Merkel visita Macron para arrancar processo de reforma da zona euro

Alemanha e França ainda parecem muito distantes de uma posição comum, que apresentam em Junho.

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Macron e Merkel: a chanceler alemã admitiu que nem sempre estão em sintonia, mas ETIENNE LAURENT/EPA

Na semana em que tomou finalmente posse o Governo alemão, a chanceler, Angela Merkel, foi a Paris visitar o Presidente francês, Emmanuel Macron, para discutir planos de reforma da zona euro.

"Não estamos sempre em sintonia", admitiu Merkel. "Mas França e Alemanha conseguiram já muito no passado e agora temos a intenção firme de o fazer de novo" em relação a planos para estabilização da zona euro e de melhoria da competitividade do bloco da moeda única, declarou antes do encontro com Macron.

"Vamos ter um plano de acção claro e ambicioso para esta mudança", disse, pelo seu lado, Macron, acrescentando que este deverá também referir questões de migração, defesa e comércio. 

Os ministros das Finanças dos dois países tiveram também a sua primeira reunião de trabalho, de onde tinha já saído o compromisso de um plano conjunto até à próxima cimeira europeia de Junho. Nas declarações dos dois, sobressaiu uma resposta sucinta do ministro alemão, Olaf Scholz, quando um jornalista lhe perguntou se queria contribuir para uma maior integração na zona euro: “Sim”.

Todos os olhos estavam nos detalhes das declarações alemãs, quando a imprensa europeia especula que Berlim não está preparada para concordar com muitas das propostas francesas.

Os dois líderes também viram mudar a sua posição interna desde que iniciaram a sua relação e trabalho quando Macron foi eleito em Maio do ano passado: Merkel venceu as eleições de Setembro mas a formação de Governo demorou seis longos meses; ao longo destes meses em que esperou a reposta alemã às suas propostas, e Macron viu a sua posição na política francesa mudar, com contestação aos seus planos de reformas (ainda esta semana houve protestos de pensionistas e dos trabalhadores ferroviários que pretende privatizar).

O paradoxo é, como aponta o jornal Politico, que “a reforma da zona euro não é um tema do debate político em França, mas Macron fez dela um grande objectivo político”, enquanto “na Alemanha, tornou-se parte do debate político, embora Merkel tenha mostrado um interesse apenas ténue na ideia”.

Macron tem insistido na necessidade de reformar a zona euro para esta responder melhor a problemas e não esperar a próxima crise económica ou financeira para o fazer. Merkel admite aumentar a contribuição alemã e mas tem dado respostas muito vagas sobre tudo o que implique mutualização da dívida – “não devemos simplesmente mutualizar a dívida sem nos tornarmos competitivos”, disse recentemente, embora abrisse a porta a uma união bancária, “mas primeiro é preciso que haja uma redução dos riscos domésticos dos bancos, e isso exige discussão”, declarou na quarta-feira.

Se a presença do SPD no Governo – e de Olaf Scholz na pasta das Finanças – parece dar força às ideias de Macron, e se o eixo franco-alemão é fundamental, há vários outros factores e países em jogo: a Itália é um que tem bastante influência, com os bons resultados dos partidos com agendas anti-europeias num país com a terceira economia da zona euro (e cujos bancos têm um grau de exposição ao risco significativo).

Nestes últimos meses, os dois países foram avançando em trabalho técnico para uma aproximação em termos fiscais, com o objectivo especialmente de harmonizar padrões de cálculo para as empresas para desincentivar competição, abrindo a porta a que comece agora o trabalho político.

França tem pressionado para mais rapidez nas mudanças na zona euro, e Macron foi levando a cabo as suas próprias reformas para se posicionar melhor para reivindicar mais mudanças.

Ainda assim, responsáveis franceses citados sob anonimato pela Reuters admitem que as ideias da criação de um ministro das Finanças para a zona euro e um orçamento para a zona euro estão, para já, fora da discussão. “As ambições de França foram revistas em baixa”, comentava o diário Le Monde.

A janela de oportunidade para outras alterações, alertam ainda os responsáveis que falaram à Reuters, pode estar a fechar-se com o avanço do processo do “Brexit”, as eleições parlamentares e a nova comissão europeia em 2019.