Morreu Berry Brazelton, o médico que revolucionou a pediatria

Autor da obra O Grande Livro da Criança, Brazelton foi um dos clínicos e defensores mais influentes em pediatria e em desenvolvimento infantil da era moderna. Em Portugal, a Fundação T. Berry Brazelton é representada pelo pediatra Gomes-Pedro.

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"Para alcançarem melhores resultados, as crianças precisam de ter pais convictos das suas competências e capacidades", defendia Brazelton reuters
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O pediatra era defensor de um modelo "touchpoints", numa abordagem teórica e prática de um modelo de desenvolvimento perspectivado em momentos-chave focado no bebé e criança e centrado na família Valerie WINCKLER/Getty Images
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Em 2013, Brazelton recebeu do então Presidente Barack Obama a Medalha de Cidadania Jonathan Ernst/reuters

Faria cem anos no dia 10 de Maio, mas os preparativos já tinham começado a ser feitos, não para essa data, mas para 23 e 24 de Abril, um congresso e a comemoração antecipada do aniversário, em Boston, EUA. O pediatra, cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil Thomas Berry Brazelton morreu nesta terça-feira, aos 99 anos, na sua casa em Barnstable, Massachusetts, anunciou o Centro Brazelton Touchpoints. “O mundo perdeu um verdadeiro herói para os bebés, crianças e famílias”, diz o comunicado.

Antes de Brazelton, assim que nascia, “o bebé era embrulhado e esquecido a um canto”. Foi Brazelton quem descobriu a importância de, nos primeiros minutos de vida, o recém-nascido ter contacto com a mãe, “pele com pele”, resume Gomes-Pedro, pediatra que em Portugal desenvolveu a teoria dos Touchpoints do norte-americano e criou o primeiro centro fora dos EUA com o nome do especialista, a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família.

O conceito de Touchpoints consiste numa abordagem teórica e prática de um modelo de desenvolvimento focado no bebé ou na criança e centrado na família — mas também pode ser usado com adolescentes e adultos, nota Gomes-Pedro. Esta proposta explica o desenvolvimento humano e levou a uma mudança no modo de intervenção dos profissionais, não só dos pediatras mas de todos os que lidam com os mais pequenos, de modo a privilegiar a relação bebé-família. Em Portugal, a fundação faz isso mesmo: oferece formações a pediatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, educadores, etc..

“Quando fortalecemos as famílias, fortalecemos a comunidade. O nosso objectivo é que os pais, em todos os lugares, trabalhem com profissionais [de saúde e educação] que lhes dêem apoio, se sintam confiantes no seu papel parental e criem ligações fortes e resilientes com os seus filhos. Para ajudar a alcançar isso, os profissionais devem responder aos pais, pois são os que conhecem o desenvolvimento da criança e estão ansiosos por ver todos os pais a serem bem sucedidos”, defendia Brazelton, citado no site do centro com o seu nome.

“É uma partilha que é uma autêntica descoberta”, aponta o pediatra português, acrescentando que Brazelton esteve em Portugal mais de 30 vezes. “Não havia aldeia que não conhecesse. Ele gostava da nossa comida, da nossa cultura. Nos primeiros anos vinha fazer congressos, nos últimos já não tinha coragem para lhe pedir para vir falar”, confessa o pediatra, emocionado com a notícia da morte do seu “mestre”.

Ler e compreender a criança

Berry Brazelton, autor de O Grande Livro da Criança, e de mais de três dezenas de títulos, a grande maioria best-sellers, era professor emérito de pediatria na Harvard Medical School e pediatra emérito no Hospital Pediátrico de Boston. Foi talvez o mais conhecido especialista depois de Benjamin Spock (1903-1998), o primeiro a aplicar a psicanálise à compreensão da dinâmica familiar e considerado um “herói” por Brazelton, recorda o Washington Post. A grande mudança que Brazelton protagonizou, na década de 1970, foi a de o pediatra não ser apenas o médico que trata das doenças das crianças, mas que acompanha a família, que conhece as competências das crianças e as potencialidades dos pais.

Gomes-Pedro conta que, antes de Brazelton, os médicos e cientistas estavam convencidos de que os recém-nascidos não viam, não ouviam, não entendiam nada à sua volta; uma das inovações propostas pelo pediatra norte-americano foi precisamente fazer uma consulta pré-natal, antes de o bebé nascer, porque a interacção entre pais e filho acontece muito antes do nascimento. “Brazelton criou um modelo relacional baseado na interacção, na descoberta do outro, de significado afectivo e emocional”, define Gomes-Pedro.

Em vez de dar lições aos pais sobre como criar o bebé, o médico defendia que estes deviam ser ajudados a “ler” o filho, a compreendê-lo. “A minha missão é revelar aquela criança aos pais. Conseguir que compreendam a personalidade do filho que têm e, agindo em conformidade com o seu temperamento, sejam capazes de se ligar a ele desde o primeiro momento”, dizia o pediatra norte-americano, em entrevista à edição portuguesa da Marie Claire, em 1990.

Brazelton defendia que é preciso transmitir aos pais que são eles as pessoas mais importantes na vida dos filhos e que têm de se sentir competentes para serem pais. Para isso, têm a ajuda do pediatra e de outros especialistas, profissionais de saúde e de educação, define Gomes-Pedro. “O nosso sonho, e também o de Brazelton, é que cada bebé nasça com oportunidades. Uma das grandes mudanças nas maternidades foi trazer o bebé para junto da mãe, e isso representa o ponto de partida no sentido da felicidade”, acrescenta o pediatra português, que se orgulha de ser um discípulo do norte-americano.

As palavras do famoso pediatra continuam actuais, em 1979 apontava o dedo aos pais que se preocupavam tanto que não sorriam. “Não conseguem sorrir e passar às crianças o entusiasmo que é ser progenitor. Gostaria de saber o que é preciso fazer para que os pais relaxem e não levem a parentalidade tão a sério”, dizia então, citado agora pelo Washington Post. “Cada criança tem direito a que pelo menos um adulto esteja loucamente apaixonado por ela”, declarou à Marie Claire.

Brazelton dizia que a sociedade americana era a “menos amiga das famílias, de todo o mundo ocidental”, e lembrava os casos dos tiroteios nas escolas, levados a cabo por adolescentes. “Ainda estamos a pagar caro o facto de não darmos à família toda a atenção que ela merece”, dizia ao Correio da Manhã, em 2004. Sobre os pais portugueses, elogiava: “Sinto que ainda há uma ternura, um calor humano entre as famílias.” Contudo, dois anos antes, alertava para os malefícios da televisão e da Internet, apelando aos pais para que as crianças não tivessem acesso a estes meios nos seus quartos.