Opinião

Exercício de arquitectura

Não há defesa da profissão se não houver defesa da arquitectura enquanto disciplina.

Escrevi, em Julho de 2017, um texto intitulado “Precisões sobre um estado presente da arquitectura em Portugal” que Paulo Martins Barata (PMB) contestou num artigo recentemente publicado neste jornal. O primeiro aspecto curioso é ser PMB a responder-me. O segundo aspecto é que, na ansiedade de “desmistificar” essa minha “leitura misantrópica da profissão do arquitecto”, ele não faz mais do que a confirmar. Não exactamente pelo que disse, mas pelo que não disse, remetendo a questão de fundo para um jogo de oposições e simplificações (académicos/profissionais, nostálgicos/realistas) que dizem mais acerca do seu quadro ideológico do que do problema que interessa debater. PMB denuncia-me como “moralista”, mas há tanto moralismo no seu argumento como no meu. E é, precisamente, o facto de ele colocar a questão nestes termos que o impede de ver o problema em causa e faz do seu artigo um texto militante, sem dúvida, mas ineficaz.

Deixo, desde já, um aviso: não defendo que engenheiros assinem projectos de arquitectura, nem apelei a nenhum sentimento judaico-cristão de culpa. Sugeri, sim, a necessidade de reflectir não apenas sobre as condições do exercício da “profissão do arquitecto” no quadro legislativo, mas sobre o papel (colectivo e social) da arquitectura enquanto disciplina e saber no actual quadro económico-político. O que não tem nada que ver com reivindicar uma qualquer “missão espiritual” “salvífica” do arquitecto como “personagem quase arcano”. Ora, que se simplifique e caricature essa dimensão própria da arquitectura apenas confirma o meu diagnóstico e atesta uma “ruptura” (mas não aquela entre académicos/profissionais, utópicos/realistas, que foi sugerida). Diria que aquilo que nos separa é que eu estou interessado em falar a partir de uma condição disciplinar da arquitectura (que necessariamente engloba a sua produção), enquanto PMB parece falar única e exclusivamente a partir da “profissão do arquitecto”, do quadro genérico do exercício da actividade profissional.

Os contributos mais recentes de PMB para o debate público têm-se situado, precisamente, a esse nível, procurando fornecer todo um aparato metodológico, funcional e, até, linguístico, de natureza empresarial, capaz de lançar os arquitectos portugueses “vão de escada” nos mercados competitivos internacionais. Aliás, as últimas iniciativas que têm preenchido a agenda prendem-se com estratégias de internacionalização, branding e networking, onde já não interessa a obra propriamente dita (as condições e efeitos da sua produção), mas como essa pode ser vendida e exportada enquanto produto, em nome dessa nova (m)arca que é a “arquitectura portuguesa”. Até as escolas e centros de investigação têm sido chamados a cumprir o seu dever nacional.

Esta tem sido a grande consequência da incorporação da arquitectura na lógica político-económica do neoliberalismo e que deveria provocar uma reflexão séria e não apenas gestos diletantes. E cuja consequência mais visível tem sido a dissolução absoluta do vínculo entre condição disciplinar e exercício da profissão, às mãos da morte dessa figura do arquitecto enquanto profissional liberal (esse indivíduo que era à vez artista e homme de lettres, técnico e humanista) e a sua substituição por essa outra figura que é o arquitecto empreendedor (inscrito totalmente nas leis universais e transcendentes do mercado), para quem a arquitectura só pode ser uma prestação de serviços, um exercício puramente privado, onde não cabem certamente desígnios intelectuais sobre o desenho da cidade e do espaço do comum (porque a crise não deixa tempo, porque a encomenda pública quase cessou, porque o aparato legislativo e burocrático é imenso). Neste quadro, a “arquitectura” como disciplina reduz-se ao exercício da “profissão”, isto é, os problemas da arquitectura passam a ser os problemas da profissão. É aquilo que poderíamos chamar a privatização da arquitectura, do seu saber colectivo e da sua dimensão pública, a transformação do arquitecto num mero técnico de operações logísticas, ainda que, pontualmente, dotado de um discurso “poético” (esse, sim, salvífico), que apenas serve para encobrir o desencanto generalizado em que a profissão se encontra, ao mesmo tempo que faz da arquitectura um produto cultural de excepção, onde se confunde visibilidade cultural com visibilidade social.

Foi por isso que comecei por dizer que achava curioso que fosse PMB a responder ao meu artigo, porque se há prática de arquitectura que reflecte a ambiguidade das relações entre disciplina e profissão são os Promontório: num equilíbrio cada vez mais difícil entre vontade de construir um discurso de arquitectura humanista e liberal e a necessidade de responder a uma profissão cada vez mais capturada pela lógica total do mercado neoliberal. Talvez, a arrogância que o texto de PMB revela seja, afinal de contas, o sinal de um incómodo que permanece por pensar, de uma “ruptura” que não está aí necessariamente entre universidade e escritório, mas que atravessa o coração da própria “profissão do arquitecto”.

É, pois, nestas condições que me parece difícil construir um discurso que defenda a relevância da arquitectura na sociedade, quando grande parte das suas instituições (Ordem e escolas), embaladas pela lógica neoliberal, deixaram de construir condições de interpelação dessa relação social e desse vínculo entre disciplina e profissão. De facto, a arquitectura está tudo menos garantida. E é preciso lutar por ela. Mas isso não passa por “discursos da classe”, que apenas servem para ocultar as transformações que afectam o exercício da arquitectura. Não há defesa da profissão se não houver defesa da arquitectura enquanto disciplina. Como defender isso no quadro do neoliberalismo e das suas transformações políticas, sociais e económicas é, talvez, o desafio maior que se coloca.