Opinião

Os Passos em Volta e a Paz Universal

O “Brexit” não é mais do que a constatação de que a Europa dos nacionalismos está de volta por toda a parte.

Estando prestes a completar mais um aniversário, relembro o que escrevi no primeiro prefácio à minha tese de doutoramento sobre o tema da Europa Potência Civil, em Maio de 2011. Tendo nascido em Março de 1945, dois meses antes da capitulação da Alemanha e cinco precedendo o lançamento das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui, as primeiras imagens de que me lembro, ainda antes de aprender a ler, eram de revistas, a preto e branco, com fotos de batalhas em pleno mar entre navios de guerra e aviões de combate. Os Passos em Volta, título da obra em prosa mais significativa de Herberto Helder, traduzem o regresso a um ponto de que nos deveríamos ter afastado depois de tantos anos, do mais inimaginável desenvolvimento tecnológico, da chegada do homem à lua, muito antes de o século XX ter terminado, da libertação dos povos colonizados, do fim da Guerra Fria há quase 30 anos e da entrada num novo milénio.

Em 1945, a 26 de Junho, a Carta das Nações Unidas era assinada em S. Francisco da Califórnia pelos representantes dos primeiros 51 países aderentes, ou convidados a aderir (só a Polónia não pôde estar presente). E começava com a seguinte proclamação: “Nós, povos das Nações Unidas, decididos a preservar as gerações futuras do flagelo da guerra..., a proclamar de novo a nossa fé nos direitos fundamentais do homem..., a criar as condições necessárias à preservação da justiça..., a favorecer o progresso social e instaurar as melhores condições de vida numa liberdade cada vez maior..., e, para esses fins, praticar a tolerância, viver em paz uns com os outros num espírito de boa vizinhança, unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais...”, etc., etc. Deste primeiro grupo de 51 Nações Unidas não faziam parte, logicamente, os derrotados da II Guerra Mundial, que à data não tinha ainda visto a capitulação do Japão. A Itália só seria admitida em 1955 (tal como Portugal), o Japão em 56 e as duas Alemanhas em 1973. Mas uma verdadeira aliança tinha sido criada, quando por esses meses de 1945 se festejava em todo o mundo a vitória dos Aliados, ao mesmo tempo que se descobriam os horrores dos campos de concentração alemães, cujos cidadãos foram obrigados, em muitos casos, a desfilar perante as vítimas dos seus compatriotas, a fim de testemunharem aqueles terríveis actos. Sem a intervenção dos Estados Unidos, resultante do ataque de que foram alvo pelos japoneses em Pearl Harbour, a 7 de Dezembro de 1941, e que levou à declaração de guerra imediata ao Japão, o nazi-fascismo, que dominou a Europa durante os primeiros anos do conflito, não teria sido derrotado. Em 1945, com a criação da Organização das Nações Unidas, havia portanto razão para ter esperança. Na Europa e na América do Norte muitas personalidades de reconhecido mérito, de sectores culturais diferenciados, juntaram-se a pedir um governo mundial, baseado nas recém-criadas Nações Unidas, especialmente com vista ao controle das armas atómicas, logo a seguir à deflagração efectuada em Hiroxima e Nagasáqui, em Agosto. Albert Einstein, Albert Schweitzer, Bertrand Russel, Thomas Mann, Jean-Paul Sartre e Albert Camus foram alguns deles. Este último fez mesmo uma declaração específica sobre o horror que lhe tinha causado o lançamento das bombas atómicas americanas.

O Emergency Committee of Atomic Scientists teve também um papel relevante na divulgação da necessidade de controle das armas nucleares. Mas também outras personalidades menos conhecidas no momento, entre elas o americano Garry Davis, que tinha combatido na Europa como piloto-aviador, ficou assinalado como uma das figuras que mais defendeu a criação de um governo mundial, a partir das Nações Unidas. Aquando da sua morte, em Julho de 2013, já com 91 anos, os jornais The New York Times e Le Monde fizeram longos artigos sobre as suas actividades a seguir à II Guerra Mundial denunciando os nacionalismos.

Em 1945, a União Soviética não possuía ainda capacidade para utilizar armas nucleares, o que só aconteceria em 1949 quando deflagrou, em 29 de Agosto, o primeiro engenho no Cazaquistão. Além de se encontrar devastada pelas consequências destruidoras da invasão alemã, com dezenas de milhões de mortos e a retirada de centenas de fábricas para o seu território asiático. Mas a comoção mundial que resultou do emprego da bomba pelos americanos, em Hiroxima e Nagasáqui, levou a uma mobilização das personalidades mais conscientes da época relativamente aos perigos em que toda a humanidade incorria. Por isso, em Junho de 1946, foi apresentado à Comissão de Energia Atómica das Nações Unidas, pelo governo norte-americano, o Plano Baruch, propondo o abandono da fabricação de armas nucleares por todos os Estados, mediante controle e inspecção das Nações Unidas. O que os soviéticos não aceitaram por considerarem que a ONU era dominada pelos americanos, onde à época a China nacionalista também integrava o Conselho de Segurança, órgão máximo de decisão da organização. Assim começou a proliferação das armas nucleares, com as outras potências a entrarem na competição, a Grã-Bretanha detonando a sua bomba em 1952, a França em 1960 e a República Popular da China em 1964. E assim terminou a aliança que tinha derrotado o nazi-fascismo, consubstanciada em 1950 com o início da Guerra da Coreia, de que sofremos ainda as sequelas com os consequentes perigos de um confronto nuclear à escala global.

Mais tarde, a corrente Cosmopolitista das Relações Internacionais, que se desenvolveu na década de 1990, depois do fim da Guerra Fria, retomou o tema do governo mundial, numa conjuntura semelhante à do final da II Guerra Mundial. Foram relevantes os trabalhos de David Held e Daniele Archibuigi a esse respeito, onde a Europa aparecia como um exemplo a seguir. A sua construção política, nomeadamente nos seis países fundadores, que permitiu uma paz política e social, era vista como um ponto de partida para outras regiões. Mas a deriva provocada pelas políticas neoliberais (aproveitando a implosão da União Soviética para reforçarem as posições do capital e fragilizarem o movimento sindical), o chamado Consenso de Washington, a financeirização da economia e as medidas de austeridade a partir de 2008, (lideradas pela Alemanha), retiraram à União Europeia toda a credibilidade para servir de farol a qualquer projecto de Paz Universal. Para já não falar do triste e indigno comportamento deste bloco acerca da crise dos refugiados. O “Brexit” não é mais do que a constatação de que a Europa dos nacionalismos está de volta por toda a parte (e não só no leste europeu) e de que as fronteiras se irão reerguer mais tarde ou mais cedo. O espírito do tempo actual a isso nos conduz.