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Balas que mataram Marielle pertenciam a lote comprado pela polícia de Brasília

O mesmo lote de munições foi utilizado em Agosto de 2015 durante violentos confrontos em São Paulo que resultaram na morte de 17 pessoas.

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As balas que mataram Marielle Franco, a vereadora da câmara do Rio de Janeiro que foi morta na noite de quarta-feira com quatro tiros na cabeça, pertenciam a um lote de munições comprado pela Polícia Federal de Brasília em 2006. A informação foi obtida numa investigação do programa RJTV da Globo.

De acordo com o canal brasileiro, a origem das munições foi desvendada através das cápsulas das balas encontradas no local do crime. Faziam parte de um lote que terá sido comprado a uma empresa privada por parte da Polícia Federal da capital brasileira. E foi o mesmo lote utilizado em Agosto de 2015 durante violentos confrontos em São Paulo que resultaram na morte de 17 pessoas. Três polícias e três militares foram condenados devido a estas mortes.

A Polícia Federal de Brasília e a Polícia Civil do Rio de Janeiro emitiram um comunicado conjunto onde afirma que vão investigar a origem das munições. De acordo com o que explica a comunicação social brasileira, é comum organizações criminosas desviarem munições das autoridades ou até o reaproveitamento das cápsulas das balas.

A investigação aos motivos do assassínio de Marielle Franco está em curso, mas os media brasileiros dizem que as autoridades estão a trabalhar com base na suspeita de assassínio político – a vereadora da câmara do Rio de Janeiro seguia no banco de trás de um automóvel quando foi atingida com quatro tiros na cabeça, num ataque que também resultou na morte do motorista, Anderson Gomes, de 39 anos. Os atacantes puseram-se em fuga sem levarem nenhum dos pertences das vítimas.

Milhares nas ruas do Rio de Janeiro por Marielle

Milhares de pessoas juntaram-se quinta-feira em várias cidades do Brasil em protesto contra o assassínio de Marielle Franco. Nas últimas horas, quase todos os pré-candidatos às eleições presidenciais de Outubro manifestaram lamento e repúdio pela morte de Marielle Franco, à excepção de Jair Bolsonaro – segundo o assessor do deputado federal conhecido pelo seu apoio à ditadura militar, a sua opinião seria "polémica demais".

Para além de não ter emitido um comunicado, Bolsonaro, também conhecido pelas fortes críticas à falta de segurança nas cidades brasileiras, tem evitado comentar no Twitter o assassínio da vereadora.

Mas um dos seus filhos, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro, tem partilhado várias mensagens que contestam a ligação do crime à Polícia Militar, e que comparam a morte de Marielle Franco (que muitos suspeitam ter sido um assassínio político) aos homicídios que acontecem diariamente nas grandes cidades brasileiras.

"O assassino da vereadora Mirielle Franco… se for um PM [polícia militar] guilhotina, se for um traficante é vítima da sociedade. Assim é a esquerda", lê-se numa das mensagens partilhadas por Eduardo Bolsonaro. "Mais uma lição: se você morrer seus assassinos serão tratados por suspeitos, salvo se você for do PSOL, aí você coloca a culpa em quem você quiser, inclusive na PM. Eis o verdadeiro preconceito, a hipocrisia. 'Para os meus amigos tudo, aos demais a lei'", escreveu o próprio deputado federal numa outra mensagem.

Nascida numa favela, negra e lésbica, a vereadora do PSOL, de 38 anos, destacou-se na defesa dos direitos humanos e na luta contra todas as formas de discriminação. Era também conhecida pelas fortes críticas à actuação da Polícia Militar nas favelas do Rio de Janeiro e, no último mês, da intervenção do Exército brasileiro nas ruas da cidade por ordem do Presidente Michel Temer.

O pré-candidato às eleições presidenciais pelo partido de Marielle Franco, Guilherme Boulos, divulgou várias mensagens de pesar pela morte da vereadora, exigindo que as autoridades encontrem os responsáveis. "Marielle era uma mulher, negra, vinda da favela. Uma mulher que denunciava abusos da polícia. Que era contra a intervenção militar no Rio e tinha coragem de enfrentar. Marielle não sofreu acidente ou assalto: foi executada."

Também Lula da Silva (em risco de se ver impedido de concorrer se a sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro for mantida) disse que "o Rio de Janeiro e a democracia brasileira foram atingidos por esse crime político bárbaro". "Meus sentimentos e solidariedade aos familiares, amigos e companheiros de Marielle Franco, corajosa liderança política. O Rio de Janeiro e a democracia brasileira foram atingidos por esse crime político bárbaro", escreveu Lula da Silva no Twitter.

Na mesma linha, o pré-candidato Ciro Gomes, também da esquerda, disse que o assassínio de Marielle Franco é "uma situação grave que deve ser apurada rapidamente e com profundidade". "Sua luta por um Brasil mais justo e contra a discriminação deve ser empunhada por ainda mais brasileiros e brasileiras", disse o pré-candidato do Partido Democrático Trabalhista.

A pré-candidata pelo partido Rede Sustentabilidade, Marina Silva, lembrou Chico Mendes, "que morreu na defesa dos injustiçados da floresta", para enaltecer Marielle Franco, "que morreu defendendo os injustiçados da cidade". "O sentimento é de muita tristeza e indignação. Do Rio de Janeiro chora o mundo inteiro!"

E Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira, disse que "o assassinato da vereadora Marielle Franco revolta o Brasil inteiro. Um crime bárbaro que precisa ser rapidamente esclarecido, com os responsáveis punidos severamente. Esse homicídio revela a ousadia dos criminosos no país. Intolerável."

Também na quinta-feira, o Presidente brasileiro, Michel Temer, lamentou "esse acto de extrema covardia contra a vereadora Marielle Franco", e disse que vai acompanhar a investigação "para a punição dos autores desse crime".

"Trata-se de um atentado ao estado de direito e à democracia", disse Temer.

O velório e o funeral de Marielle Franco, na tarde de quinta-feira, levaram para as ruas milhares de pessoas no Rio de Janeiro, mas também em outras cidades brasileiras, como São Paulo e Brasília. O corpo de Marielle Franco foi sepultado no cemitério São Francisco Xavier, no complexo do Caju, na zona Norte do Rio de Janeiro. Muitos dos presentes tinham adesivos colados à roupa com as palavras "Marielle Presente".

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