Este suor dos anos 90 cheira a 2018

O Teatro Experimental do Porto chega ao fim da sua trilogia sobre juventudes inquietas que foram ajudando a mudar o rumo de Portugal. Maioria Absoluta, até dia 24 no Teatro Campo Alegre, regressa aos noventas de Cavaco Silva, da luta contra as propinas, do teatro inflamado pela performance. Mas com a cabeça e o corpo implicados no presente.

Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

“Uma maioria absoluta é uma merda. É ter medo de conversar.” Camisas de flanela, sapatilhas All Star, botas Dr. Martens, guitarras em distorção, sete actores hiperactivos em tensão e com tesão – e os anos 90 aqui tão perto, num Portugal onde Cavaco Silva fazia a dobradinha da maioria absoluta e milhares de estudantes iam para a rua manifestar-se contra o pagamento de propinas e a Prova Geral de Acesso ao ensino superior. Enquanto o associativismo estudantil estava ao rubro, as discotecas enchiam, a música punk entranhava-se, o corpo libertava-se (o que também incluiu mostrar rabos ao governo) e, nunca esquecer (será possível esquecer?), Cavaco Silva lá se ia divertindo a destruir o sector da agricultura e das pescas.

Gonçalo Amorim e Rui Pina Coelho, então colegas de faculdade, estavam lá, no meio disto tudo, e, para o bem e para o mal, foram os melhores anos da vida deles. Hoje, colegas de teatro – o primeiro encenador e director artístico do Teatro Experimental do Porto (TEP), o segundo dramaturgo residente da companhia –, fazem ecoar as memórias desses tempos no novo espectáculo Maioria Absoluta. É o desfecho da Trilogia da Juventude, que tem ocupado o TEP no último ano e meio e que agora chega ao fim no Teatro Campo Alegre, no Porto, com as nove récitas até dia 24 já quase esgotadas.

Idealizado por Gonçalo Amorim e por Rui Pina Coelho, mas desde o primeiro momento partilhado, em co-criação, com os actores e a toda a equipa artística do TEP, este projecto debruça-se sobre juventudes inquietas que foram ajudando a mudar o rumo do país. O primeiro capítulo, O Grande Tratado de Encenação (2017), punha o foco nas lutas da década de 50 contra o Estado Novo e na fundação do TEP, cujo papel era não só de agitação cultural mas também de acção antifascista (o avô de Gonçalo esteve envolvido na criação da companhia). O segundo round, A Tecedeira Que Lia Zola (2017), virava-se para o fenómeno da implantação dos anos 70, quando jovens burgueses letrados trocavam as universidades ou os primeiros empregos pelo trabalho nas fábricas e pelas comunas operárias.

“O espectáculo que deu origem a esta trilogia foi, na verdade, o do meio. Já há algum tempo que queria perceber porque é que os meus pais quiseram ir para a implantação no Vale do Ave e havia uma frase da minha mãe que estava sempre a ecoar: ‘Foram os melhores anos da minha vida’”, recorda Gonçalo Amorim. “A juventude são os melhores anos da nossa vida? Eu próprio pensei nisso e sim, são. Tudo estava a funcionar bem. Amor, sexo, política, utopia… Acho que a força da juventude é a capacidade que tem, de forma um bocado inconsciente mas com muita vitalidade, de transformar o mundo.”

PÚBLICO -
Foto
PAULO PIMENTA

Apesar de a biografia do encenador se infiltrar neste projecto e de haver uma clara pulsão historicista, a ideia sempre foi fintar o teatro documental puro e duro e construir ficções. Sem ficar parado a olhar para trás, sem embarcar na lengalenga condescendente e bolorenta de que a juventude está perdida. Por isso e para isso, o TEP convocou um elenco de jovens actores, dando-lhes liberdade para injectarem nos processos de criação os seus próprios inconformismos e ansiedades geracionais. Catarina Gomes, Sara Barros Leitão e Paulo Mota, nascidos nos anos 90, são os elementos presentes ao longo de toda a trilogia, a quem se juntaram, nesta recta final, Carlos Malvarez, Eduardo Breda, Íris Cayatte, Mariana Magalhães e Pedro Galiza.

“Houve uma pesquisa histórica – vídeos, actas, relatórios, livros, poemas, textos – e, em paralelo, tentámos perceber quem é que nós somos hoje e o que queremos dizer neste momento com esta impressão das juventudes revolucionárias do passado”, explica Sara Barros Leitão, 27 anos, que em Maioria Absoluta troca o palco pela sua primeira assistência de encenação. “O que estamos a fazer são espectáculos de resistência. Este, então, é altamente de resistência: nós estamos a fazer este espectáculo sem saber os resultados da DG Artes, sem saber se vamos ter apoios. Escolhemos fazer teatro em 2018, somos uma minoria, e isso é um acto político”, afirma a actriz, lembrando a situação de asfixia financeira que muitas estruturas estão a viver, TEP incluído, por causa dos atrasos nos apoios do Estado às artes para este quadriénio 2018-2021.

