Opinião

A cátedra de Massamá

Se o ensino é sebenteiro, burocrático, desligado de muitos aspetos da vida, não é com a entrada na Universidade de ex-primeiros-ministros que se resolvem esses problemas.

Não é preciso morar em Lisboa para se ser professor catedrático. Mas também não devia ser preciso morar em Massamá ou ter sido primeiro-ministro.

Ser professor catedrático é o resultado de uma vida de estudo e de ensino; uma vida a servir a instituição universitária, as mais das vezes com obra publicada e reverenciada entre os seus pares.

Um professor catedrático não precisa de mais de uma dezena de anos para obter uma licenciatura, nem dez, nem mais do que os anos que ela implica. São mulheres e homens que pelos seus conhecimentos granjearam o respeito e o acolhimento dos alunos a quem ensinam. Não significa que sejam gente sem falhas, algumas serão até grandes.

O currículo de um professor catedrático deve ter um recheio que não deixe dúvidas a quem quer que seja de que se está diante de alguém que pode ter a cátedra. São também o espelho de uma Universidade em crise e cuja essência do ensino que ministra deixa muito a desejar.

Há maus jornalistas, carpinteiros ou padres ou bispos. E também há maus professores.

Este paradigma não é de esquerda nem de direita. Qualquer professor catedrático deverá proceder com os alunos de modo absolutamente imparcial e, em geral, é assim.

Não se pode negar a um primeiro-ministro capacidade para fazer conferências sobre diversos temas que possam abranger a Administração Pública ou outras áreas, mas como será bom de ver uma, ou duas, ou três ou meia dúzia de conferências não chegam para ministrar uma cadeira que há-de englobar, presume-se, dezenas de sumários e muita matéria relacionada.

Essa capacidade para organizar e sistematizar os conhecimentos sobre a Administração Pública é acompanhada por outros que com ela se interligam e formam ou dão corpo ao que vulgarmente se chama sabedoria ou conhecimento da matéria.

Esta visão sobre o papel dos professores catedráticos não tem nada nem de esquerda, nem de direita, nem de elitismo, nem de menosprezo por um ilustríssimo morador de Massamá. Nem que se encerre a Universidade numa visão fechada que impeça alguém de fora do campus universitário vir para o interior para, com a sua experiência, enriquecer o património espiritual e científico da instituição.

Se o saber político se pudesse equiparar ao saber científico, os melhores professores seriam todos os primeiros-ministros ou ministros, o que ninguém ousará defender. Se o ensino é sebenteiro, burocrático, desligado de muitos aspetos da vida, não é com a entrada na Universidade de ex-primeiros-ministros que se resolvem esses problemas. Passos podia ter ajudado quando exerceu o cargo e não o fez.

Morando em Massamá, chegou àquele cargo onde quase ninguém chega. Durante o mandato defendeu as oligarquias do sistema financeiro e, em relação aos estudantes, mandou-os sair da zona de conforto e deixarem de ser piegas.

Levou, como é sabido, à fuga de quadros para países onde tiveram outras possibilidades que o governo de Passos não lhes deu.

Passos não resistiu à troika; antes, perdido de entusiasmo na defesa dos interesses oligárquicos, foi muito para além dela, gabando-se com Portas, Maria Luís e Cristas da ação do seu governo nesse capítulo. Empobrecer Portugal era o lema, e empobreceram.

Há quem ache que este é um perfil, um currículo para se ser professor universitário. E há quem considere um abuso face ao que é exigido aos outros. E há ainda quem considere que se trata de criar uma enorme confusão entre o saber que resulta da política e o saber do estudo de décadas de trabalho.

Há bons professores catedráticos oriundos de qualquer canto de Portugal, sem nomes sonantes na genealogia, de direita e de esquerda.

O currículo de Passos é este: durou anos e anos para tirar um curso e foi primeiro-ministro. Devia chegar? Pelos vistos...

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico