Partido Democrata prestes a ganhar onde Trump esmagou Clinton

Conor Lamb lidera com algumas centenas de votos de vantagem no 18.º Distrito da Pensilvânia, onde o Partido Republicano "deveria fazer eleger uma caixa de martelos". Democratas reclamam vitória, mas o resultado final pode apenas ser conhecido na sexta-feira.

Conor Lamb assume-se como um democrata centrista
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Conor Lamb assume-se como um democrata centrista Reuters/BRENDAN MCDERMID

Poucos dias depois de Donald Trump ter surpreendido o mundo ao vencer a corrida para a Casa Branca, em 2016, alguns responsáveis do Partido Democrata já diziam que estava a formar-se no país uma "onda azul" que iria varrer do mapa eleitoral vários representantes do Partido Republicano nas eleições para o Congresso, marcadas para Novembro deste ano. Esta quarta-feira, depois de algumas experiências nos últimos meses com resultados pouco conclusivos, os democratas podem finalmente dizer que alguma coisa está de facto a acontecer no país: numa eleição especial num distrito da Pensilvânia onde Trump esmagou Hillary Clinton há menos de um ano e meio, o candidato do Partido Democrata está perto de derrotar o seu adversário do Partido Republicano – o próprio partido já veio assumir que a vitória já não escapa, pese a ausência de resultados oficiais.

A contagem dos quase 230 mil votos que foram deitados nas urnas terça-feira no 18.º Distrito da Pensilvânia terminou na madrugada desta quarta-feira, mas ainda falta olhar para alguns milhares de votos à distância, o que pode mudar o cenário – ainda assim, o facto de o candidato do Partido Democrata, Conor Lamb, liderar a corrida com uma vantagem de 516 votos sobre o candidato do Partido Republicano, Rick Saccone, é um cenário com que nem os democratas mais optimistas conseguiriam sonhar há poucos meses.

Apesar de não ser, no papel, um referendo ao trabalho de Donald Trump na Casa Branca, a eleição no 18.º Distrito da Pensilvânia teria sempre uma leitura com os olhos postos nas eleições de Novembro, quando os eleitores de todos os estados norte-americanos forem às urnas para escolherem os candidatos que vão enviar para a Câmara dos Representantes e para o Senado – e para decidirem se mantêm o Partido Republicano em maioria, dando mais força ao Presidente Trump no seu trabalho, ou se transferem esse poder para o Partido Democrata, comprometendo de forma decisiva o resto do programa da Administração Trump até ao fim do mandato, em 2020.

Desde que Donald Trump chegou à Casa Branca já houve uma mão cheia de eleições para a Câmara dos Representantes e uma para o Senado – a esmagadora maioria realizadas porque os vencedores dessas eleições em 2016 foram nomeados para cargos na Administração Trump.

A maior surpresa nessas eleições foi a vitória do candidato do Partido Democrata no Alabama, há três meses, na corrida para o lugar deixado vago no Senado pelo republicano Jeff Sessions, actual responsável máximo do Departamento de Justiça – com essa vitória, a maioria do Partido Republicano no Senado desceu de 52 contra 48 para 51 contra 49.

Mas essa vitória do candidato Doug Jones foi obtida contra Roy Moore, um homem de 71 anos acusado por várias mulheres de as ter assediado sexualmente quando eram adolescentes, nas décadas de 1970 e 1980 – o que deu ao Partido Republicano a possibilidade de dizer que a derrota ficou a dever-se às fragilidades do seu candidato e não a uma suposta onda anti-Trump.

Desta vez, o cenário foi diferente: ainda que o 18.º Distrito da Pensilvânia seja tão republicano quanto o estado do Alabama, nenhum dos dois candidatos tinha questões pessoais a manchar a corrida. A mancha ficou para o representante do Partido Republicano que Conor Lamb e Rick Saccone querem agora substituir – Tim Murphy, um conhecido crítico do aborto, deixou a Câmara dos Representantes em Outubro do ano passado quando se soube que tinha pressionado a sua amante a abortar.

Qualquer resultado que o Partido Republicano obtivesse esta semana no 18.º Distrito da Pensilvânia, à excepção de uma vitória confortável, seria visto pelo Partido Democrata como um puxão de orelhas a Donald Trump. Apesar de as eleições especiais como a de terça-feira serem um universo pequeno para se tentar adivinhar o que vai acontecer em Novembro, basta um olhar rápido para esta zona da Pensilvânia para se perceber que o Partido Democrata tem razões para estar eufórico com a prestação de Conor Lamb.

Localizado na zona ocidental da Pensilvânia, onde as fábricas e as minas de carvão fazem parte da paisagem e concentram grande parte da actividade laboral, o 18.º Distrito tem sido dominado pelo Partido Republicano nos últimos 15 anos, desde que os trabalhadores sindicalizados inscritos no Partido Democrata começaram a procurar uma alternativa nos republicanos que lhes prometiam a sobrevivência dos seus postos de trabalho.

O republicano Tim Murphy era eleito desde 2003, e em 2014 e 2016 o Partido Democrata nem sequer apresentou um candidato. Para dificultar ainda mais a tarefa de Conor Lamb este ano, os eleitores do 18.º Distrito deram um apoio esmagador a Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016 – o actual Presidente venceu lá com 19 pontos de vantagem sobre Hillary Clinton, quando em todo o estado da Pensilvânia a sua margem foi de apenas 0,7 pontos.

"Nós deveríamos conseguir fazer eleger uma caixa de martelos neste distrito. Se estamos a perder, podes apostar que há mesmo uma onda democrata a caminho", disse ao New York Times o consultor político Mike Murphy, do Partido Republicano mas conhecido crítico de Donald Trump.

Para essa possível vitória (ou derrota por uma curta margem) contará muito a postura do candidato do Partido Democrata, Conor Lamb, um antigo marine e procurador de 33 anos, defensor do direito à posse de armas e apoiante da subida das taxas alfandegárias do aço e do alumínio anunciada pela Casa Branca.

Um candidato progressista como os que o Partido Democrata apresenta em zonas mais urbanas nas duas costas do país não teria hipóteses de perturbar o domínio do Partido Republicano no 18.º Distrito da Pensilvânia. Foi por isso que Conor Lamb evitou falar sobre Donald Trump durante a campanha e que disse logo no início as palavras mágicas para os antigos eleitores do Partido Democrata que procuraram refúgio no Partido Republicano nos últimos anos: a líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, não contará com o voto dele para continuar no cargo.

Do outro lado, Rick Saccone nem sequer pode queixar-se da falta de apoio de Donald Trump – o Presidente esteve em dois comícios na Pensilvânia e o candidato do Partido Republicano recebeu também a visita do vice-presidente, Mike Pence, e de Donald Trump Jr.

Ainda assim, é preciso esperar até ao final desta quarta-feira nos Estados Unidos (madrugada de quinta-feira em Portugal) para saber quem foi o mais votado nas eleições de terça-feira – segundo a Reuters, existe uma forte possibilidade de essa espera se arrastar para sexta-feira. E, mesmo depois disso, é quase certo que o candidato menos votado vai pedir a recontagem dos votos (na Pensilvânia não há uma recontagem automática quando os resultados são renhidos, como acontece noutros estados norte-americanos).