Crítica

Às escuras

A crise pertence-nos. É o navegar às escuras por uma experiência interior que é tão desarmante neste (felizmente) imperfeito Colo. Sobrevive ao filme da crise.

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Aquele movimento de câmara no final de Colo — um travelling em frente e depois, como se arrepiasse caminho, o movimento para trás — não constitui a prova da indecisão de um filme. É a sua decisão.

No seu final, o último filme de Teresa Villaverde podia aproximar-se do conto de fadas gótico — vê-se até ali a casinha na floresta, há uma adolescente lá dentro que se fechou às escuras. Mas Colo já tinha decidido desde o início, ficando obviamente mais explícito com esse movimento final, que ir por esse caminho não era o seu filme.

Colo é um reposicionamento da realizadora Villaverde, se ela para nós for “a cineasta de...” Três Irmãos (1994) ou de Os Mutantes (1998) — porque nesse filme do final dos anos 90, provavelmente aquela câmara final seguiria em frente para se envolver com os adolescentes. Colo demora, são  os termos da negociação, até permitir que o cinema dite o destino das personagens, até permitir que o cinema transborde à custa das personagens. Como se a realizadora reservasse para si a distância, a espera e o vagar de uma documentarista a observar a sua ficção — esperando que o material se revele para o cinema actuar sem perigo, oferecendo então “flores” às personagens (aquele outro travelling, este sensivelmente a meio do filme, com flores literalmente, em que água e comida são dados ao pai, depois de um banho no mar regenerador) e concretizando as linhas de fuga da natureza com que lhes foi acenando.

Depois disso até podem sublinhar-se os movimentos de câmara. Depois disso, a narrativa pode acelerar-se em peripécias e mal entendidos.

Mas diz-se, é uma leitura em que frequentemente tropeçamos, que Colo é “opaco” — como se não se visse nada a acontecer nele ou como se demorasse tempo a acontecer o que quer que seja a esta família constituída por mãe (Beatriz Batarda), pai (João Pedro Vaz) e filha (Alice Albergaria Borges) num apartamento dos Olivais de cor estranha que tanto parece proteger como conspirar. Como nas casas dos filmes de terror, também este parece pretender desenvencilhar-se dos seus moradores, contando com o cansaço e o desânimo que derrotou a solidariedade — sobra a emasculação do pai, desempregado, a severidade da mãe, que ainda simula estrutura e traz dinheiro, e a solidão da filha, que não pode deixar de sentir que a conjugalidade dos seus pais é uma bolha tão só deles, inacessível, que a exclui. (Dificilmente se negará que, numa cineasta que foi tão empática com a adolescência nos seus filmes dos anos 90, tem agora nas personagens maduras, em Batarda — a verdade de uma actriz é sempre comovente — e Vaz as suas figuras mais frágeis).

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Foto de António Júlio Duarte, em Ensaio, livro construído nos intervalos da rodagem de Colo

Desemprego, falta de dinheiro, corte de electricidade — todos se estranham, ninguém se reconhece, ninguém se encontra,  todos temem pelo desaparecimento uns dos outros, os laços estão à beira do inevitável. Colo chega, depois de As Mil e uma Noites (Miguel Gomes, 2015), São Jorge (Marco Martins, 2016) ou Fábrica de Nada (Pedro Pinho, 2017), como mais uma produção do Portugal da troika. Podia considerar-se que chega tarde, que fica sublinhado o “filme de época”. Como nos dizem que a crise já acabou, corre o risco de  passar a filme “fora de época”. Gomes e de Martins disponibilizavam contexto nos genéricos iniciais dos seus filmes. Avistava-se assim um horizonte nítido “sobre” o qual As Mil e Uma Noites ou São Jorge trabalhavam — horizonte identificável, marcas, acontecimentos de um passado (recente). Colo não menciona a palavra “crise” no seu genérico. Nem ela é articulada por qualquer plano — nenhum plano é “sobre” —, todos se deixam conduzir pela dificuldade de nomeação, por um assombro perante o que é inclassificável porque ainda está dentro de nós. Colo não tem as certezas do passado nítido, só tem à disposição o informe presente. Continuaremos a perguntar, sobre a mãe, o pai e a filha: o que é que lhes aconteceu?  Isto é palpável no filme de Teresa Villaverde, talvez seja o seu “sobre”: a crise não nos aconteceu, a crise pertence-nos.

É este navegar às escuras por uma experiência interior que é tão desarmante neste (felizmente) imperfeito Colo. Sobrevive ao filme da crise.