Da picareta de gelo ao Novichok: quando a surpresa está na arma do crime

Alguns planos nunca chegaram a sair do papel. Alguns falharam. Mas outros resultaram na morte dos seus alvos. Uma breve história de armas invulgares.

Investigação ao envenenamento de Skripal
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Polícia britânica investigam ataque a Sergei Skripal, ex-agente duplo envenenado no Reino Unido LUSA/ANDY RAIN

É o caso mais recente numa longa lista de assassínios (consumados ou na forma tentada) atribuídos a governos, grupos criminosos ou adversários políticos em que o instrumento do crime não é uma arma de fogo. O ataque ao antigo agente duplo russo Serguei Skripal à filha, Iulia, com um veneno da classe Novichok no Reino Unido, supostamente a mando do Kremlin, desencadeou uma nova crise diplomática entre Londres e Moscovo. O Reino Unido já expulsou 23 diplomatas russos do seu território na sequência do ataque, e Moscovo respondeu na mesma moeda, expulsando um número igual de britânicos.

A tentativa de assassinato traz à memória casos relativamente recentes como o de Alexander Litvinenko, antigo espião russo exilado em Londres que morreu envenenado em 2006. O historial de envenenamentos de ex-espiões e de figuras politicamente incómodas, aliás, é extenso. Mas há outros casos em que serviços secretos ou gangues criminosos recorrem ou ponderaram recorrer a meios ainda mais invulgares, como recordava este fim-de-semana o NewThe New  York Times: de pasta de dentes a conchas armadilhadas no fundo do mar, vale quase tudo. 

Uma picareta de gelo no México

A morte de Leon Trotsky ficou para a história tanto pela figura em causa — fora um dos protagonistas da Revolução Russa e seria um dos mais prováveis sucessores de Lenine à frente da União Soviética — como pela arma do crime. Após a morte de Lenine, em 1924, Trotsky envolveu-se numa luta de poder com Estaline. Acabou por ser afastado do Partido Comunista e foi obrigado a exilar-se no México, onde seria traído por Ramón Mercader, um agente de Estaline.

A 20 de Agosto de 1940, Mercader entrou no escritório de Trotsky com uma picareta de gelo no bolso. Apanhando o alvo num momento de distracção, atingiu-o no crânio. Trotsky ainda foi transportado com vida para o hospital, mas morreu no dia seguinte.

A arma do crime, a célebre picareta, acabaria por ser furtada por um agente da polícia mexicana. Só apareceu em 2005. Estava então na posse da filha do agente, que a tentava vender. De acordo com o The Guardian, ainda estava manchada com o sangue de Trotsky.

Uma pasta de dentes tóxica

Patrice Lumumba foi o primeiro chefe de Governo democraticamente eleito na Republica Democrática do Congo após a independência do antigo território belga. Anti-imperialista e pan-africanista, foi uma figura de referência para movimentos de libertação em todo o mundo — mas também motivo de preocupação para europeus e norte-americanos. 

Os interesses norte-americanos no Congo (aonde os EUA tinham ido buscar o urânio utilizado na bomba atómica lançada sobre Hiroxima) foram colocados em causa com a ascensão de Lumumba, o que levou a CIA a elaborar vários planos para matar o líder africano. Um dos planos implicava o uso de uma pasta de dentes tóxica. No entanto, a ideia nunca foi posta em prática. Não por causa da arma, mas pelos efeitos globais potencialmente “desastrosos” que o assassinato poderia gerar, como disse o antigo agente da CIA Larry Devlin numa entrevista em 2008 ao The New York Times

A morte chegaria de outra forma. Lumumba foi deposto num golpe de Estado em 1960. Ainda tentou fugir, mas acabaria por ser capturado, torturado e morto em 1961 pelas Forças Armadas congolesas, apoiadas pelos norte-americanos e pelos belgas.

Uma câmara de televisão armadilhada

Apenas dois dias antes dos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, Ahmed Shah Massoud, o líder da Aliança do Norte, que combatia os taliban no Afeganistão, concedia uma entrevista ao que pensava serem dois jornalistas de uma televisão local. No entanto, a câmara que tinha à frente continha um engenho explosivo. O falso repórter de imagem fez detonar a bomba e fugiu (sendo posteriormente abatido), enquanto o outro falso jornalista accionou um colete-bomba. O líder da resistência aos radicais islâmicos teve morte imediata.

Os planos para matar Fidel

Também houve criatividade no momento de desenhar vários planos para matar Fidel Castro, o histórico líder cubano. Uma das ideias da CIA, como recorda o The New York Times, foi contaminar um fato de mergulho com um fungo que provoca uma doença fatal que destrói os tecidos conjuntivos, bem como contaminar a respectiva máscara de oxigénio com o bacilo da tuberculose. 

Caberia ao advogado norte-americano James B. Donovan — que negociava com Havana a libertação de prisioneiros na sequência da invasão da baía dos Porcos — entregar o fato a Fidel. No entanto, a amizade entre Donovan e Castro levou o advogado a deixar o fato contaminado no laboratório da CIA.

A secreta norte-americana também ponderou armadilhar uma concha para matar o líder cubano, que adorava mergulho. No entanto, o plano acabou por ser descartado porque se concluiu que não havia “uma concha no mar das Caraíbas suficientemente grande para se poder encaixar um explosivo”, nem suficientemente “espectacular” para “atrair a atenção de Castro”, como se lê em documentos que entretanto deixaram de ser confidenciais.

Os serviços secretos norte-americanos tentaram ainda — e mais que uma vez — recorrer a uma toxina botulínica para matar Castro. Primeiro, em 1961, numa caixa de charutos que nunca chegou ao destino. Na segunda vez, através de uma amante que ficaria encarregada de colocar a toxina na bebida do líder cubano. O plano falhou porque a mulher guardou os comprimidos numa caixa de creme hidratante, que acabou por anular os efeitos da toxina. 

Castro morreu aos 90 anos, em 2016, por causas naturais.