A primeira directora da CIA tem historial negro de tortura

Gina Haspel sobe à liderança da CIA pouco mais de um ano depois de se ter tornado número dois da agência. O seu passado numa prisão clandestina na Tailândia gerou polémica aquando da sua promoção.

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Gina Haspel dirigiu um "black site" da CIA na Tailândia onde a tortura foi usada para interrogar suspeitos de terrorismo Youtube

Gina Haspel chegou a número dois da CIA em Fevereiro do ano passado, pela mão de Mike Pompeo, que tinha sido nomeado por Donald Trump para liderar a agência. Na altura, a escolha de Haspel gerou críticas devido ao seu papel na supervisão de uma prisão clandestina da CIA na Tailândia e pelos métodos de interrogatório aí praticados. Agora, será a primeira mulher da história dos Estados Unidos a liderar a agência, na sequência de mais uma dança de cadeiras provocada pelo Presidente norte-americano.

Haspel passou grande parte da sua carreira da CIA como agente clandestina e foi nesse papel que, entre 2002 e 2005, supervisionou um programa ultra-secreto da agência que sujeitou dezenas de suspeitos de terrorismo a interrogatórios que a revista New Yorker descrevia, num artigo do ano passado, como “selvagens”.

Como noticiou, também no ano passado, o The New York Times, Haspel liderou o primeiro local de detenção da CIA no âmbito deste programa no estrangeiro (um “black site”). Foi na Tailândia, e, nesse local, dois suspeitos de terrorismo, os sauditas Abu Zubaydah e Abd al-Rahim al-Nashiri, ainda hoje presos em Guantánamo, foram brutalmente torturados. Por exemplo, foi-lhes aplicado o chamado waterboarding (ou afogamento simulado). Abu Zubaydah, foi sujeito a essa tortura 83 vezes num mês e a sua cabeça foi repetidamente lançada contra a parede, entre outras agressões, até que foi concluído que o suspeito não tinha informações úteis a oferecer.

Porém, foi o que se passou a seguir ao regresso de Haspel aos Estados Unidos que motivou as maiores críticas, na grande maioria por parte de congressistas democratas, à sua nomeação como vice-directora da CIA.

Os métodos de interrogatório utilizados na Tailândia tinham sido todos gravados em vídeo e as gravações guardadas num arquivo naquele país. Mas, em 2005, numa altura em que Haspel, que é altamente respeitada no seio da agência, tinha já regressado à sede da CIA nos EUA, as gravações foram destruídas.

A versão oficial é a de que a ordem para a destruição destes registos foi dada por Jose Rodriguez, então líder do serviço clandestino da CIA e patrão de Haspel. Porém, alguns anos depois, em 2013, a senadora democrata Dianne Feinstein, que tinha a liderança do seu partido na comissão dos serviços secretos do Senado, impediu uma promoção da agora directora da CIA devido ao seu papel quer nas torturas realizadas na Tailândia, quer na destruição dos vídeos.

A organização Human Rights Watch garantiu que a ordem de destruição dos registos foi dada em conjunto por Rodriguez e por Haspel.

Durante a campanha eleitoral de 2016, Trump chegou a defender que a tortura resultava e que era uma boa via para extrair informações de terroristas. Também Mike Pompeo, agora secretário de Estado dos EUA, disse que métodos como os afogamentos simulados não podiam ser considerados tortura e que quem os aplicava na luta contra a Al-Qaeda deveria ser elogiado por ser “patriota”.

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