O estranho caminho de Jean-Claude Brisseau

Os seus filmes são uma exploração dos pontos de fronteira entre o que é permitido e o que não é permitido, entre a clausura e a liberdade. O espectador poderá aferir dessa justeza vendo Que o Diabo nos Carregue e aproveitando o ciclo que enquadrará, no ecrã do Nimas, a estreia deste seu ultimo filme.

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Quem viu A Rapariga de Parte Nenhuma (2013), o anterior filme de Jean-Claude Brisseau, não demorará muito a reconhecer uma ligação, muito forte e muito prática, entre esse filme e Que o Diabo nos Carregue: o cenário principal de ambos é o mesmo, a casa do próprio Jean-Claude Brisseau. Ele está ausente desta vez (em A Rapariga... era também o protagonista), aparecendo apenas de fugida para dois ou três planos, mas até esse pormenor adensa a estranha atmosfera deste filme. Por exemplo quando a atenção se nos escapa para as estantes, e nos perguntamos quem pertencem todos aqueles livros de cinema e de arte, todos aqueles DVDs, se às personagens se ao realizador dono da casa... É um dado acessório, claro, mas porque não começar por aqui, por esta sensação de "pequeno teatro" instalado na sala de estar, como uma ficção incapaz de cobrir totalmente as marcas da sua factura, para dar conta da especialissima atmosfera que se respira neste filme?

Que até tem, no desencadear da sua narrativa, uma rima evidente com A Rapariga de Parte Nenhuma. Há um plano inicial com Fabienne Babe (que regressa ao cinema de Brisseau 30 anos depois de De Bruit et de Fureur, 1988) na luz mediterrânica do que se presume ser Marselha, a falar ao telefone com a dona de um telemóvel perdido. Mas a seguir já se está na casa que é cenário central: esta outra rapariga de parte nenhuma vem buscar o telemóvel (que está cheio de videos de sexo), é recebida por Babe, e dali já não volta verdadeiramente a sair. A história depois é outra e, sobretudo, tem mais personagens - outra mulher para formar um trio com estas duas, o namorado da rapariga do telemóvel, e um velhote (o grande Jean-Christophe Bouvet) que vive no andar de cima e passa os dias a meditar e a levitar.

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O espectador poderá ver Que o Diabo nos Carregue aproveitando o ciclo Brisseau que enquadrará, no ecrã do Nimas, a estreia deste último filme

Em parte, é uma narrativa construída para o cenário quase único daquela casa. Como nos confirma, ao telefone, Brisseau, este filme e o anterior são feitos com "muito muito pouco" dinheiro, usar a sua casa é uma opção ditada por razões económicas, "é menos um décor que é preciso pagar". Mas em igual parte a rima com A Rapariga de Parte Nenhuma é deliberada: a Brisseau interessa "o tema da deriva", as personagens que vão aonde vão e chegam aonde chegam movidas apenas pelos caprichos do acaso. Ou do Diabo: nesse primeiro plano o título do filme vem enquadrado na sua origem, uma citação de Pushkin ("não sabemos para onde vamos, então deixemos que o Diabo nos carregue"). O "Diabo, provavelmente", como Robert Bresson chamou ao seu filme (porventura o mais enigmático dos seus filmes) sobre uma juventude à deriva. "Claro que me faz lembrar Bresson", exclama Brisseau como se a intenção fosse mesmo que toda a gente se lembrasse, e nem é preciso perguntar-lhe então pelo que estão a fazer nos diálogos do filme duas passagens que citam Bresson directamente ("o vento sopra onde quer" e uma alusão ao "estranho caminho" que vem do Pickpocket, 1959, e uma vez João César Monteiro também fez citar tintim por tintim). "Penso que o tema da deriva é inseparável do tema do sofrimento, interessa-me seguir personagens jovens, e neste caso não apenas jovens, que tentam interromper essa deriva como forma de pôr fim ao seu sofrimento, e olhá-las da forma mais compassiva que me for possível".

A crença do espectador

Se este é o resumo que o realizador faz do seu filme, é tudo menos uma "explicação". Se há coisa típica dos filmes de Brisseau é a enorme (e quase desamparada) liberdade do lugar do espectador, a quem são dadas poucas ou nenhumas pistas sobre como deve entender o que está a ver. Há lugar para tudo, da maior gravidade e do maior dramatismo, "biográfico" (o racconto que a personagem de Babe faz da origem dos seus traumas de infância) ou "filosófico" (os segmentos com a personagem de Bouvet), mas também para o que parece irrisório ou liminarmente caricatural, a desafiar a capacidade de crença do espectador - como aquelas cenas de sexo "cósmico" sobre transparências criadas através de um vulgar software de tratamento de imagem, um artesanato sem dúvida ditado pela escassez de recursos de produção mas com um desarmante encanto de "faux naif", a fazer pensar num Méliès 2.0 e libertino. Talvez aí o espectador ria, mas quem ri por último (e porventura melhor) é o filme, que se conclui numa gargalhada (de uma das mulheres) que pode ser tudo, pode ser até o filme a rir-se do espectador, a fazê-lo vacilar até ao derradeiro momento. Um final em que, diz Brisseau, a inspiração veio das gargalhadas "mais violentas" de que se lembra, a da Quadrilha Selvagem (1969) de Peckinpah e a do Tesouro da Sierra Madre (1948) de Huston.

