A nostalgia da infância e a ficção científica no primeiro dia Portugal Fashion

A 42.ª edição do Portugal Fashion começou no sábado, em Lisboa, com sete apresentações no recém-inaugurado terminal de cruzeiros de Lisboa, projectado por Carrilho da Graça.

Fotogaleria
Susana Bettencourt desenhou peças com os contornos das máquinas de pinball e dos jogos Sega, de finais dos anos 1980
Fotogaleria
Alexandra Moura
Fotogaleria
Alexandra Moura
Fotogaleria
Alexandra Moura
Fotogaleria
Susana Bettencourt
Fotogaleria
Susana Bettencourt
Fotogaleria
Susana Bettencourt,Susana Bettencourt ,
Fotogaleria
Susana Bettencourt
Fotogaleria
Carlos Gil
Fotogaleria
Carlos Gil
Fotogaleria
Pedro Pedro
Fotogaleria
Pedro Pedro
Fotogaleria
Pedro Pedro
Fotogaleria
Alves/ Gonçalves
Fotogaleria
Alves/ Gonçalves
Fotogaleria
Alves/ Gonçalves
Fotogaleria
Storytailors
Fotogaleria
Storytailors
Fotogaleria
Storytailors
Fotogaleria
Storytailors
Fotogaleria
TM Collection
Fotogaleria
TM Collection
Fotogaleria
TM Collection

Arrancou no sábado a 42.ª edição do Portugal Fashion, em Lisboa. Mais correcto, aliás, seria dizer que atracou (por um dia apenas), no recém-inaugurado terminal de cruzeiros, uma obra do arquitecto por Carrilho da Graça. Foram ao todo sete os criadores que mostraram as suas propostas para a próxima estação de Outono/ Inverno – e, pelo caminho, nos levaram numa viagem atrás no tempo.

Alexandra Moura e Susana Bettencourt remaram, nesta temporada, em direcções semelhantes. De olhos em décadas passadas, ambas as criadoras levaram o público numa excursão à infância de cada uma, com referências de música, filmes de ficção científica e jogos de arcadas. As memórias de Alexandra Moura foram dos anos 1970 até aos anos 1990: tudo aquilo que absorveu numa altura em que “não havia grande informação” e que, ao mesmo tempo, sentia que a sua cabeça “de alguma forma já andava a mil”. 

Essas influências acabaram por se fazer sentir sobretudo nos padrões, que revelavam uma amálgama de referências, desde filmes como E.T. - O Extra-Terrestre e Encontros Imediatos do 3.º Grau a bandas de rock britânicas. O xadrez que escolheu para as gabardines e saias, por exemplo, contava a história de quando o padrinho da criadora – embaixador de Portugal em Dublin – lhe trazia peças com este material. Os sapatos com um aspecto plastificado lembravam os tempos em que esta decorava os sapatos com aquilo que tinha à disposição, fosse fita adesiva ou outro material.

PÚBLICO -
Foto

A criadora inspirou-se também no trabalho do fotógrafo Bobby Neel Adams, que combina as metades de duas fotografias da mesma pessoa – uma mais recente e outra mais antiga. Foi exactamente isso que apresentou na passerelle: um presente composto por vários fragmentos do passado. Nesta temporada, a criadora saltou a semana de moda Londres, onde tem apresentado com o apoio do Portugal Fashion. Explica que é uma situação que está fora do seu controlo e que continua ainda assim a apostar na internacionalização, com a presença em showrooms

Assim como os milhões de pessoas que tornaram Stranger Things um sucesso mundial, Susana Bettencourt não deixou de se rever na vivência das crianças protagonistas da série norte-americana, em finais dos anos 1980. A nostalgia dos tempos de infância (quando tinha uns seis ou sete anos) deu o mote à nova colecção e isso traduziu-se, de uma forma bastante directa, nas malhas – o ex-líbris da criadora, que as desenha de raiz – com contornos das máquinas de pinball e dos jogos Sega, tão populares da altura. As silhuetas também foram pensadas a partir da época. “Nessa altura ficava-se com a roupa dos irmãos, depois dava-se aos primos. Daí a ideia das calças largas e das peças desconstruídas”, explica Susana Bettencourt.

Chamou à colecção Machine After Machineslogan que imprime em algumas peças –, aproveitando para apontar que, ao contrário do que acontece hoje em dia, antes era preciso sair de casa para jogar videojogos. A criadora desenhou até os seus próprios bonecos: um pássaro e um cão robot. Fê-lo com a colecção de criança mente, um segmento no qual passou recentemente a investir. As peças que estarão à venda serão semelhantes, mas adaptadas aos tamanhos infantis.

Carlos Gil também foi buscar inspiração às décadas de 1970 e 1980, olhando para referências bem diferentes, nomeadamente para o estilo disco. Ao terminal de cruzeiros trouxe a mesma colecção que apresentou em Fevereiro, na semana da moda em Milão, com o apoio do Portugal Fashion. “As mulheres destas décadas abraçavam o divertimento e a euforia, elementos que não podem faltar na vida da mulher actual”, contou, então, o criador ao PÚBLICO.

Tal como Carlos Gil, também Pedro Pedro apresentou novamente a colecção que levou à cidade italiana. Nesta estação, o criador colocou de lado o "sportswear" e o "casual streetwear" e abraçou uma nova estética, mais ligada à roupa formal de escritório. Nela inclui desde diferentes tipos de tecidos às riscas (semelhantes à camisa clássica) sobrepostos a tons elegantes, como o camel.

PÚBLICO -
Foto

Cores vibrantes no Inverno

Apesar de apresentarem uma colecção virada para o "nocturno", no imaginário Alves/ Gonçalves, “não há manhã, não há tarde e não há noite”, atira Manuel Alves. Para a dupla de criadores “só há a mulher” e ela veste-se da forma como quiser, consoante o seu estado de espírito. A colecção que mostram esta temporada exemplifica-o com combinações de peças improváveis e o cruzamento de elementos desportivos com uso de materiais como tules, rendas, veludos e nylon.

As néons surgem também em contrariedade daquilo que se espera de uma estação de Inverno. A haver uma definição da mulher Alves/ Gonçalves, aponta ainda o criador, será alguém com um espírito cosmopolita.

O primeiro dia do Portugal Fashion começou e terminou com espectáculo. Logo ao início da tarde, foram os Storytailors que abriram caminho com um formato de apresentação alternativo. Colocaram primeiro a colecção no centro da sala de desfiles, enquanto duas figuras vestidas com fatos de protecção brancos – que no final revelaram ser a dupla de criadores da marca – mexiam e remexiam nas peças. Em continuidade com estações anteriores, mostraram uma colecção fluida, com peças ao mesmo tempo reversíveis e divisíveis – ou seja, com metades que podem ser combinadas entre si através dos fechos.

O desfile da marca TM Collection, de Teresa Martins, começou, como é costume, com uma performance artística. Não fosse a estação fria aquela em causa, foi ao som do Inverno, d’As Quatro Estações de Vivaldi que os bailarinos se começaram a mexer, criando um trilho de esferas reluzentes para as modelos. Com inspiração nos tons da floresta, a colecção manteve-se fiel à estética da marca, de mistura de padrões, texturas e cores.

A 42.ª edição do Portugal Fashion segue agora para o Porto, entre os dias 22 e 24 de Março. Este ano, o evento abandona o Alfândega do Porto – onde tem sido nos últimos anos – e passa a ocupar o Parque da Cidade do Porto.