PÚBLICO -
Foto
PAULO PIMENTA
PÚBLICO -
Foto
PAULO PIMENTA

As lutas continuam

Em Maioria Absoluta, mais do que nas peças anteriores, as ligações com o presente são evidentes. De certa forma, e Dr. Martens à parte, estes anos 90 são muito 2018: fala-se sobre a falta de condições nas escolas, o desistir de estudar por não se ter dinheiro para pagar as propinas, o activismo LGBT, o feminismo. “Muitas das lutas dos noventas continuam. Nos outros dois espectáculos há uma frase que se repete: ‘Está tudo por fazer’. Neste não dizemos porque não é preciso”, aponta Sara Barros Leitão.

“É um espectáculo que tem memórias minhas e do Rui mas que acaba por cruzar a nossa juventude com a juventude dos actores, que é agora”, nota Gonçalo Amorim, que quando chegou a Lisboa para estudar Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova era “a minoria da minoria”. “O PSR [Partido Socialista Revolucionário] era a ovelha negra e quando me aproximei do partido estávamos ainda nos embriões de colectivos como o SOS Racismo e o Grupo de Trabalho Homossexual”, enquadra o encenador, na altura membro da associação de estudantes. “O meio estudantil em Lisboa nos anos 90 era pulsante, em particular na FCSH. Éramos os mal comportados. Três dos quatro que mostraram o rabo, do ‘não pagamos’, eram da FCSH.”

Esta juventude inquieta, a quem chamaram de “geração rasca”, estava “num beco sem saída”, considera Gonçalo. Fora de casa e, às vezes, dentro dela. “Nós olhávamos para os nossos pais, que tinham sido revolucionários, e víamos que eles estavam a assentar, a dizer que já não havia revoluções, a falarem do fim da história.” O dinheiro da CEE que entrava no país impulsionou uma euforia capitalista e uma melhoria temporária das condições financeiras de algumas famílias de classe média, o que contribuiu também para reforçar o conformismo e o individualismo. “Uma classe média foi protegendo a visão do ‘não há alternativa’, visão que ainda hoje continua, de certa forma.”

Neste cenário, diz o encenador, muitos jovens “refugiavam-se” no corpo. “O teatro dos anos 90, o teatro de armazém, era um teatro muito físico, muito gritado.” E é esse teatro que percorre, a alta velocidade, Maioria Absoluta, talvez a peça mais performativa e à flor da pele que vimos do TEP de Gonçalo Amorim. Aqui quase tudo é rugido, dos movimentos às palavras, passando pela música, numa fisicalidade exacerbada. “Cada peça da trilogia é dialogante com a estética do seu tempo, em Portugal”, sublinha o encenador. Se O Grande Tratado de Encenação andava à volta das referências de António Pedro, o primeiro director artístico do TEP (Antoine, Pirandello, Stanislavski), e A Tecedeira Que Lia Zola era declaradamente brechtiana, esta nova peça vai beber à Nova Dança Portuguesa e às experiências de Gonçalo com a companhia Útero, de Miguel Moreira, no final da década de 90. É impressiva, “assumidamente imperfeita”, sem uma narrativa, hedonicamente desorganizada.

PÚBLICO -
Foto
PAULO PIMENTA

“Em Portugal, a performance a entrar no teatro só se assiste definitivamente nos anos 90, principalmente por causa dos Encontros ACARTE [Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Gulbenkian]”, observa Gonçalo. “Andaram a mostrar muita coisa nos anos 80 mas é nos noventas que muitas companhias e artistas começam a assimilar isso, como a Mónica Calle, a Lúcia Sigalho, a Visões Úteis, As Boas Raparigas. Tentámos dialogar com esse tempo.”

No meio destes cruzamentos, remisturas, subidas e descidas entre o passado e o presente, concluiu-se uma trilogia, arrumou-se a casa. “Um processo transformador” que acaba por funcionar como uma espécie de súmula do percurso de militância política e social reinscrito no TEP por Gonçalo Amorim desde que assumiu a direcção, em 2012, e que serviu ainda para consolidar “uma ideia de companhia”. Não só com os cúmplices do costume – Catarina Barros na cenografia e nos figurinos, Pedro João na música e Francisco Tavares Teles no desenho de luz –, mas também ao lado de um elenco-base. “Houve aqui o que eu queria que acontecesse no Porto com o TEP há algum tempo, que é ser uma espécie de sítio de pensamento onde se possa construir algo em conjunto, investigar, passar conhecimento”, assinala o encenador.

E isso é para continuar. Neste quadriénio o TEP vai lançar um novo projecto de longa-duração, a Escola da Resistência, uma série de conferências abertas ao público dentro da sala de ensaio, que irão acompanhar as próximas criações, com a companhia pronta para “aterrar definitivamente no século XXI”. Enquanto isso não acontece, a Trilogia da Juventude vai andar por aí: a apresentação integral está agendada para Outubro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, e para Novembro no Teatro Campo Alegre. Os corpos hiperactivos e suados de Maioria Absoluta vão voltar, e 2018 aqui tão perto. “Não te podes lançar para uma proposta destas sem acabares a transpirar. Tens mesmo que te implicar”, declara Sara Barros Leitão. “No final a sala fica a cheirar a anos 90, mas não é de todo nostálgico. Isto afecta-me, isto é sobre mim.”