Opinião

Hoje é dia de lembrar Marielle Franco

É melhor não cometer o erro, como ocorreu nos anos 30, de adiar a convergência antifascista para quando o fascismo já tinha ganho o jogo.

Cada época é feita pelos seus acontecimentos e pela forma como se sabe dos seus acontecimentos. Soubemos do assassinato de Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, pelas redes sociais e pela Internet. E a forma como o soubemos irmanou-nos na dor. É esse sentimento de irmandade que faz com que em Portugal se organizem hoje manifestações em memória da jovem política promissora, da mulher negra vinda da favela, da estudante de Sociologia e pessoa bissexual, da feminista e militante de esquerda — e do trabalhador, motorista, que morreu ao seu lado —, da combatente contra a arbitrariedade da violência, incluindo da violência policial, de tudo aquilo enfim que vamos sabendo que Marielle Franco era.

Qualquer pessoa é sempre um feixe de identidades e não apenas uma identidade. É por isso bom lembrar Marielle Franco das muitas maneiras diferentes que mais sentido fizerem a cada um de nós em cada momento. E, por favor, sem a praga daquele famoso “narcisismo das pequenas diferenças” tão endémico entre progressistas.

Esse narcisismo das pequenas diferenças nota-se já no debate habitual em que se escrutinam as diferenças entre as matizes políticas e identitárias da forma como cada um participar neste momento de memória, indignação e solidariedade: ou porque se escolheu enfatizar mais a violência machista e se enfatizou menos a violência racista ou classista; ou porque se exteriorizou mais sentimento com esta morte violenta quando há morte violentas todos os dias; ou porque o assassinato foi no Brasil e aqui estamos em Portugal e pouco podemos fazer; ou porque alguém seria adversário político de Marielle e outro alguém está de vigia para saber se a sua solidariedade é legítima, etc.

Seria bom que pudéssemos deixar essas lógicas de lado. Não só porque não há uma maneira “certa” de lembrar uma pessoa que foi muitas coisas ao mesmo tempo — a maneira certa é lembrar de várias maneiras. Mas também porque perante uma morte que nos interpela assim, vinda de longe mas que sentimos como se fosse perto, ainda vai demorar tempo para que toda a gente perceba o que está a sentir e porquê.

Mas há outra razão para que todos os que se revêem na memória das lutas de Marielle se juntem abandonando qualquer narcisismo das pequenas diferenças. É que a desunião tem custos quando do outro lado há um abismo de intolerância profunda.

Logo a seguir à notícia do assassinato de Marielle havia uma mensagem nas redes que dizia “quando soube da morte de Marielle achei que o Brasil estava perdido; quando vi os comentários à sua morte tive a certeza”. Acabado de chegar à China, onde ainda estou, fui ver de que comentários se tratava e nem todo o cinismo do mundo me poderia prevenir contra o que vi: mal o assassinato tinha ocorrido e já havia quem o celebrasse e pedisse mais violência contra os odiados defensores dos direitos humanos. Sim, leram bem.

No Brasil não é apenas o sistema que é violento: é a própria violência que é o sistema. Não só violência nas ruas mas também a violência na retórica fascizante cada vez mais presente no debate social brasileiro. Perante esta violência, não é só a coragem que é necessária. É precisa solidariedade e união. Olhem para os últimos dias neste mundo: Putin dominou mais umas eleições; Xi Jinping atribuiu-se mandatos ilimitados; Erdogan esmagou mais uma cidade curda na indiferença geral; Trump põe e dispõe da administração federal nos EUA. É melhor não cometer o erro, como ocorreu nos anos 30, de adiar a convergência antifascista para quando o fascismo já tinha ganho o jogo. 

É evidente que sabemos que nenhuma vigília trará Marielle de volta, como é evidente que poucos de nós sabiam quem ela era antes do seu assassinato, como é evidente que todos temos consciência de que pouco podemos fazer, do lado português do Atlântico, para ajudar a resolver o feixe de problemas que atormenta o Brasil. É precisamente por isso que as pessoas se juntam para lembrar — para descobrir se estando juntas extraem mais sentido da dor, e se conseguem passar da indignação à ação. Quem não pode estar sentirá a falta desse sentimento concreto de solidariedade.

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