“Sacana do Facho! Sacana do Bochechas!”: a série Markl que vai rebobinar 1986

Freitas vs Soares, nerds vs betinhos, TV vs Internet: caso especial de expectativa, a nova série da RTP chega esta noite ao horário nobre da estação e logo a seguir fica integralmente disponível no RTP Play

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Uma cena no videoclube de 1986 Rui Gaudencio
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Filipe Homem Fonseca, Joana Stichini Vilela e Nuno Markl Rui Gaudencio
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Henrique Oliveira (ao centro) Rui Gaudencio
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Miguel Moura e Silva Rui Gaudencio
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“Sacana do Facho! Sacana do Bochechas!”, exaspera-se o pai comunista da série e do ano 1986 perante a segunda volta das presidenciais que o obrigará a votar Mário Soares, “o Bochechas”, contra Freitas do Amaral, “o Facho”. 1986 é uma história de adolescentes, mas que não tem idade a não ser a da geração Nuno Markl, ou melhor, a da "geração dos fãs do Markl”, essa amálgama de jovens e adultos que comunga na igreja da cultura pop. Por isso mesmo estreia-se esta noite, à antiga, na RTP1, mas vai logo a seguir integralmente para a Internet, à moda de 2018.

Tal como hoje a importância social de coleccionar um rótulo de Cola Cao – ou de comer Cola Cao às colheres – escapa a quem não viveu os anos 1980, o termo binge watching seria estranho ao Portugal de 1986. Mas é graças a ele, a esse ano de todas as divisões que pôs o país de autocolante ao peito e de coração ao alto, que o “mundo do Markl” vai chegar ao horário nobre da televisão e também ao modo de ver televisão mais século XXI, com a chegada dos 13 episódios da série ao RTP Play logo após a estreia do canal público, marcada para as 22h.

No primeiro episódio, apresentado à imprensa com uma semana de antecedência, os filmes são em VHS e o concurso 1,2,3 é um marcador social. O negrume urbano-depressivo dos Smiths é um contraponto à glória do Tarzan boy de Baltimora, o videoclube é o Eldorado. Projectando-se na figura do protagonista Tiago (Miguel Moura e Silva), o seu "mini me", Nuno Markl recriou o seu bairro de Benfica, versão anos 80, entre a Escola José Gomes Ferreira e o Centro Comercial Turim. E verteu nos guiões, escritos com a irmã Ana Markl e Filipe Homem Fonseca (apoiados pela consultoria de época de Joana Stichini Vilela), as suas memórias e as suas referências, pai (um historiador de arte que aqui vira crítico de cinema) e mãe incluídos – dos filmes de John Hughes às aventuras de Os Goonies e à segunda volta da campanha eleitoral que, entre Janeiro e Fevereiro de 1986, dominava, entre os cortinados garridos e os azulejos berrantes, as casas de todos os portugueses.

A série estava na mente de Nuno Markl há mais de 15 anos. E é agora aguardada há meses, sobretudo pelos seus milhares de seguidores, que apreciam o humor e as fatias de cultura nerd que vai servindo aos que, como ele, são consumidores do revivalismo geracional dos anos 1980 e 90. Ultrapassada a marca das 20 séries portuguesas produzidas pela RTP nos últimos anos, esta criou um buzz, uma curiosidade, muito particular. Para a satisfazer, a estação vai permitir que seja consumida de enfiada, em modo binge watching, já a partir desta terça-feira, fazendo a ponte entre uma encarnação mais antiga da televisão portuguesa, aquela em que só havia dois canais, e os anos do streaming

Tudo de uma vez

1986 é o mundo de Tiago, do seu pai Eduardo (Adriano Carvalho) caricaturalmente comunista, e dos seus amigos – a gótica Patrícia (Eva Fisahn), a "Siouxie da Damaia", o metaleiro Sérgio (Miguel Partidário) e a sua paixoneta Marta (Laura Dutra), cujo pai, Fernando (Gustavo Vargas), é apoiante de Freitas. E assim se desenha um cenário Romeu e Julieta em Benfica. São histórias de Nuno Mark, vivências da irmã Ana e recordações do argumentista Filipe Homem Fonseca, sobre um pano de fundo eleitoral que "alimenta o drama e a comédia das personagens, seguindo a velha máxima do 'it’s funny because it’s true'”, explicava o autor ao PÚBLICO há seis meses, num dia de filmagens. 

