Putin criou esta Rússia e tornou-se o seu líder inevitável

Há 18 anos que Vladimir Putin está no topo do poder e o seu nome volta a estar nos boletins de voto este domingo. Nos próximos anos joga-se a sucessão do obreiro da Rússia do século XXI.

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Vladimir Putin discursa em Moscovo Maxim Shemetov/REUTERS

Nada impedirá a reeleição de Vladimir Putin para mais seis anos no poder. Para os milhões de eleitores que vão votar este domingo, numa altura em que a Rússia está de costas voltadas para a Europa e para os EUA, acusada de interferir nas democracias ocidentais e de ter assassinado um ex-espião em solo estrangeiro, Putin já não é um candidato como os outros. Ascendeu a um patamar histórico, depois de devolver o orgulho aos russos e de lhes garantir estabilidade, mesmo à custa da reputação internacional.

À custa das suspeitas de que a ordem para assassinar Sergei Skripal terão vindo do Kremlin, o Reino Unido e a Rússia anunciaram a expulsão de 23 diplomatas colocados nos dois países. Mas isso não afecta Putin, que após 18 anos no Kremlin será reconduzido para um quarto mandato, durante o qual irá tornar-se no líder russo com mais longevidade no poder desde Estaline.

A reeleição abre o debate sobre o que se irá seguir à era de Putin, mas para a perceber é preciso voltar atrás no tempo.

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Putin revelou um dos pilares que sustentaram a sua governação nos últimos 18 anos, em duas respostas aparentemente caricatas, na fase final da campanha. Numa entrevista, o líder russo falava dos anos 1990, um período marcado pela “terapia de choque” a que a economia russa foi sujeita após a queda da União Soviética, ao mesmo tempo que o caos e a desordem tomavam conta das ruas, dominadas por guerras de gangues ao serviço de oligarcas rivais.

Memória dos anos 90

“Na minha casa de campo, tinha de ter uma caçadeira ao lado da cama”, contou Putin. Por essa altura, o futuro Presidente russo estava sem trabalho, depois de ter saído da Câmara Municipal de São Petersburgo. “Pensei que talvez pudesse procurar trabalho como taxista nocturno”, afirmou Putin na entrevista.

Ao partilhar a sua experiência pessoal neste período, Putin pôs-se no lugar de milhões de russos que se recordam da inflação galopante, da falta de bens de primeira necessidade, do desemprego e da insegurança que fazia parte do seu dia-a-dia. “É a memória dos anos 1990 que explica a ascensão de Putin”, diz ao PÚBLICO Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais.

Em quase duas décadas, Putin construiu um sistema altamente centralizado baseado na lealdade e nas relações pessoais que o acompanhavam desde os tempos como coronel do KGB. Quando foi catapultado para o Kremlin por um Boris Ieltsine já em estado de coma político, Putin era uma “marca branca” que personalidades mais poderosas da elite económica e governamental pensavam poder manipular a seu bel-prazer. Apareceu como um homem sem história ou sem presença mediática, um desconhecido em que cada um podia ver o que quisesse.

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Boris Ieltsine e Vladimir Putin em 2006 EPA

“Mesmo em Abril de 2000, quando já tinha sido eleito Presidente, dois terços da população russa diziam saber muito pouco sobre Putin, apesar da sua presença constante nos ecrãs de televisão. Podiam-lhe ser atribuídas quaisquer qualidades. Putin era um homem sem características especiais, um espião perfeito”, escreve o jornalista Arkadi Ostrovski em A Invenção da Nova Rússia (Clube do Autor).

Por outro lado, Putin não podia ser mais diferente de Ieltsine. Enquanto um era jovem, forte, confiante e discreto, o outro estava velho, cansado, e era o rosto de um líder humilhado, que era encontrado a vaguear de madrugada pelos relvados da Casa Branca de Moscovo em circunstâncias pouco dignas.

Putin chegou ao Kremlin na alvorada do novo milénio para pôr fim à desordem dos anos 1990 e assegurar uma vida estável aos russos. Para isso, começou logo por pôr a comunicação social – que tinha gozado de uma liberdade inédita na história do país, apesar de dependente do dinheiro dos oligarcas – ao serviço do Kremlin.

Putin apareceu sem outra ideologia que não uma negação dos anos anteriores, da “terapia de choque”, da desordem e da humilhação internacional. “Ele veio trazer ordem, prestígio, ambição, fim da corrupção”, diz Bernardo Pires de Lima, autor de Putinlândia (Tinta da China). “É claro que tudo isto é substituído por outra roupagem, outra corrupção, outra desordem”, acrescenta.

