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Antonio Grosz/Unsplash

Megafone

Epá, tão bom que o leite era!

Basta uma pequena visão da realidade para arrasar qualquer imagem imaculada que todos os anúncios sobre o leite querem fazer crer.

Ana Fernandes é presidente da Associação Zoófila Portuguesa

Quando era criança, bebia leite e comia gelados Epá porque “tinham leite e eram muito bons para a saúde” e, portanto, “para um crescimento saudável”. Ou, pelo menos, assim diziam os pais e a comunicação social.

Quem não se lembra do esclarecimento que era dado à população sobre os grandes benefícios do leite, mesmo que acompanhado de quantidades inadmissíveis de açúcar, como era o caso dos gelados?

Consumir ou não consumir leite é uma decisão individual e, felizmente, hoje, com uma maior democratização do acesso à informação, é mais fácil agir em consciência, mais informados. Ao contrário do que se quer fazer crer, hoje temos mais informação, mais consciência ambiental e consciência sobre os maus tratos praticados aos animais para que uma criança beba um copo de leite de origem animal.

Quando a indústria vem dizer que o declínio do consumo de leite na última década, observado por toda a Europa, se deve ao facto de os consumidores estarem menos informados, essa afirmação é falsa, como muito do que se diz sobre este assunto.

O meu filho não bebe leite, para horror da avó. É muito provável que os meus netos não venham a beber leite, para grande satisfação da avó. Esta mudança está em curso: e será muito difícil invertê-la.

A indústria dos lacticínios tem uma grande oportunidade de se transformar. Pode, naturalmente, apostar na diversidade, pode continuar a vender leite, mas leite vegetal.

Hoje existe uma grande oportunidade de crescimento nos produtos de origem vegetal. Não se compreende que se insista na estagnação e que venha dizer que a culpa é dos consumidores que estão desinformados.

As questões ambientais são cada vez mais relevantes no momento da escolha, e sejamos sinceros, é incontestável que a produção de leite tem um impacto significativo na emissão de CO2.

Um exemplo paradigmático da importância da conversão das indústrias poluentes em oportunidades sustentáveis ambientalmente está nos Açores. Haverá dúvidas de que o futuro bem-sucedido dos Açores só pode ser na promoção de um ecossistema cada vez mais limpo e saudável?

Por outro lado, sabemos que a produção de leite é conseguida através de um sofrimento gigante das vacas e dos vitelos. Basta uma pequena visão da realidade para arrasar qualquer imagem imaculada que todos os anúncios sobre o leite querem fazer crer.

Agora que estamos todos cada vez mais informados, o decréscimo do consumo de leite de origem animal vai continuar. Sabendo isto, as empresas têm a grande oportunidade de pensar em mudar, diversificando a oferta a ajustando-se à procura, regra elementar de uma qualquer economia.

Para os gelados, já temos opções de produtos elaborados com matéria de origem vegetal, que fazem igualmente mal à saúde pela quantidade de açúcar que têm, mas essa é outra história. E uma outra luta.