Opinião

Dia Mundial do Sono e o Lisbon Sleep Summit – Sleep in Women

Hoje em dia dorme-se pouco em todas as idades. Portugal exagera com médias de duração do sono assustadoramente baixas e hábitos de sono dos mais tardios no mundo.

O Dia Mundial do Sono a 16 de Março entrelaça-se com o Nobel da Medicina de 2018, atribuído a três investigadores norte-americanos: Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young. Eles descreveram os mecanismos moleculares que regulam os nossos ritmos biológicos, estudando a mosca da fruta, e as descobertas nesse pequeno inseto são generalizáveis a outros seres vivos e a nós inclusive. Os ritmos circadianos e a suas descobertas são histórias engraçadas.

Pensa-se que as bactérias azuis que viviam em charcos nos primórdios da vida na terra “perceberam” que se se multiplicassem durante o dia a multiplicação corria mal, e começaram a multiplicar-se só de noite, estabelecendo assim um ritmo circadiano ancestral. Este ritmo foi transmitido a seres vivos que surgiram subsequentemente e isso faz com que, hoje em dia, numa fantástica adaptação à vida na terra, bactérias, plantas e animais tenham ritmos circadianos, ou seja, ritmos com período de 24h, o tempo da rotação da terra em torno do seu eixo e da consequente alternância do dia e da noite.

Isto quer dizer que muitos seres vivos têm relógios biológicos, ou seja, mecanismos moleculares, genes relógio e circuitos humorais, hormonais ou neuronais capazes de medir o tempo de forma independente da alternância dia-noite, mas regulados por ela.

O sono vai aparecer na evolução da vida uns milhões de anos mais tarde, com os animais, e assim vamos passar da alternância repouso/atividade para o sono indiferenciado/vigília dos animais de sangue frio e para sono diferenciado (NREM e REM)/vigília dos animais de sangue quente.

Assim, para além do sistema sono/vigília temos um sistema circadiano bem complexo, mas que surgiu muito precocemente na evolução da vida. Por isso mesmo, a alteração, desrespeito e desorganização desse sistema tem consequências muito dramáticas, com grande aumento dos riscos de doenças tão terríveis como o cancro, a demência, a depressão e a insónia crónicas, a incapacidade para o trabalho e os acidentes graves.

Estas catástrofes humanas assemelham-se às catástrofes ambientais que se tornaram comuns nos dias de hoje e têm uma origem semelhante: o desrespeito pelos equilíbrios estabelecidos ao longo de milhares ou milhões de anos.

Efetivamente, nós partilhamos com a mosca da fruta um bom par de genes relógio e temos uma relojoaria complicada no nosso corpo com um relógio dominante, múltiplos relógios periféricos e genes relógio. O nosso corpo mede o tempo tão bem como os nossos relógios de pulso e funciona com e precisa de ritmos regulares.

Porém, as sociedades e os hábitos, que durante muitos séculos respeitavam os ciclos naturais, modificaram-se de forma substancial a partir do fim do século XIX. A capacidade de armazenar e produzir eletricidade em grande escala e a invenção da lâmpada, o desenvolvimento industrial e tecnológico, o controlo sobre a energia, a produção alimentar e as comunicações, os instrumentos de “high tech” ao alcance de todos, mudaram comportamentos e crenças em todas as idades.

Hoje em dia dorme-se pouco em todas as idades. Portugal exagera com médias de duração do sono, em estudos mais recentes, assustadoramente baixas e hábitos de sono dos mais tardios no mundo, associando-os, numa mistura explosiva, a hábitos matutinos ao começar tudo mais cedo.

É isto que constitui o desafio do Dia Mundial do Sono de 2018: Junte-se ao Mundo do Sono! Preserve os seus Ritmos e desfrute a Vida!

E porque os problemas de sono são particularmente evidentes nas mulheres, de 16 a 19 de maio terá lugar em Lisboa o Lisbon Sleep Summit 2018, uma reunião internacional dedicada ao sono da Mulher – Sleep in Women.

Porquê o sono na mulher? Primeiro, porque há um grande desconhecimento do sono no feminino, posto que a maior parte dos estudos sobre sono, tanto em animais como em humanos, foram feitos no sexo masculino, para evitar a variabilidade e contingências que os ciclos hormonais femininos introduziam no problema em estudo.

Depois, porque a mulher tem em todas as sociedades circunstâncias e desfavorecimentos especiais. As desigualdades de género são uma realidade mundial, expressa em todas as estatísticas credíveis, das Nações Unidas, OCDE e Eurostat, etc.

Recentemente, no Dia Internacional da Mulher, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse que “a promoção dos direitos das mulheres não é um favor às mulheres” e que “o assédio e o abuso sexuais têm prosperado “nos locais de trabalho, nos espaços públicos, nos lares e em países que se orgulham do seu desempenho em matéria de igualdade de género”. De facto, nas sociedades atuais a mulher tem desafios especiais nas suas múltiplas funções como mãe, profissional, dona de casa, mulher, cidadã e pessoa que, no seu conjunto, afetam o sono.

Assim, foram o desconhecimento científico e clínico, as desigualdades de género e os desafios específicos nos papeis que desempenha que levaram a organização do Lisbon Sleep Summit a escolher como tema do primeiro congresso o “Sono nas Mulheres”, envolvendo nele a sociedade civil e profissionais de múltiplas disciplinas, para que o conhecimento transborde dos muros da ciência para a sociedade.

A adesão foi grande e imediata. Os preletores vêm de todo o mundo: Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, Islândia, Finlândia, Áustria e Portugal. As comunicações livres também e incluem países como Estados Unidos, Brasil, Rússia, China, Alemanha, Itália, Espanha, Islândia e as nacionais vêm de todo o país, de Norte a Sul. Os resumos das comunicações serão publicados num número especial de uma revista internacional, a Sleep Science.

Os temas a tratar são desafiantes: “Sono, genes e depressão”; “Neurobiologia do Sono na Mulher”; “Sucesso e Sono”; “O Sono das Mães”; “Doenças do Sono nas Mulheres e Foco na Insónia e Apneia”; “Coisas estranhas que as Mulheres podem fazer de noite”; “Dor, Fadiga e Dissónia”; “Sono ao longo da Vida”; “Violência e sono no contexto da agressão”; “Comparações Homem/Mulher nos Relógios Biológicos e na forma de Medir o Sono”; “O Triângulo Mágico: Sono, Nutrição e Exercício” e, para encerrar, conferências de figuras públicas sobre “O Meu Sono, a Minha Vida e Eu”. Apesar de tudo isto temos a sensação de que muito vai ficar por dizer.

O Lisbon Sleep Summit vai ter lugar na Universidade Católica e é organizado por Prof. Dra. Teresa Paiva, CENC – Centro de Medicina do Sono; Prof. Helena Rebelo Pinto, FCH – Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa; e Prof. Margarida Gaspar de Matos, Centro de Estudos de Promoção e Educação para a Saúde/FMH/UL. O programa pode ser consultado no website www.lisbonsleepsummit.org. O convite à participação abrange profissionais e a sociedade civil: venham e discutam!

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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