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“Toupeira” do Benfica com nove computadores da Justiça em casa

Despacho do procurador com resumo dos indícios dos dois detidos da Operação E-Toupeira divulgada esta sexta-feira num blogue.

Funcionário acederia aos processos em computadores dos tribunais de Guimarães e Fafe.
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Funcionário acederia aos processos em computadores dos tribunais de Guimarães e Fafe. Daniel Rocha

Nove computadores, três dos quais plenamente operacionais, dois monitores e uma impressora do Ministério da Justiça foram encontrados pela PJ em casa do técnico informático que terá espiado o desenrolar de dez inquéritos-crimes para o Benfica.

Dois desses aparelhos seriam usados pelos filhos do escrivão adjunto que, considera o Ministério Público (MP), se apropriou indevidamente do material informático do Estado. Por isso, o funcionário que prestava apoio informático nos tribunais de Guimarães e Fafe também está indiciado por um crime de peculato.

Os elementos fazem parte do despacho do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa que resume os indícios existentes contra os dois detidos do processo E-Toupeira. O documento foi divulgado esta sexta-feira pelo blogue Mercado de Benfica que já publicou outros documentos sigilosos, como a informação de serviço da PJ que deu origem ao processo E-Toupeira.

Os computadores apreendidos em casa do técnico foram aliás um dos argumentos que levaram o MP a defender a prisão preventiva do funcionário, já que mesmo em prisão domiciliária, sustentou-se, o técnico poderia continuar a actividade criminosa.

O despacho, com 29 páginas, é assinado pelo procurador Valter Alves e concretiza os dez inquéritos que terão sido espiados pelo escrivão adjunto, de 51 anos, pelo menos desde Junho do ano passado. Para consultar o historial dos inquéritos o funcionário usou, diz o MP, a password de uma magistrada do DIAP de Lisboa, que está afastada daquele departamento.

As consultas eram feitas através de múltiplos computadores dos tribunais de Guimarães e de Fafe, onde o técnico entrava tanto com as suas credenciais como com as de um familiar, um oficial de justiça reformado há mais de três anos, que também é arguido deste caso. 

Os casos que envolviam o Benfica, como suspeito ou como queixoso, eram os que concentravam maior atenção do escrivão adjunto, mas este também terá consultado outros que envolviam clubes rivais. Exemplo disso é uma investigação resultante de uma denúncia anónima contra o presidente do Sporting. Os dados relativos a esses processos terão sido passados ao assessor jurídico do Benfica, Paulo Gonçalves, o outro detido desta operação, que está proibido de contactar com os outros quatro arguidos. 

O “caso dos emails” terá sido o que reuniu mais consultas: segundo uma listagem do MP, o historial do inquérito era consultado quase diariamente e chegou a ser visualizado dez vezes no mesmo dia. Uma cópia do historial deste processo foi, segundo o documento, encontrada no gabinete de Paulo Gonçalves, a quem o mesmo terá sido entregue por este funcionário.

Era igualmente frequente a visualização da evolução do “caso dos vouchers” e de dois processos que resultaram de queixas do Benfica na sequência da divulgação de emails por parte do director de comunicação do FC Porto.

Sobre as contrapartidas alegadamente recebidas pelo escrivão adjunto o MP diz que sempre que o Benfica jogou em casa Paulo Gonçalves disponibilizou-lhe pelo menos quatro bilhetes, com parque incluído. O mesmo terá sucedido em alguns casos em que o Benfica jogou fora. Terá recebido igualmente camisolas e casacos da equipa de futebol.

O procurador precisa que no Benfica-Chaves, a 20 de Janeiro deste ano, o técnico informático levou para o jogo o sobrinho, licenciado em Turismo, “para eventual contratação deste para o museu do Benfica”, remetendo esta informação para uma escuta telefónica. A contratação, diz o MP, “foi acertada com o próprio Paulo Gonçalves”, que já tinha entregado os dados relativos ao jovem nos recursos humanos do clube. Aliás, um currículo do rapaz foi encontrado numa gaveta da secretária de Paulo Gonçalves.

Contactado pelo PÚBLICO, o advogado do escrivão adjunto, Paulo Gomes, não quis comentar as novidades do caso. 

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