Civis bombardeados por Assad e aliados ao fugirem de Ghouta

Há cerca de 60 mil sírios em fuga das duas grandes ofensivas em curso na guerra que dura há oito anos e acusações de que a Rússia está a usar bombas de fragmentação, proibidas por um tratado internacional.

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Em fuga de Ghouta Omar Sanadiki/REUTERS
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Com os meios possíveis, quem pode fugir, fugiu Omar Sanadiki/REUTERS
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Em Douma, a maior cidade da região de Ghouta Oriental MOHAMMED BADRA/EPA

Entre 12 mil a 16 mil pessoas abandonaram a região de Ghouta Ocidental nos últimos dias, sob ataque de aviões russos, em que morreram 80 pessoas. Em Afrin, no Norte do país, 48 mil estão em fuga, sob o bombardeamento turco. Ao todo, esta sexta-feira há cerca de 64 mil pessoas em fuga, enquanto as batalhas decorrem, com civis encurralados em várias frentes, e acusações de que estão a ser usados como escudos humanos.

“Centenas de pessoas continuam a partir”, disse Linda Tom, porta-voz do Gabinete de Assuntos Humanitários da ONU à Reuters. Com o apoio da Rússia e do Irão, a ofensiva das últimas três semanas do Presidente Bashar Al-Assad contra o enclave da oposição de Ghouta Ocidental, nos arredores de Damasco, dividiu a região em três zonas isoladas, sem acesso a alimentos nem cuidados desde 2013, e alvos de ataques com armas químicas. O exército sírio anunciou que controla já 70% deste território, mas os movimentos rebeldes recusam render-se.

A ONU calcula que ali vivam cerca de 400 mil pessoas e, pela primeira vez desde o início desta grande ofensiva, provavelmente devido à desagregação do controlo do território pelas várias facções que o detinham, as pessoas estão a fugir aos milhares. Levam as crianças e os seus parcos bens, a pé, até posições controladas pelo governo.

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— UN Refugee Agency (@Refugees) 7 years of tragedy
7 years of silent suffering
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"Estávamos a morrer"

Imagens na televisão síria mostram algumas destas pessoas a dizer que tinham sido impedidas de sair pelos grupos que controlavam o local onde viviam. “Não havia comida, nem medicamentos, nada. Estávamos a morrer ali”, disse uma mulher.

Mas a fuga dos civis não trava os bombardeamentos: pelo menos 80 pessoas foram mortas esta sexta-feira, incluindo 14 crianças, nas cidades de Kafr Batna e Saqba, disse o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

Aponta o dedo à aviação russa e afirma terem sido usadas bombas de fragmentação – proibidas por um tratado internacional, mas do qual não fazem parte nem a Rússia nem a Síria. “Os corpos ficaram calcinados pelos ataques dos aviões russos”, afirmou à agência AFP Rami Abdel Rahmane, director deste grupo com informadores no terreno.

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A aviação de Assad também usa aviões russos e Moscovo nega a autoria do ataque. O general Igor Konashenkov, porta-voz do Ministério da Defesa russo, garante que a sua aviação “não cumpre nem nuca cumpriu missões de combate na zona de Ghouta Oriental”, cita-o o El País. Classifica estas acusações provenientes de “fontes de activistas anónimos em Kafr Batna” como a “enésima mentira”. Provas, não avançou. 

O Governo de Assad tem recuperado território oferecendo aos rebeldes passagem para outras áreas sob controlo de forças da oposição junto à fronteira com a Turquia. A Rússia tem feito o mesmo em Ghouta, mas essa oferta tem sido recusada. Wael Olwan, porta-voz da Failaq al-Rahman (Legião Al-Rahman), lançou um comunicado a partir da Turquia dizendo que "é rejeitado o que os russos estão a pedir, como condições de rendição", noticiou a Reuters. Este grupo está relacionado com o Qatar, e não é descrito como jihadista. 

Escudos humanos?

Em Afrin, a Turquia quer esmagar as milícias curdas sírias YPG, que considera uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), classificado como uma organização terrorista. Lançou uma operação contra aquilo que denomina “o terror curdo”, apesar de as YPG serem o maior aliado no terreno dos Estados Unidos.

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População curda em fuga da região de Afrin Khalil Ashawi/REUTERS

Apesar de Assad ter enviado uma força para ajudar os curdos de Afrin, a cidade de cerca de 200 mil habitantes está cercada e o maior hospital da região foi bombardeado esta sexta-feira. Com o abastecimento de água cortado, bombardeamentos aéreos e de artilharia intermináveis. Fugiram já 48 mil pessoas, na sua maioria famílias curdas, diz a ONU. "Estão a ir para as montanhas, para longe da incursão turca ", disse ao Guardian o responsável pela missão humanitária da ONU, Ali al-Zaatari

A administração da cidade acusa Ancara de querer forçar o êxodo. “Dezenas de milhares de civis foram forçados a fugir”, diz um comunicado citado pela Reuters.

A Turquia acusa os curdos de estarem a usar a população civil como escudos humanos, e a ONU dá-lhes razão. O gabinete do Alto-Comissário para os Direitos Humanos das Nações Unidas diz ter recebido “relatos muito perturbantes” de civis que morreram e foram feridos, e que as milícias curdas estão a impedir as pessoas de sair da cidade, diz a Reuters. “Só os civis com contactos no seio das autoridades e das forças armadas curdas têm conseguido sair”, diz um comunicado desta sexta-feira.

A Turquia está a preparar-se para conquistar Afrin com um combate duro, rua a rua, disse Ibrahim Kalin, porta-voz do Presidente Recep Tayyip Erdogan à televisão estatal TRT. E se conseguir conquistar, não transferirá o controlo para Assad, assegurou, citado pelo Washington Post. A cidade deve ser controlada pela população local, onde inclui os aliados árabes e turcomanos – o que parece excluir os curdos.

É uma pegada gigante que a Turquia está a dar nesta guerra onde há já tantas potências estrangeiras a fazer o seu jogo – Rússia, Irão e Estados Unidos são apenas os mais importantes. As milícias curdas não vão deixar Afrin facilmente, explicou ao jornal de Washington Elizabeth Teoman, do Instituto para o Estudo da Guerra. “A perda da cidade prejudicaria a legitimidade das YPG como defensoras das zonas etnicamente curdas do Norte da Síria, e poria em causa as ambições curdas a formar um Estado.