Por falar no lugar do espectador, impôe-se a pergunta: e o lugar de Brisseau, dentro dos filmes? Tem duplos, nele próprio (enquanto actor) ou nas personagens? Face a isto, o realizador nega terminantemente que as suas participações como actor, seja o protagonista da Rapariga da Parte de Nenhuma sejam os pequenos apontamentos como neste filme, venham duma vontade de se "projectar". Até porque detesta ser actor, rodar A Rapariga de Parte Nenhuma foi "um suplício", fê-lo apenas para poupar dinheiro ("não tenho que me pagar") e mesmo assim só depois de o actor previsto ter tido um impedimento. "Não tenho sequer prazer em ser actor, a única utilidade é compreender um pouco melhor a posição dos intérpretes", e mesmo se se lembra de uma carta de um leitor dos Cahiers du Cinéma que desenvolveu uma vasta teoria sobre a sua participação em As Coisas Secretas, de 2004 (onde era visto a regar um jardim) garante que é sempre um fruto do acaso ("a pessoa que ia regar o jardim não apareceu e como não quis ficar à espera pus-me eu nesse papel"). Já as suas personagens, diz, "quando muito, reflectem dúvidas e inquietações" suas, mas se esforça "para que isso não apareça de modo muito evidente".

O prazer e o sofrimento

E depois, o erotismo, o sexo. Ninguém o filma como Brisseau, nem com os riscos que ele corre. O risco, até, do estatelanço no ridículo, na maneira como, aqui mais uma vez, o erotismo é articulado com uma dimensão sobrenatural, como se o momento do sexo fosse o momento da intromissão na existência de um poder de origem mágica ou mística sempre indefinível. Mas também são momentos em que o espectador "perde" o seu lugar, como se o convite para a titilação erótica nunca se confirmasse - estamos mais próximos, nessas cenas, da posição do espectador que contempla um bailado ou, melhor ainda, uma pintura, porque a dimensão estética, as formas criadas pelos gestos e movimentos dos corpos enrolados uns nos outros, prevalece sempre sobre qualquer outro tipo de estímulo.

"O porno, para mim, é o grau zero, menos um, menos dois, da escrita cinematográfica, mas acabou por tomar, a partir dos anos 70, o lugar de um cinema propriamente erótico", diz. No seu caso há uma obstinação: pensar que "o cinema pode tratar a experiência do sexo com a mesma naturalidade com que trata, por exemplo, a experiência do assassínio, com que o cinema nunca teve problema algum". Alíás, acrescenta, "em As Coisas Secretas tentei usar o sexo da mesma forma que Hitchcock usava o medo, enquanto elemento dramático preciso".

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Mas há também a ligação ao tema do sofrimento, que já vimos que lhe interessa: "o prazer erótico, para mim, é o símbolo de todos os prazeres que humanamente podemos ter, mas também é o prazer que mais nos liga uns aos outros, e que desencadeia o sofrimento se essa ligação se romper". Afiança que todos os seus filmes "andam à volta desta questão". Que o Diabo nos Carregue anda certamente à volta dessa questão, mas há ainda o lugar do erotismo e do prazer sexual enquanto elementos de subversão, potenciadores de uma libertação que, sendo individual, têm obvio impactos sociais e, portanto, políticos. Nem por Brisseau o cobrir, neste filme, por uma forte camada de "misticismo", esse aspecto deixa de estar presente. "Mas grande parte dos interditos relativos ao sexo têm a ver com isso, assim como os momentos de libertação sexual andaram a par com momentos de libertação política, mesmo que hoje a sociedade esteja um pouco esquizofrénica e se verifique uma grande tensão na coexistência do progressismo e do reaccionarismo sexuais".

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Há trinta anos, quando filmou De Bruit et Fureur, as ligações entre o erotismo e a figuração sobrenatural, por um lado, e a sua manifestação num contexto social preciso (os suburbios, com todo o seu caos), eram talvez mais claras. Com o tempo - e também através desta intensificação dos cenários de "estúdio", mesmo que improvisado - tem-se a sensação de que Brisseau rumou até a uma abstracção e a um artificialismo maiores. "Não sei... bom, lembro-me que chamaram 'marxista' a As Coisas Secretas... mas acho que simplesmente a partir de certa altura não quis continuar a fazer sempre o mesmo filme". Acrescenta: "Os meus filmes são como aquela ideia da Marguerite Yourcenar, são uma volta pelos limites da prisão [há um livro póstumo de Yourcenar chamado Le Tour de la Prison], uma exploração daqueles pontos de fronteira entre o que é permitido e o que não é permitido, entre a clausura e a liberdade".

O que parece bastante justo. O espectador poderá aferir dessa justeza vendo Que o Diabo nos Carregue mas também aproveitando o pequeno ciclo Brisseau que enquadrará, no ecrã do Nimas, a estreia deste seu ultimo filme. Ver-se-ão todos os filmes de As Coisas Secretas em diante, portanto desde o momento em que Brisseau passou a ser regularmente estreado em Portugal: além das Coisas, Os Anjos Exterminadores (o filme, de 2007, feito em reacção directa ao famoso processo judicial por assédio sexual de que Brisseau foi alvo durante a prepação de As Coisas Secretas), À Aventura (que foi editado em DVD em Portugal mas não exibido em sala), e essa pequena obra-prima que é A Rapariga de Parte Nenhuma.