Igrejas de Beja estão fechadas depois de se ter investido três milhões para as recuperar

Ao extinguir o departamento de património da diocese, o bispo de Beja colocou em causa a parceria celebrada com a autarquia em 2008 para recuperar edifícios religiosos da cidade.

Sé de Beja
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Igreja dos Prazeres
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Igreja dos Prazeres

Não são apenas os que vivem em Beja que se questionam sobre as razões que estarão por detrás do encerramento da maioria das igrejas que existem na cidade. Também os turistas que chegam para conhecer o interior dos templos batem com o nariz nas respectivas portas, desagradados por não poderem conhecer o património religioso, enaltecido pelos reis de Espanha e presidentes da República portuguesa. O encerramento aconteceu depois de terem sido investidos cerca de três milhões de euros em cinco edifícios religiosos do concelho e na sequência da inesperada decisão tomada pelo bispo de Beja, D. João Marcos, de extinguir o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja (DPHADB) em Abril de 2017.

Disse então que a decisão tomada se deveu à necessidade de “reajustar” as estruturas da diocese de Beja, nomeadamente o departamento do património, por este “não estar a cumprir” os pressupostos que levaram à sua criação em 1984 pelo então bispo de Beja, D. Manuel Falcão, e que eram “o estudo, a salvaguarda e a valorização do património cultural religioso do Baixo Alentejo”. D. João Marcos apontou ainda para as dificuldades de diálogo entre o DPHADB e “o clero e os próprios diocesanos”. E mais não explicou.

Com esta decisão, a responsabilidade de salvaguarda do património passou “para os párocos”, salientou D. João Marcos em Abril de 2017.

Ao longo de 33 anos de actividade do DPHADB foram recuperadas várias igrejas rurais, criada a Rede Diocesana de Museus, realizada a exposição itinerante “Entre o Céu e a Terra — Arte Sacra da Diocese de Beja” e o Festival Terras sem Sombra. Ao nível da inventariação do património, o departamento identificou 500 edifícios religiosos construídos ao longo de séculos — desde os alvores do Gótico alentejano, no século XIII, até às manifestações do Barroco, na segunda metade do século XVIII — e um acervo com mais de 200 mil bens culturais, como peças de arte e arquivos.   

A continuidade deste trabalho foi interrompido e as consequências estão revelar-se contraproducentes para a parceria que, em 2008, o DPHADB celebrou com a Câmara de Beja e outras entidades e que conduziu à criação da Associação de Desenvolvimento Regional Portas do Território (APT). Este organismo, que na altura foi considerado “inédito”, foi constituído para recuperar igrejas, capelas e ermidas do concelho de Beja para as deixar “acessíveis ao público” e desta forma “promover a salvaguarda e a valorização dos monumentos do centro histórico da cidade”.

A APT foi igualmente constituída para superar as dificuldades que subsistiam no desenvolvimento de um turismo cultural e religioso em Beja e os impedimentos à livre circulação de visitantes, que se deparavam sistematicamente com os principais monumentos da cidade fechados ou com horários muito limitados.

Tudo a aguardar

A decisão do bispo de Beja, assumida unilateralmente, sem que a autarquia fosse contactada nesse sentido, mantém encerrados, há quase um ano, os templos da cidade, incluindo os cinco que foram restaurados (Igreja do Pé da Cruz, Capela de Nossa Senhora do Rosário, Sé de Beja, Igreja dos Prazeres e Ermida de Santo André) e depois da sua recuperação ter custado ao erário quase três milhões de euros. 

Instado a comentar a situação, o bispo de Beja disse ao PÚBLICO que está a “aguardar” que o município lhe “comunique o que pretende fazer”, frisando que “em princípio” interessa à diocese reactivar a Associação de Desenvolvimento Regional Portas do Território”.

Paulo Arsénio, presidente da câmara, admitiu ao PÚBLICO que tem um problema “grave” para resolver. “Não é admissível ter as igrejas de Beja fechadas ao público” acrescenta.

Com a extinção do departamento do património, os corpos gerentes da APT pediram a demissão e a parceria entre a diocese de Beja e a autarquia deixou de funcionar. Nos quatro meses que leva de mandato, o actual executivo municipal não realizou “uma única reunião de trabalho com a diocese de Beja”, observa o autarca admitindo que “não tem” uma solução para um problema que vem do mandato anterior.

“Terá de haver um acordo para devolver o património à cidade e aos que o queiram conhecer”, observa Paulo Arsénio, reconhecendo estar confrontado com um problema que os “embaraça e envergonha”.