Desemprego real trava salários e baralha BCE

Quando se reúnem em Frankfurt para discutir se já chegou a hora de voltar a subir as taxas de juro, são os salários aquilo que mais confunde Mario Draghi e os seus pares.

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Mário Draghi lidera BCE e está atento aos sinais sobre salários

Num cenário normal, depois de os estímulos monetários aplicados durante a última década terem trazido de volta taxas de crescimento elevadas na zona euro e colocado as taxas de desemprego ao nível antes da crise, o que seria de esperar era também um regresso de pressões inflaccionistas,  trazidas por maiores aumentos salariais.

No entanto, isso não está a acontecer, tornando mais difícil aos bancos centrais decidir qual o momento de retirar os estímulos monetários. Quer na zona euro, quer nos Estados Unidos, à descida da taxa de desemprego não tem correspondido a subida dos salários e da inflação prevista pelos modelos.

Um estudo publicado este mês pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) - intitulado More Slack than Meets the Eye? Recent Wage Dynamics in Advanced Economies - tenta encontrar explicações para este fenómeno. Os autores concluem que existem duas grandes causas para o crescimento tão decepcionante a que se tem vindo a assistir nos salários: o baixo crescimento da produtividade que se tem vindo a registar a seguir à crise financeira internacional e o facto de, mesmo com a taxa de desemprego tradicional a cair significativamente, se estarem a gerar fenómenos de sub-emprego, como o trabalho a tempo parcial involuntário.

O estudo assinala ainda que existe uma diferença entre os países onde a taxa de desemprego já está abaixo dos níveis médios antes da crise (como a Alemanha ou os EUA) e os que isso ainda não acontece (como Portugal, Itália ou Espanha). Nos primeiros, a falta de aumentos salariais acontece principalmente por causa da baixa produtividade, mas nos segundos o problema é mesmo uma falta de pressão nos mercados de trabalho, com o fenómeno do sub-emprego a agravar a situação.

No caso de Portugal, de acordo com os números do INE para o quarto trimestre do ano passado, a taxa de desemprego situou-se nos 8,1%, mas a taxa de sub-utilização do trabalho, que inclui o trabalho temporário involuntário e os desencorajados que desistiram de procurar emprego, ainda está nos 15,5%.

O estudo do FMI diz que neste último grupo de países, "é pouco provável que o crescimento dos salários acelere" enquanto se mantiver este nível elevado de sub-utilização do emprego.

Ainda assim, nos últimos meses, os responsáveis do BCE têm vindo a mostrar-se cada vez mais convencidos de que os salários estão finalmente a começar a acelerar (justificando o fim dos estímulos monetários). Para isso contribui decisivamente o acordo obtido entre o importante sindicato do sector metalúrgico na Alemanha e as empresas, que prevê aumentos salariais mais generosos e que pode vir a servir de referência para o resto da maior economia da zona euro.