Bem perto do cenário que na série é o videoclube em que não rebobinar a cassete dá multa, Nuno Markl ainda nem tinha visto os episódios montados e já proclamava: “Isto ultrapassa qualquer sonho que eu possa ter tido, tornou-se mesmo uma coisa incrível. Acho que nunca me senti tão satisfeito com um trabalho – já me senti satisfeito com um sketch que escrevi. Mas esta é a primeira série de ficção de um gajo que está habituado a escrever sketches. Parecia-me um Evereste."

Agora são 13 episódios realizados por Henrique Oliveira, também conhecido como guitarrista dos Táxi, e produzidos pela Hop Filmes. À sua volta construiu-se entretanto um pequeno microcosmo. Há 1986 – o disco, cujos temas foram maioritariamente escritos por João Só (também tem originais de Miguel Araújo e David Fonseca, além de interpretações de Rita Redshoes ou Samuel Úria). O realizador e artista plástico João Pombeiro, que já assinou um vídeo para os Nightmares on Wax e é um dos co-criadores de Bruno Aleixo, assina o genérico e fez autocolantes a emular os da campanha das presidenciais para promover 1986. Alguns sites de classificados lembram oportunamente que têm objectos "da época" para venda. E a playlist que o autor fez para a personagem Tiago já está no Spotify.

É uma série feita de objectos e referências incontornáveis. As personagens-tipo, dos outsiders aos betinhos, são apenas um dos ingredientes de reconhecimento que lá estão. Os espectadores, acredita o director de programas Daniel Deusdado, também lá estarão. Mesmo que estes 13 episódios sejam postos logo na Internet. “Discutimos bastante isto. Não é consensual”, admitiu ao PÚBLICO. “Se há série que tem a ver com um público a que a RTP quer chegar, um público que por mais que façamos não vem para o ecrã, é este mundo do Markl”, acrescentou, explicando o que levou a estação a "apostar as fichas todas neste conceito": "Estes fãs do Markl são os Internet consumers máximos. Se eles querem, vamos dar-lhes. Tudo de uma vez.”

O simultâneo entre a estreia na televisão e a disponibilização da totalidade dos episódios via RTP Play é uma experiência que a RTP já tinha feito com A Criação, que teve pouco impacto junto do público, ou com outras séries pensadas directamente para aquela plataforma, mas que agora testa com uma comédia de perfil blockbuster para expandir a zona de influência da marca.  

Prestes a abandonar a RTP1 após três anos no cargo (o administrador para os conteúdos, Nuno Artur Silva, também está de saída depois de não ter sido reconduzido pelo Conselho Geral Independente), Daniel Deusdado acredita que pôr uma série como 1986 na Internet não rouba espectadores à televisão – mesmo que o faça, diz, o impacto é “mínimo”. A operação, contrapõe, reforça a ligação “destes fãs do Markl” à “marca” RTP, um dos mantras que repetiu ao longo do período em que teve a seu cargo a gestão da grelha: "Ou se trabalha para as audiências, ou se trabalha para a marca. Na dúvida, sempre apostei mais na marca e na relevância e no impacto do que na facilidade ou na audiência.” 

Nos últimos anos, a audiências das séries da RTP têm oscilado entre os cerca de 490 mil espectadores de Vidago Palace, os 250 mil de espectadores de Madre Paula ou os 160 mil de A Criação. Ao seu lado, as novelas da SIC e da TVI ultrapassam o milhão de espectadores cada. A partir desta terça-feira, a estação pública conta com alguns dos mais de 700 mil seguidores de Nuno Markl no Facebook, a que se somam os mais de 230 mil no Instagram, para rebobinar 1986.