Primeiros Homo sapiens eram inesperadamente sofisticados

Pigmentos e ferramentas de rocha descobertos no Sul do Quénia revelam que há 320 mil anos a nossa espéciejá usava uma surpreendente tecnologia e denunciam a existência de sofisticadas estruturas sociais.

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À esquerda, ferramentas mais antigas e rudimentares e, à direita, as lâminas de obsidiana descobertas no sítio arqueológico Programa de Origens Humanas/ Smithsonian
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Ferramentas de pedra descobertas no Quénia Programa de Origens Humanas/Smithsonian
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Sítio arqueológico de Olorgesailie, no Quénia Programa de Origens Humanas/Smithsonian

Há muito tempo, numa paisagem de África cheia de gramíneas, alguns dos primeiros membros da nossa espécie, o Homo sapiens, tiveram comportamentos surpreendentemente sofisticados, incluindo o uso de pigmentos de cor, a criação de ferramentas avançadas e a troca de recursos com outros grupos de pessoas. As descobertas são descritas em três estudos publicados, esta sexta-feira na revista Science, por cientistas que examinaram artefactos que datam de há 320 mil anos, encontrados no Sul do Quénia, num sítio arqueológico em Olorgesailie. As peças examinadas têm aproximadamente a mesma idade do que os fósseis de Homo sapiens mais antigos conhecidos, que foram descobertos em Marrocos e divulgados em Junho de 2017.

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O paleoantropólogo Rick Potts Programa Origens Humanas, Smithsonian

Os investigadores descrevem achados em Olorgesailie que vão desde um pigmento ocre que produz uma cor vermelha brilhante, que pode ter sido usada para a pintura do corpo ou outro tipo de expressão simbólica, até ferramentas formadas a partir de obsidiana, uma rocha vulcânica que produz lâminas extremamente afiadas, que contrastavam com artefactos mais rudimentares usados por espécies anteriores na linhagem evolutiva humana.

Nos artigos científicos é também descrita a descoberta de provas abundantes de uma transferência de longa distância de obsidiana para o local da bacia de Olorgesailie. A rocha encontrada no local terá sido trazida de locais que ficam a uma distância que pode chegar aos 88 quilómetros, por terrenos acidentados. Esta “viagem” da rocha leva os investigadores a acreditar que a obsidiana poderá ter sido fornecida por outro grupo de pessoas através de comércio, embora se desconheça o que foi oferecido em troca. Os achados indicam avanços em tecnologia e estruturas sociais que são inesperados nesta altura da história de nossa espécie.

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Sitio arqueólogico de Olorgesailie tem sinais de uma ocupação por antepassados humanos desde há 1,2 milhões de anos Programa Origens Humanas, Smithsonian

“Na minha opinião, estas capacidades mentais e sociais recentes – incluindo a percepção de grupos distantes, o uso de pigmentos e tecnologias inovadoras – estavam na base da origem da nossa espécie”, disse o paleoantropólogo Rick Potts, director do Programa de Origens Humanas do Museu Nacional Smithsonian de História Natural. “Podem mesmo ter sido estes os comportamentos que distinguiram nossa linhagem genética de outras espécies humanas.”

A equipa de cientistas encontrou materiais usados como pigmentos, uma cor castanha de manganês [metal] e um vermelho brilhante de ocre [uma variedade de argila]. “A opção por importar o ocre vindo de longe, em vez de usar um material local mais comum e que cumprisse o mesmo propósito, leva a crer que ter um rosto, cabelo ou roupas vermelhas ou armas também tinha algum tipo de mensagem simbólica”, afirma a paleoantropóloga Alison Brooks, da Universidade de George Washington e do museu do Programa de Origens Humanas.

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A paleoantropóloga Alison Brooks Programa Origens Humanas, Smithsonian

Os investigadores descrevem ferramentas de obsidiana mais pequens, mais cuidadosamente trabalhadas e especializadas do que as ferramentas de pedra maiores, usadas por espécies humanas mais antigas. A obsidiana foi usada numa ampla gama de ferramentas, incluindo raspadeiras, e também em pequenas pontas que poderiam ser colocadas no final de cabo de madeira ou osso para serem usadas como projécteis em armas.