Crítica

Mozart contra as injustiças dos deuses

Uma produção estimulante de Idomeneo, de Mozart, prejudicada por alguns problemas musicais, apesar de um elenco de grande qualidade onde brilharam sobretudo as vozes femininas.

Foto
Idomeneo, de Mozart no São Carlos Rui Gaudencio

Começa bem, a nova produção operática do Teatro de São Carlos. Uma imagem forte e sugestiva para a abertura: uma figura atrás de uma cortina translúcida deita terra numa cratera onde a acção tomará lugar. Cratera concebida pelo cenógrafo Fernando Ribeiro, que será terreno expressivo central ao longo de toda a ópera. Depois, Ana Quintans (no papel de Ilia) abre as hostilidades perguntando “Quando terão fim as minhas amargas desventuras?” Início prometedor, que coloca esta ópera séria de Mozart num lugar simultaneamente depurado, sensível e instável. Instável até historicamente, pois a encenação de Yaron Lifschitz optou por não fazer uma reconstituição histórica, mas algo bem diferente: uma reflexão sobre a história da ópera e o seu abandono dos códigos barrocos (com ajuda de bailarinos em figurinos “barrocos” criados por José António Tenente), que procura ao mesmo tempo transmitir a força expressiva – para os tempos de hoje - da música e das personagens deste curioso dramma per musica de Mozart. Neste sentido, a encenação de Lifschitz é bem conseguida e estimulante. Mas nem tudo correu sobre rodas na estreia de Idomeneo.

<_o3a_p>

Um dos principais problemas foi a audivelmente debilitada voz de Richard Croft no dia de estreia (esperemos que tenha melhorado entretanto). Parabéns pela coragem de cantar um papel tão exigente sem estar nas condições ideais, poderíamos dizer. Mas apetece dizer também: que pena. Não só porque Croft é um excelente cantor (e isso ainda se ouviu no detalhe, apesar da falta de força na globalidade). É que Idomeneo é o maior exemplo da personagem “à antiga” que se expressa já por meios novos nesta ópera de Mozart estreada em 1781. Por um lado, ele é ainda vítima dos “tormentos” da ópera barroca, obrigado a cumprir o destino e os terríveis pactos com os deuses. Por outro lado, ele hesita entre exprimir-se nos termos solenes da ópera antiga (o medo dos deuses) e aquilo que a natureza lhe diz (“Não, não posso erguer o brutal machado contra um filho inocente”).<_o3a_p>

Idomeneo é salvo por Neptuno numa tempestade no mar, mas deve sacrificar um homem. Esse homem é o seu filho Idamante. E pouco mais há a contar nesta ópera estática: Ilia ama Idamante, embora ele seja grego. Electra tem ciúmes de Ilia. E está quase tudo dito. O que importa é o como. Como se expressam as personagens, como nos interpela a música, como diz Mozart o que a ópera séria do seu tempo já não podia dizer? Como pôr em música os caminhos humanos do coração e uma nova ideia de justiça?<_o3a_p>

É aqui que surgem os outros problemas desta globalmente interessante produção de Idomeneo. A direcção musical de Christian Curnyn não conseguiu ligar todos os elementos como seria desejável. A preocupação tímbrica, muito correcta, não pode deixar para segundo plano o ímpeto e o ritmo global da ópera. E Idomeneo precisa disso como de pão para a boca. Transições orquestrais falhadas entre recitativos e árias, desacertos rítmicos entre coro e orquestra, falta de coragem dinâmica, articulações indecisas, tudo isto prejudicou seriamente este Idomeneo.<_o3a_p>

Felizmente um excelente elenco segurou o todo, graças a cantoras de grande fibra como Ana Quintans (uma Ilia corajosa que não é apenas vítima, mas voz activa na defesa do seu amor), a excelente soprano Caitlin Hulcup (que foi um Idamante de alta qualidade vocal, disposto a sacrifícios, mas em nome da sua amorosa) e a espantosa Sophie Gordeladze (uma magnífica Electra, capaz de denunciar em grande estilo a tirania dos deuses e os “falsos intérpretes do desejo divino”).<_o3a_p>

O famoso quarteto do terceiro acto, em que se sentiram menos as fragilidades de Croft, foi um dos momentos altos do espectáculo. Ali Mozart descobria uma nova linguagem musical para ideias que já não eram ditas apenas para as sensibilidades do Ancien Régime, mas para novos homens e mulheres com as paixões modernas da gente comum e com outro sentido de justiça a despontar. Nesse quarteto canta Idamante a injustiça incompreensível: “Talvez por culpa minha se irou Neptuno. Mas culpa de quê?”<_o3a_p>