Rui Gaudêncio
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“Drag kings”: ter o “poder” de um homem por umas horas

Na oficina “drag king”, dinamizada por Matias Braga, as mulheres são convidadas a encarnarem figuras masculinas. O objectivo é reflectir sobre a posição de domínio que os homens ocupam no dia-a-dia

Na oficina drag king, as mulheres têm uma tarde para ser homens. Há bigodes fartos, barbas, pelos no peito, bonés, calças largas e gel no cabelo. Carregam-se nos estereótipos e levam-se os palitos ao canto da boca. A ideia é que as mulheres se aproveitem dessas características, tomem consciência da forma como os homens se comportam no espaço público e aprendam a ocupá-lo “como homens”.

A última edição da oficina drag king aconteceu no último sábado, 17 de Março, em Lisboa, no espaço Disgraça, no âmbito do Festival Feminista — que decorre na cidade até dia 25. No total, reuniu sete participantes que resolveram tirar a tarde para explorar a sua masculinidade.

Um dos primeiros conceitos que Matias Braga, dinamizador do workshop, clarifica é o de drag king. É o oposto de drag queen e é usado para caracterizar “mulheres biologicamente definidas, que praticam alguma forma de masculinidade”, detalha. Esta é a quarta vez que Matias promove a oficina. Há três anos iniciou o processo de transição de género, depois de ter vivido 42 anos como mulher. A primeira vez que experimentou um destes workshops foi precisamente antes de iniciar esse processo. “Ajudou-me a entrar em contacto com a minha masculinidade”, conta. Tendo sido reconhecido socialmente como mulher e agora como homem, não tem dúvidas de que é tratado de forma diferente.

E porque é que se justifica um workshop destes? Matias Braga explica que se trata de reflectir sobre o “privilégio masculino” e a “ocupação do espaço público pelo homem, ou pela pessoa biologicamente vista como tal”. A oficina “é um laboratório político de reeducação corporal”, porque “uma postura ou nos dá poder ou nos retira”.

Sempre sob a orientação de Matias, os sete participantes — seis mulheres e um homem —, reunidos em semi-círculo, são convidados a pensar sobre situações do seu quotidiano em que os homens ocupam uma postura de poder. Alguém diz que os homens sorriem pouco e é consensual que, na rua, raramente se desviam quando outra pessoa vem na sua direcção. Nos transportes públicos, quando estão sentados, também não restam dúvidas: “Vão sempre de pernas abertas”, ouve-se quase em uníssono.

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Último workshop decorreu durante o Festival Feminista de Lisboa Rui Gaudêncio

Sobre o que leva os participantes à oficina, surgem várias explicações. Principalmente, “explorar esse lado” masculino e experimentar a “libertação” associada à criação de uma personagem deste tipo.

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Participantes querem “explorar lado” masculino e experimentar uma “libertação” Rui Gaudêncio

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Na segunda metade da oficina, começa-se a trabalhar a personagem Rui Gaudêncio

A caracterização


Na segunda metade da oficina, as cadeiras são postas a um canto e é tempo de começar a trabalhar a personagem. Os pronomes passam de “a” para “o”, as costas endireitam-se e os passos ficam mais largos. Pratica-se depois a abertura dos ombros com um pau de vassoura, que também é usado como “objecto de poder”. Numa mesa, todos os apetrechos necessários à transformação: tintas para pintar a barba, gel para o cabelo, gravatas e até perfume.

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No final, sai-se à rua para praticar Rui Gaudêncio

Há quem não esteja ali pela primeira vez, pelo que boa parte do trabalho já está feito. Mónica Rocha, por exemplo, já é repetente e Dani Rocks é o “seu” homem. Tem bigode, usa suspensórios, caminha de perna aberta e não olha para o chão.

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“É um laboratório político de reeducação corporal”, diz Matias Braga Rui Gaudêncio

Também há um Raul, um André e quem não dê nome às suas personagens. Uma das participantes afirma que vê a caracterização “mais como um exercício de auto-exploração do que como a criação de uma persona”. E detalha: “Estamos a brincar com o estereótipo, com a masculinidade normativa”.

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Depois de vestidos, ensaiam-se conversas e sai-se à rua para praticar as personagens. Um café ali perto é o alvo. Os transeuntes olham curiosos para o grupo, mas não há interpelações. No café, apesar das roupas, os drag kings esquecem a voz grossa ao balcão e dizem "obrigada".

No fim, Matias Braga recorda uma participante de edições passadas que lhe garantiu que depois da experiência nunca mais foi a mesma. “Ninguém sai daqui como entrou”, remata.

She’s the man

Este tipo de workshops não é uma tendência recente e há gente a promovê-los e a frequentá-los por todo o mundo há vários anos. Diane Torr, uma artista de origem escocesa, foi pioneira deste tipo de performances com o seu Man for a day — criado em 1990 —, que já levou a cidades como Nova Iorque, Berlim ou Brasília. Em Londres, Katherine Warman e Rhiannon Scutt criaram Andro & Eve para promover eventos que celebram a cultura queer e reúnem a comunidade, e os workshops e cabarets para drag kings também fazem parte da programação. Por seu turno, Judith "Jack" Halberstam e‎ Del LaGrace Volcano, que assinam o The Drag King Book, são duas das maiores referências para esta comunidade.

Em Colónia, na Alemanha, Stephanie Weber é responsável pelos  worskshops She’s the man. Conta por email ao P3 que tudo começou quando foi a uma festa drag com os amigos, vestida de homem e se apercebeu que as pessoas lhe davam mais espaço na rua. A feminista e professora na área de Estudos de Género explica que o principal objectivo é a “capacitação” das participantes e a partilha de experiências. Treinam-se formas de caminhar, sorrir, sentar e de estar, tal como na oficina dinamizada por Matias.

"Todos sabemos que os dois géneros sofrem discriminação", diz. E talvez o propósito destas acções seja desconstruir e impor novas questões. Conclui com exemplos, para reflexão futura: “Porque é que precisamos de estereótipos? Como é que podemos viver sem eles? O que é que podemos fazer para ver mais o ser humano e não o seu género? Porque é que continuamos a viver o género pelo seu significado biológico e não como uma construção social?”