Aquele querido mês de Maio

Um extraordinário documentário ensaístico sobre os amanhãs de 1968 que nunca cantaram.

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Trabalho assombroso de pesquisa de materiais, que vai de imagens amadoras a arquivos televisivos e pessoais

“Foi bonita a festa, pá”, cantava Chico Buarque a propósito do 25 de Abril, mas a frase aplica-se ao requiem apaixonado que João Moreira Salles dedica ao Maio de 1968. Porque é isso que é No Intenso Agora, filme-ensaio inteiramente construído a partir de material de arquivo e sonorizado apenas pela voz do realizador e pela música de Rodrigo Leão: uma celebração, desencantada mas apaixonada, de uma festa que sacudiu o mundo; e um requiem por um mundo alternativo que se entreviu por entre a liberdade e o perigo de 1968 sem nunca ter chegado a existir realmente. Moreira Salles cita isso directamente, quando pega nas declarações de Daniel Cohn-Bendit, o “porta-voz” dos estudantes durante as lutas de Maio em França: “o importante é dar corpo a uma experiência que não dure, que permite entrever uma alternativa que num piscar de olhos desaparece mas ao mesmo tempo prova que pode existir”.

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Num trabalho assombroso de pesquisa de materiais, que vai de imagens amadoras a arquivos televisivos e pessoais, que tem epicentro em França mas passa também pela Checoslováquia, pelo Brasil, pela China, pelo Japão, o cineasta brasileiro propõe-nos um documentário que não se limita a ser uma história alternativa, paralela, das convulsões políticas de 1968, e das utopias simultaneamente festivas e violentas desse ano-charneira. É uma reflexão sobre o tempo, a história, a utopia, a consciência do humano, o poder das imagens e o poder das palavras. O título, No Intenso Agora, é uma tradução possível da entrega total a cada momento, da fé profunda na mudança, da consciência de se ter atingido um ponto-limite; todos estes rapazes e raparigas, operários e trabalhadores e estudantes, acreditavam que era preciso mudar uma sociedade petrificada, acabar com as divisões de classe e de estatuto e de dinheiro. (Mas, não deixa Moreira Salles de dizer: enquanto lutavam para as universidades serem mais acessíveis à classe operária, eram quase todos homens, quase sempre brancos. A utopia que sonhavam, sem mulheres nem minorias, era tão cega como a burguesia que queriam desmantelar.)

Não que No Intenso Agora seja apenas sobre Maio, sobre 1968, sobre esse momento no tempo em que um outro mundo se sonhou. É um filme que fala ao nosso tempo, que pega nas imagens de urgência de 1968 e as olha como se fossem de hoje, ou para hoje: o mundo continua a estar nas mãos das velhas burguesias brancas (privilegiadas ou não); as utopias continuam a entrever-se sem se alcançarem; a sociedade do espectáculo continua a ser forte; as conversas nunca acontecem à mesma altura, de igual para igual e sem desconfiança; todas as revoluções continuam a acabar em negociações burocráticas; continua a haver aqueles que, mesmo desiludidos, mesmo acreditando demais, continuam a prestar testemunho do momento em que vivem. Este Intenso Agora, que se descobre um outro filme com cada nova visão, é testemunha do que passou mas também do que se está a passar. A sua melancolia é a melancolia de quem olha para trás com a consciência que nada mudou, mas que, se voltasse a fazer, não teria mudado nada. Foi bonita a festa, pá, mas a próxima também vai ser.

[No cinema Ideal, em Lisboa, a sessão de quinta-feira, dia de estreia, às 19h, será apresentada pelo realizador João Moreira Salles; a sessão de sexta-feira, também às 19h, é seguida por um debate com o cineasta]