Rússia e Ocidente. Uma inimizade preservada às custas da NATO

Maria Raquel Freire explica que Moscovo se sentiu excluída do processo securitário europeu e procurou responder à letra. À demonização russa, o Ocidente responde na mesma moeda - não há uma saída fácil desta situação.

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Putin promove a estratégia de recuperar a Rússia como uma grande potência Maxim Shemetov/REUTERS

Será difícil quebrar o actual ciclo de más relações do Ocidente com a Rússia, diz Maria Raquel Freire, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que se centra nos estudos para a paz, a Rússia e no espaço pós-Soviético. É autora do livro A Rússia de Putin - Vectores Estruturantes de Política Externa (2012, Edições Almedina). Mas há alguns bons exemplos de como se poderia fazer o degelo.

Por que é que a Rússia nunca foi capaz de se “desdiabolizar” aos olhos do Ocidente?

A lógica do inimigo mútuo tem a ver como a forma como as relações entre os dois blocos evoluíram nas décadas após o fim da Guerra Fria e, nomeadamente, com o processo de construção da segurança europeia. A preservação da NATO foi mal acolhida por Moscovo e esteve na origem da manutenção do clima de desconfiança mútua. Desde essa altura que no discurso político russo tem estado muito presente a ideia de que os aliados excluíram o país do processo securitário europeu. Essa lógica de exclusão levou a Rússia a criticar e demonizar o Ocidente, que por sua vez passou a encarar um discurso russo como uma imagem em espelho.

Até que ponto é que, entre o final da Guerra Fria e meados dos anos 2000, o Ocidente não confundiu um rival com um inimigo, e o tratou como tal?

A relação foi sempre difícil. Essa confusão foi-se fazendo desde o fim da Guerra Fria, mas deixou de se fazer com a anexação da Crimeia (2014). Ainda assim, houve vários momentos em que as relações avançaram. Basta-nos relembrar, por exemplo, a parceria entre a Rússia e a UE para a modernização, em 2010. Foi um momento importante, porque surgiu após um período de enorme tensão, gerado pelos planos da Administração Bush em instalar um escudo de defesa antimíssil na Europa, pela discussão sobre o alargamento da NATO à Ucrânia e à Geórgia e pela própria guerra na Geórgia (2008).

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Raquel Freire: "A lógica do inimigo mútuo tem a ver como a forma como as relações entre os dois blocos evoluíram após o fim da Guerra Fria" DR

A percepção ocidental da Rússia como um inimigo agravou-se com as intervenções militares na Ucrânia e na Síria?

Sim, claramente. A anexação da Crimeia marca de forma muito negativa as relações entre Ocidente e Rússia. A partir do momento em que se dá uma ingerência nos assuntos internos de um Estado, e se leva a cabo uma violação de fronteiras, assiste-se a uma mudança na leitura da segurança internacional e da segurança do ponto de vista europeu. Desde então a confiança é coisa que não existe. As relações estão a atravessar o pior momento de sempre.

Sempre me pareceu exagerado quando em 2008 e 2012 se falava no regresso da Guerra Fria. Mas admito que estamos numa situação muito próxima daquele estado de grande tensão entre o Ocidente e a Rússia. Neste momento não há altos e baixos, só baixos. Não vislumbro grandes oportunidades de melhoria e é difícil de ver como se pode quebrar o actual ciclo. Quando lemos que Putin está a testar novos mísseis que não são interceptáveis e que Donald Trump está a desenvolver armas nucleares mais pequenas, é porque estamos perante uma escalada militarista. E embora nenhuma das partes tenha interesse numa guerra directa, podemos afirmar que ela já está a ser travada na Síria.

Os líderes políticos, comunicação social e opinião pública ocidentais também contribuem para a diabolização da Rússia?

Contribuem bastante. Notícias relacionadas, por exemplo, com a capacidade de ingerência russa nos recentes processos eleitorais ocidentais contribuem para isso, uma vez que reforçam a leitura que fazemos do poder da Rússia no sistema internacional. Quando dizemos que a Rússia sobrevoa os espaços aéreos de outros países, que tem submarinos aqui e ali, que interfere nas eleições norte-americanas, francesas ou no referendo catalão, estamos a atribuir-lhe um determinado estatuto.

Apesar de ser um pouco crítica da forma como se publicita a política russa na Europa, penso que, ainda assim, é importante ter a noção de que a Rússia tem sido, de facto, um actor muito activo na influência das redes sociais e na difusão de propaganda e de desinformação. Tanto é assim, que a UE criou o StratCom – um gabinete de contra-informação, que trabalha a tempo inteiro no combate à desinformação e às notícias falsas. Quando entramos nestas lógicas, estamos também a reforçar a leitura de que o Ocidente vê a Rússia como inimigo e vice-versa.

É possível dissociar a liderança de Putin e a sua estratégia de política externa desta realidade?

Não. É importante enquadrar esta narrativa com o discurso patriótico russo e com a promoção da Rússia como uma grande potência, seguida pelo seu Presidente. É interessante verificar que nestas eleições Putin recandidata-se como independente e não como candidato do partido Rússia Unida. Claramente quer distanciar-se de algumas políticas internas menos bem-sucedidas e quer ser reconhecido como o líder patriótico e a figura histórica que trouxe a Rússia de volta à cena internacional. Olhando para a anexação da Crimeia e para a intervenção na Síria, estamos perante uma série de acções de Putin que apontam ao entendimento e ao reconhecimento da Rússia enquanto grande potência. E que acabam por contribuir também para o isolamento russo do Ocidente.

A lógica do inimigo mútuo só se poderá alterar num futuro sem Putin?

Eventualmente. Se analisarmos a situação interna russa e pensarmos no quanto a Rússia tem a ganhar com uma normalização com o Ocidente e, particularmente, com a União Europeia, há muitas vantagens. Ultrapassando a questão das sanções, retomando as políticas de modernização e a colaboração no investimento estratégico ou tecnológico, é possível criar sinergias. Alguns exemplos podem-nos dar esperança, como o acordo de cooperação que a UE assinou com a Arménia (2017) e que permite ao país desenvolver relações mais aprofundadas com a UE, sem interferir com a sua pertença à União Económica Euroasiática, e sem o obrigar a ter de optar por um ou por outro gigante. Um modelo diferente do que foi proposto à Ucrânia.