forma como este romeno gere o râguebi europeu é ilustrativo do conservadorismo como a modalidade se apresenta no panorama mundial.

Bastava ao espanhóis olharem para o lado e verem a história de Portugal. Recuar a 1996, quando a selecção nacional, comandada por João Paulo Bessa, foi humilhada perante uma arbitragem italiana que após o jogo frente à Roménia foi “premiada” com umas férias no Mar Negro. Ou ir ao apuramento para o Mundial 2011, onde a equipa portuguesa, liderada por Tomaz Morais, foi obrigada a realizar um jogo decisivo com a Rússia num campo sem condições mínimas. Ou ir ao recente Japão-Portugal, na final do Junior World Trophy, interrompido (e não reatado) a 12 minutos do fim, quando os jovens portugueses, treinados por Luís Pissarra, mostravam capacidade para anular a vantagem japonesa. Se os espanhóis tivessem feito esse trabalho de casa, saberiam que a Roménia esteve em todos os mundiais de râguebi e que senhor do râguebi europeu é romeno.

A nomeação de um árbitro romeno para o Bélgica-Espanha só surpreende aqueles que continuam a achar que tudo começa e acaba com o apito do árbitro. Um jogo estranho, uma arbitragem estranha. A Espanha perdeu, a Roménia volta a marcar presença num Mundial e no final cenas nunca vistas a este nível, com os jogadores espanhóis de cabeça perdida. Aquilo que se passou em Bruxelas é, de facto, uma derrota em toda a linha da modalidade, mas não é uma surpresa. O râguebi mundial deve mudar, exige-se que mude.

Devemos ser a única modalidade colectiva que não tem um Campeonato da Europa. O modelo existente adopta o espírito do clube fechado (Torneio das Seis Nações) onde só os mais poderosos podem estar. Ninguém sai, ninguém entra. A Geórgia, por exemplo, não tem acesso à competição, pese embora as constantes demonstrações de valor desportivo. Competições europeias masculinas de clubes? Só para alguns. Diga-se, em abono da verdade, para quase todos desses alguns. Competições europeias femininas de clubes? Nem pensar.

E o que dizer sobre os critérios de apuramento para o Mundial, alterados à medida dos interesses da World Rugby? A este respeito, veja-se o que aconteceu após 2015. Depois de saber que a Geórgia tinha conseguido, por mérito desportivo, o apuramento para o Mundial 2019 – em cada edição, os 12 melhores estão automaticamente classificados para a competição seguinte -, a World Rugby alterou as regras previamente estabelecidas e retirou um lugar à Europa, oferecendo-o às selecções do Pacífico. Estranhamente, ou talvez não, a Rugby Europe foi conivente. Ironicamente, sem estas alterações não teria existido toda esta polémica que mancha a modalidade: Roménia e Espanha estariam apuradas para o Mundial 2019; o adversário de Portugal no play-off seria a Rússia.

Podemos também falar sobre o número de selecções que participam no Mundial - vinte, numa clara intransigência ao aparecimento de novas nações. Em 2007, aquando da presença de Portugal no Mundial de França, discutia-se a passagem para 24 selecções. Para condicionar a discussão, a World Rugby (à época IRB) lançou a ameaça da redução para 16. Que tenha conhecimento, apenas Portugal se pronunciou quando o secretário de Estado da Juventude e do Desporto da altura, Laurentino Dias, dirigiu uma missiva ao presidente da IRB manifestando o seu profundo desagrado com a eventual redução.

O râguebi é um desporto profundamente conservador. Desculpem-me os mais puritanos, mas o videoárbitro foi apenas uma ilusão de óptica. Devemos ter orgulho nessa opção, mas se olharmos para a modalidade verificamos que é uma gota num extenso mar. Quem mostra a sua indignação com o futebol, pelas polémicas envolvendo Blatter e Platini, pode acreditar que as linhas do râguebi não são muito diferentes.

O episódio de Bruxelas é triste em toda a linha. São os interesses a falar mais alto. Mas que consequências haverá disto tudo? O que mais será preciso para haver uma revolta na Europa? O râguebi vai continuar a tapar os olhos? Quais as consequências disciplinares para os espanhóis que tiveram um comportamento que nada dignifica o desporto? 

Não tenho respostas para as questões colocadas, mas posso antecipar que no decisivo Espanha-Portugal, vai sobrar para nós...

Rafael Lucas Pereira, dirigente de râguebi

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