Editorial

Montepio, a casa de papel

A única certeza é que se algo correr mal, governos e supervisores vão dizer-nos que fizeram tudo o que a lei lhes permitia. Foi assim do BPN ao BES. Agora não será diferente.

Tudo o que se tem passado no universo Montepio sob a liderança de António Tomás Correia podia ser descrito como uma tragédia cómica. Mas o que os últimos acontecimentos nos mostram é outro filme, mais parecido com a série do momento: A casa de papel.

Na série, para efectuar o roubo do século, um grupo de meliantes toma de assalto a casa da moeda espanhola fazendo reféns. Tudo comandado do exterior por um homem de inteligência superior, meticuloso e extremamente paciente que se auto intitula de “o professor”.

No Montepio, não haverá assaltos e Tomás Correia não é “o professor”. Tomás Correia é um mestre. Não tem funcionários como reféns, mas parece ter sequestrados os reguladores, o Governo, os seus administradores e os órgãos de controlo interno da instituição que dirige há demasiado tempo.

Apesar dos resultados desastrosos ou comunicados com meias verdades que divulga, do interior do Montepio não se ouve uma palavra. Ninguém se demarca do mestre.

Mas a mão de Tomás Correia chega muito mais longe. Só assim se pode compreender a passadeira que lhe foi estendida pelo Governo. Já sabemos que foi tudo legal. As Finanças não tinham alternativa. Cumpriram a lei e permitiram que a Associação Mutualista perdesse a isenção de IRC e obtivesse, com essa manobra, um crédito fiscal superior a 800 milhões de euros. E, por certo, também Vieira da Silva, o ministro da Segurança Social, que ainda faz de conta que supervisiona a Associação, não podia fazer nada. Nem o preocupa que a Associação tenha contas completamente maquilhadas. Ou que as misericórdias apostem as suas poupanças no Montepio.

Mas não é só o Governo que parece sequestrado. Foi o Banco de Portugal que obrigou a separar a gestão da Caixa Económica da Associação Mutualista. Mas Tomás Correia continuou a mandar em tudo. Agora, aparentemente, Carlos Tavares será o novo chairman e presidente executivo da Caixa Económica por seis meses. E ninguém acha estranho. Carlos Tavares foi até ao final de 2016 presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliário, o supervisor que deliberou sobre várias operações da Caixa Económica. Se fosse hoje, por lei, estaria obrigado a um período de “nojo” de dois anos, mas quando saiu do supervisor a lei ainda não se lhe aplicava.

Mais uma vez está tudo legal. Para a instituição liderada por Carlos Costa só a legalidade interessa. A moral não é chamada. Basta lembrar que o actual responsável pelo departamento jurídico do supervisor e o responsável pela supervisão prudencial saltaram do Banco de Portugal para a consultora PricewaterhouseCoopers e regressaram ao Banco de Portugal como se tudo fosse normal.

Tal como na série A casa de papel, ninguém em consciência sabe como vai acabar a história. Se a economia continuar a crescer, talvez o mestre consiga os seus objectivos e os sequestrados saiam ilesos. Mas bastará uma rajada de vento para a casa vir abaixo com os sequestrados lá dentro. A única certeza é que se algo correr mal, governos e supervisores vão dizer-nos que fizeram tudo o que a lei lhes permitia. Foi assim do BPN ao BES. Agora não será diferente.