Crítica

Que espírito é este?

Durand Jones & The Indications não é um álbum de novos caminhos. É um disco em que uma nova banda soul captura algo de intemporal.

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Um disco em que uma nova banda soul captura algo de intemporal Horatio Baltz

Dizia há uns anos Billy Childish, herói de culto do punk, que os Kinks, mesmo que quisessem, não mais conseguiriam tocar You really got me ou All day and all of the night como o fizeram outrora. Dizia mais: afirmava, polemizando, que ele mesmo, com os seus Thee Headcoats, honraria melhor essas canções e a sua vitalidade que os irmãos Davies — porque saberia como capturar aquele som cru que continha toda a energia da canção.

Há cerca de uma década Steve Cropper, o histórico guitarrista da Stax e dos Booker T & The MGs, ouviu o seu eu de há muito e, espantado perante o que via e ouvia naquele DVD onde se registara um concerto da Stax Revue na Noruega, em 1967, exclamou: “Por muito que tentasse, já não conseguiria reproduzir aquele som da minha guitarra”. Explicava que era tudo diferente: os instrumentos, os amplificadores, ele mesmo era já outro. Ao ouvir o álbum de estreia de Durand Jones & The Indications pensamos no que disse Billy Childish e no que exclamou Steve Cropper.

Nascidos no Indiana, têm em Durand Jones um vocalista com o timbre e a entrega de Charles Bradley (falta-lhe a vida sofrida e a vontade de superação, mas nele, tal como em Bradley, tudo é emoção à flor da pele), e têm nos Indications (o baterista Aaron Frazer, o guitarrista Blake Rhein, o baixista Kyle Houpt e o teclista Justin Hubler) uma banda que sabe o caminho todo entre Sam Cooke, Sam & Dave e Otis Redding, entre os Booker T & MGs, os Bar-Kays e os singles todos que Quantic compilou em The World’s Rarest Funk 45s.

Muito apropriadamente, Durand Jones descobriu a banda que agora o acompanha quando, estudante universitário, se viu um dia numa cave repleta de gente que dançava e se agitava ao som de uma versão alucinada de Sitting on the dock of the bay, o single de despedida de Otis Redding. Durand descobriu ali a sua banda, a banda descobriu um vocalista. O álbum que agora gravaram soa precisamente como se, nesse dia em que se viram frente a frente pela primeira vez, o vocalista tivesse subido a palco e daquela colisão de talentos, naquele preciso momento, nascessem estas oito canções.

O segredo deste álbum não é a luz solar que irradia de Smile, nem a forma como Durand mostra saber usar a contenção para tornar mais palpável o calor que lhe aquece o peito em Can’t keep my cool — ou a forma como, nessa canção, os metais sopram em sussurro no refrão. Não, o segredo não é simplesmente a groove suado da magnífica Groovy baby, com a sua guitarra incandescente, o órgão fervilhante e os metais, seguindo a sábia lição de mestre Redding, a marcarem o compasso como secção rítmica. Não, não é só isso — não é essa Make a change que abre o disco sob o efeito de Charles Bradley, vozeirão soul clamando por mais decência na vida de todos os dias. O segredo está, por exemplo, no som daquele break de bateria, na supracitada Groovy baby, a pedir samplagem em larga escala — cru, sem adulteração, vivo, vivíssimo (ilusão impagável: é como se estivéssemos lá, no meio da sala, enquanto a soul ferve à nossa volta).

Durand Jones & The Indications gravaram estas oito canções num gravador de 4 pistas em cassete, esse que fez as delícias de tantos heróis cantados e ignorados do do-it-yourself dos anos 1980 e 1990. A intenção era que servisse apenas de apresentação a editoras, mas Terry Cole, da Colemine Records, percebeu claramente que tinha em mãos a obra acabada (a edição original americana é de 2016, chegando agora a distribuição mundial). Este não é um álbum de novos caminhos. Não nos apresenta futuros possíveis ou combinações nunca ouvidas. É um disco em que uma nova banda soul captura algo de intemporal. Captura essa crueza que Billy Childish dizia que os Kinks já não conseguiriam reproduzir, captura em som esse espírito que Steve Cropper reconhecia e que se espantava por já não conseguir convocar. Não é exactamente uma colecção de canções. É um som que respira e que dá vida.