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Combatente tchecheno na cidade de Grozni destruída, em 1997 Dima Korotayev/REUTERS

Política da oportunidade

Ao longo dos últimos 18 anos, as grandes decisões políticas do Kremlin foram tomadas face às oportunidades que foram aparecendo. O primeiro grande desafio foi a guerra na Tchetchénia, o palco perfeito para Putin, vindo do mundo dos serviços de segurança, mostrar a sua postura dura e agressiva – projectando logo de início a sua popularidade para índices que Ieltsine poderia apenas sonhar.

Seguiu-se o ataque contra as Torres Gémeas, em Nova Iorque, em que Putin fez questão de ser o primeiro chefe de Estado a telefonar ao Presidente George W. Bush para assegurar a unidade na luta contra o terrorismo, de que a Rússia também era alvo. Ao contrário da época de Ieltsine, a Rússia não se subjugava ao Ocidente, mas antes era um parceiro com os mesmos objectivos.

Colisão com o Ocidente

Em contraciclo com a crise financeira que deixou a Europa e os EUA em recessão, a Rússia atravessava um período de prosperidade alavancada pela subida recorde do preço do petróleo. Menos de duas décadas após a queda da União Soviética, eram criados multimilionários a um ritmo quase diário. A única condição: enriqueçam, mas mantenham-se fora da política. Ao mesmo tempo, o Kremlin consolidava-se como uma máquina de distribuição de recursos em circuito fechado e todas as suas políticas eram guiadas por esse objectivo. “O dinheiro era a única ideologia que o Kremlin professava”, escreve Ostrovski.

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Por esta altura, Putin atingiu o limite constitucional de dois mandatos e cedeu a presidência a Dmitri Medvedev, passando a ocupar o cargo de primeiro-ministro. As relações com o Ocidente mantinham-se corteses, mas de Moscovo vinham avisos. Em 2008, a adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO estava iminente, para ser travada no último minuto durante a cimeira de Bucareste, com o objectivo claro de evitar um conflito com a Rússia. Enquanto decorre esse debate, as tropas russas intervêm militarmente na Geórgia, surpreendendo um mundo que já não esperava ver tanques a rolar em solo europeu.

Anos depois, a deposição do Presidente ucraniano Viktor Ianukovitch após meses de protestos contra a aproximação da sua Administração a Moscovo, abre uma janela de oportunidade, mas também de muitos riscos: a península da Crimeia é ocupada por forças militares pró-russas que organizam um referendo não reconhecido internacionalmente para consagrar a anexação à Rússia.

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Cartaz a anunciar o referendo sobre a integração da Crimeia na Rússia, em 2014 Baz Ratner / Reuters

Para Bruxelas e Washington estava violado o status quo que governou as relações internacionais na Europa do pós-Guerra Fria e com a Rússia nada poderia voltar a ser como dantes; em Moscovo, celebrava-se efusivamente o regresso da cidade heróica de Sebastopol à mãe Rússia, o orgulho ferido estava finalmente sarado.

O “momento Crimeia” deu a Putin um crédito de popularidade quase sem tecto – nunca mais os seus índices baixaram dos 80%, sobrevivendo ao isolamento internacional, às sanções e à quebra da economia por causa da descida do preço do petróleo.

Maioria pós-Crimeia

As eleições deste domingo representam o momento para Putin legitimar toda esta conduta, especialmente a anexação da Crimeia – não é à toa que a data escolhida para as eleições coincide com o quarto aniversário da passagem do território para a Rússia. “Estas não serão eleições no verdadeiro sentido da palavra”, escreve o especialista do Centro Carnegie de Moscovo, Andrei Kolesnikov, “mas sim uma espécie de celebração da identidade da maioria pós-Crimeia”.

Hoje, os dois fantasmas que assombravam os russos órfãos da União Soviética – a instabilidade e a humilhação – parecem ter sido domados por Putin. O que se segue?

A Constituição obriga a que Putin deixe a presidência no final deste mandato, e o próprio já afastou a hipótese de a alterar. Assim, a perspectiva da saída de Putin passa a ser o principal facto político que deverá dominar a Rússia nos próximos anos. “Após as eleições, o comportamento dos principais actores políticos e económicos russos irá ser definido não pela presença de Putin no sistema, mas pela expectativa da sua partida”, escrevem os analistas Ivan Krastev e Gleb Pavlovski, num artigo publicado pelo European Council on Foreign Relations.

Porém, a saída de cena de Putin não significa necessariamente uma mudança de regime. Pires de Lima diz que “as condições económicas e a coesão do núcleo duro” vão determinar a possibilidade de que a sucessão seja feita em circuito fechado. “Com um prenúncio de sucessão daqui a seis anos, poderão surgir muitas clivagens. É aí que pode estar uma oportunidade para algumas pessoas com coragem capitalizarem com o descontentamento gerado pela economia e falta de liberdades”, afirma. Apenas o tempo dirá se o putinismo irá sobreviver a Putin.