Novo secretário-geral diz não ter "receio nenhum" de ir a votos no partido

Líder do partido escolhe deputado e ex-autarca de Mirandela para substituir Feliciano Barreiras Duarte

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Novo secretário-geral diz que só quer ganhar eleições Miguel A. Lopes, LUSA

Foi um dos poucos deputados que defendeu o novo líder do PSD na sua primeira reunião com a bancada, há uma semana e meia, quando Rui Rio foi atacado por vários parlamentares. Mas nem por isso a sua escolha deixou de ser uma surpresa.

José Silvano, 61 anos, advogado, ex-autarca de Mirandela, foi o nome escolhido por Rui Rio para ser o novo secretário-geral do partido depois do incómodo sentido internamente nos últimos dias com o impasse em torno do caso criado pelo currículo de Feliciano Barreiras Duarte. “Não tenho receio nenhum da votação no Conselho Nacional”, afirmou ao PÚBLICO o novo secretário-geral do PSD, em jeito desafiador, acrescentando que não compreende quem vote contra o seu nome quando há eleições para ganhar.

Rui Rio não se decidiu por nenhum dos nomes que estavam a ser falados no partido e optou por uma figura que suscita reacções diversas. Do lado dos santanistas há quem considere difícil que Silvano tenha uma votação confortável no Conselho Nacional, mas outras fontes partidárias sustentam que o nome “não hostiliza” nenhum sector do PSD e que também não pertence à “corte de Lisboa”.

A direcção de Rio não quis criar um vazio no cargo e anunciou que Silvano começará a exercer funções de “imediato” no partido. A nomeação será ratificada na próxima comissão política nacional, marcada para 28 de Março, e depois será apreciada em Conselho Nacional ainda por agendar. Aí, a votação será secreta mas, por ser apenas um nome, não haverá votos contra. Só terá votos a favor, brancos ou nulos como aconteceu nas eleições para a liderança parlamentar de Fernando Negrão. O que pode repetir-se é o resultado.

As dúvidas por parte de santanistas em torno do nome de José Silvano surgiram depois de este grupo ter assumido que seria de “bom tom” que Rio tivesse uma palavra de sensibilização para com esta ala do partido. Isso seria coerente com a iniciativa do novo líder que abordou Santana Lopes antes do congresso no sentido de fomentar uma “pacificação” interna. Os santanistas lembram que podem até ter a maioria dos lugares eleitos no Conselho Nacional já que, além dos nomes incluídos na própria lista conjunta Rio/Santana, a segunda lista com melhores resultados – 13 membros eleitos – era liderada por Carlos Reis, que pertenceu à direcção de campanha do ex-primeiro-ministro.

Votar para ganhar

O próprio José Silvano assume não ter receio nenhum de um mau resultado. “Votar contra quem quer apenas trabalhar e ganhar as eleições europeias, legislativas e regionais? Não quero nem pensar nessa possibilidade”, afirmou. Em declarações ao PÚBLICO, o deputado deixou um apelo: “Vamos unir o partido. Quem quiser estar neste espírito, está”.

José Silvano ganhou algum mediatismo nos últimos meses por ter sido o coordenador do grupo de trabalho sobre as novas regras do financiamento partidário - um trabalho que o novo líder praticamente deitou por terra ao assumir funções. O deputado, que foi apoiante de Rui Rio durante a campanha eleitoral interna, presidiu à Câmara Municipal de Mirandela durante 16 anos, entre 1996 e 2012 e exerceu uma série de cargos em empresas e instituições no distrito de Bragança.

Foi também dirigente local do PSD e foi como candidato à Assembleia Municipal de Mirandela que, em 2005, convidou Elina Fraga para a sua lista, quando a advogada era estagiária e membro da Assembleia Municipal pelo CDS. A actual vice-presidente filiou-se depois no PSD, mas deixou as actividades partidárias após ter assumido responsabilidades na Ordem dos Advogados. “Só vim a reencontrá-la mais tarde”, conta Silvano.

Com esta nomeação, um dia depois da demissão de Feliciano Barreiras Duarte, Rio quis pôr um ponto final na polémica em torno do secretário-geral. Mas há quem considere que o líder do PSD tenha demorado muito tempo a resolver o problema, deixando arrastar a situação de Barreiras Duarte, depois de publicadas notícias sobre problemas no seu currículo académico e, depois, sobre subsídios pagos pela Assembleia da República que podem ser indevidos por causa da morada dada pelo deputado.

“Rio devia ter arrumado o assunto em dois tempos”, afirma uma fonte social-democrata, lembrando que o líder do PSD não podia saber dos pormenores do currículo ou de outras situações quando o escolheu. Mas se resolvesse logo o problema daria a ideia “de um líder forte” e até permitia “branquear” outras polémicas na direcção, como as de Elina Fraga ou de Salvador Malheiro.

A situação de impasse vivida nos últimos dias, em que já se percebia que a demissão era inevitável mesmo antes de se concretizar, gerou incómodo no PSD. Já é voz corrente, como assumiu Manuel Castro Almeida, vice-presidente do partido, em entrevista à Antena 1, que “as coisas não estão a correr bem” no PSD neste primeiro mês de liderança de Rui Rio.

Mas a direcção do PSD tem-se mantido em silêncio. A excepção foi Salvador Malheiro, que nesta segunda-feira, no fórum da TSF, começou por salientar que Rio só tomou posse há um mês. Elogiou a iniciativa do novo líder para tentar acordos estruturais com o PS bem como a de criar um conselho estratégico nacional, mas acabou por reconhecer que é “estranho” que “só agora” se tenham encontrado problemas em dirigentes como Feliciano Barreiras Duarte.

Malheiro afastou a ideia da teoria da conspiração interna. “Não quero dizer que seja uma campanha fomentada dentro do PSD. Não quero imaginar”, disse, justificando estas polémicas com a “forma de estar” e de fazer política de Rui Rio.

Quem se referiu ao assunto, sem se referir, foi o Presidente da República. “Um Presidente não pode intervir na vida interna de nenhum partido, a começar na vida interna do seu partido", disse Marcelo Rebelo de Sousa. Mas acrescentou: "Não vale tudo na política. Respeito a dignidade da pessoa humana. Há ética na política, há ética na nossa Constituição".