Marco Gil
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Marco Gil

Megafone

O que somos para os outros

Somos cores, músicas, sabores, um riso e a ausência dele, cheiros. Às vezes até somos uma campainha

Faço meia dúzia de torradas, meto o café ao lume (mas tem de ser Tofina”) e depois passo a geleia; é a minha avó. Aquele sabor, que será para sempre eterno, é o que me faz lembrar a minha avó. Isso e as mãos dela, a pele fina e macia, mas envelhecida pela história, as veias salientes e o aconchego nas mantas ou a laca no cabelo — ainda sinto o cheiro da laca por cada vez que fecho os olhos.

O meu avô é uma malga de pão migado e uma cantiga da Amália, cujo título não me lembro. Ele será sempre aqueles serões largos e quentes onde se via a bola a sério. O meu avô é o assobio que se ouve pela rua toda. E as latas de conserva ao almoço? O meu pai é isso e umas peúgas cinzentas de algodão com quase tanto borboto como tecido, é também Old Spice e uma camisa de flanela só para os domingos.

A Ana, que era a vizinha de cima, será para sempre um top branco; o carteiro é a buzina da motorizada e gasosa com groselha será eternamente o café da rua de baixo, às vezes um fizz. Conheço o Roberto desde que nasci e ele será sempre a infância — isso e pastilhas gorilas de mentol. Ele é o Ayrton Senna porque nos saía sempre um capacete dele nos cromos daquele travo forte e fresco.

Para o meu amigo Zé, uma manga guarda as memórias da infância em Moçambique onde viveu até aos cinco anos. As matinés de sábado à tarde na discoteca são um tio de um amigo meu que já não vejo há duas décadas e o pai dele era a voz do António Sala. A Maria era costureira e, para lá do som da máquina, ainda cheira a naftalina e alfazema. O meu primo é o MacGyver e o meu irmão um cabelo “à tigela”; o sorriso da minha mãe raramente tem uma gargalhada, ela esboça apenas o rosto que parece desenhado e abre-se para a felicidade sem qualquer som.

As pessoas nunca serão coisas, mas as coisas são na maior parte das vezes emoções, sons, cheiros, o toque. A memória não se esconde, nem se convida para jantar, mas leva-nos a todos os lugares onde cada instante será sempre alguém. O mais fascinante é podermos perceber que, sem sabermos, deixamos sempre uma marca nos outros que pode começar em pão migado e terminar num frasco de laca.

O pai de cada um de nós nem se apercebe que o cheiro do aftershave que usa nos pode ficar para a vida toda. As pessoas deixam-nos um pedaço sem saber que o fazem. A vida não é apenas aquilo que parece; ela é tudo o que deixamos nas pessoas com quem nos cruzamos, dos próximos aos mais distantes, mesmo quando não sabemos que o estamos a fazer. Existe em cada detalhe e, por vezes, em cada suspiro que damos; pode ser um tique na fala, como a forma como se abraça. A vida pode ser lavanda e cheirar a lápis de cera ou um bolo de chocolate e uma lata de conserva. Porque viver é muito mais que respirar.

Somos cores, músicas, sabores, um riso e a ausência dele, cheiros. Às vezes até somos uma campainha. E eu? Ou cada um de vocês? O que serão para os vossos pais, para os vossos amigos e irmãos? E o que seremos um dia para os nossos filhos ou para cada um que passou por nós? Eu não me importava de ser uma palavra, uma frase, “uma risada sem fim”. De lembrar um abraço ou aquele sorriso desenhado da minha mãe, de ser uma boa conversa na almofada ou, na pior das hipóteses, um roçar de pés diferente.