Fundação EDP lança Electra, uma revista para pensar o mundo com tempo e distância

Nova publicação tem periodicidade trimestral e datas de lançamento a coincidir com o arranque das estações do ano. É uma revista de crítica, pesquisa, ensaio e reflexão cultural que quer ocupar um lugar que os jornais deixaram "abandonado", diz o seu editor.

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Comecemos por dizer o que não é, para passarmos depois ao que realmente é: “Electra não é uma revista académica, nem uma revista especializada, nem uma revista técnica. Não é também uma revista-magazine ou de informação geral. Não é uma revista messiânica, salvífica ou redentora. Não é uma revista que corre atrás do que acontece. É uma revista que se situa entre o pensamento desse acontecer e o acontecer desse pensamento.” Difícil? Tentemos, então, uma definição mais pragmática – Electra é uma revista de crítica, pesquisa, ensaio e reflexão cultural, feita para interrogar a actualidade, o espírito do tempo, sem ter de obedecer aos limites impostos pela imediatez de jornais e televisões, explicam José Manuel dos Santos e António Soares no texto de apresentação da nova publicação trimestral da Fundação EDP, lançada esta tarde no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa.

António Guerreiro, o seu editor, junta-se ao director e subdirector da Electra definindo-a como uma publicação feita para “pensar o presente, o contemporâneo”, atravessando territórios disciplinares muito diferentes e, por isso, feita para um leitor ecléctico. “Nós não temos um público alvo que está fixado à partida e de uma vez por todas, como acontece com os targets dos jornais e revistas magazinescas”, diz ao PÚBLICO este jornalista, crítico e ensaísta, explicando que ela nasceu para ocupar um espaço que a imprensa deixou “abandonado”: “Hoje os jornais olham acriticamente para a actualidade, deixaram de ter tempo para ganhar distância dos acontecimentos, uma distância que lhes dava a capacidade de os ler de outra maneira. Esta revista recupera a tradição da crítica cultural alargada, dado outras perspectivas da realidade.” Perspectivas que podem partir da filosofia ou da poesia, da sociologia ou da arte, da literatura ou da geografia.

A revista – que sairá quatro vezes por ano, ao ritmo das estações, em duas edições, uma em português e outra em inglês e que custa 9 euros – terá a cada número um dossier temático com cinco ou seis textos, um artista plástico convidado que ali mostrará um portfólio, uma série de artigos dedicada à crítica (livros, filmes, espectáculos, exposições) e outras secções que, não sendo fixas, podem incluir, entre outras propostas, entrevistas e perfis de figuras das artes, da ciência ou da escrita (só para falar em dois géneros imediatamente identificáveis), uma área em que se confrontam duas pessoas com posições diferentes sobre o mesmo assunto e rubricas em que se fala de cidades ou de tendências urbanas.

Neste primeiro número a artista convidada é Lourdes Castro (n. 1930), que mostra um trabalho inédito feito a partir de um dos autores que mais ama, o poeta de língua alemã Rainer Maria Rilke (Rainer Maria Rilke: Klage, 1957).

O dossier, esse, pede o título emprestado a um artigo de tom apocalíptico do escritor vienense Karl Kraus –Nesta grande época – e inclui textos do filósofo italiano Roberto Esposito (sobre biopolítica e pós-democracia); da portuguesa Pê Feijó (as margens do género); do filósofo francês Frédéric Neyrat (Max nas Estrelas: notas para uma saída da época); uma entrevista de Andrea Cavalletti, professor de estética e literatura italiana da Universidade de Bolonha, ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e à filósofa Déborah Danowski, ambos brasileiros (O fim do mundo não é o fim de tudo); e, a fechar, um glossário de termos desta época assinado por João Oliveira Duarte e António Guerreiro, este último também autor do artigo de arranque, onde se enunciam algumas questões teóricas a partir da actualidade.

“No texto do Neyrat, por exemplo, trabalha-se o imaginário dos fins, próprio do nosso tempo, e muito ligado à ecologia política, à ideia de que a humanidade caminha para a autodestruição”, explica Guerreiro, também colaborador do PÚBLICO. 

Andrea Cavaletti publica um artigo sobre a cidade de Bolonha que pode muito bem abrir a porta ao do geógrafo português Álvaro Domingues, Cidade: Metamorfoses do centro. E por falar em centro e em projectos icónicos, há ainda para ler Pompidou 40 (de Yves Michaud, filósofo, e Catherine Lawless, investigadora que tem estudado o género e a sua representação na arte), sobre os 40 anos desta grande instituição cultural parisiense, que foi merecidamente vista como um novo paradigma.

O Rendimento Básico Incondicional é o tema da discórdia no confronto ideológico entre o académico André Barata (a favor) e George Zarkadakis (contra), que escreve habitualmente sobre ciência e, em particular, sobre inteligência artificial.

Neste primeiro número, a entrevista em destaque é feita por Guerreiro ao filósofo Boris Groys, autor de referência na teoria dos media que muito tem reflectido sobre museus e a relação da arte com a política. Espaço ainda para o perfil do matemático e poeta António Franco Alexandre e para um texto da filósofa e professora de Estética Maria Filomena Molder, que inaugura a secção Passagens, dedicada a frases muito citadas. Desta vez o mote é uma afirmação de Jules Michelet, filósofo e historiador francês do século XIX – “Cada época sonha com a seguinte”.

Em Outubro do ano passado, numa breve conversa com o PÚBLICO, o director de Electra advertira já que a publicação que a Fundação EDP se preparava para lançar era de “leitura longa”, “demorada” e “exigente”. “O tempo em que vivemos tem sido acusado de muitas coisas, mas não de pensar de mais”, escreve agora, convidando o leitor a folhear uma revista que é também para ver: no projecto gráfico do designer João M. Machado, a arte quer assumir o papel de destaque que o seu perfil editorial lhe impunha à partida.

No próximo número, que deverá sair no final de Junho (o primeiro estava previsto para o Inverno e acaba por sair já com a Primavera à espreita), o dossier é centrado na Estupidez, tema de “certa nobreza e tradição filosófica”, sublinha António Guerreiro: “Vamos pegar nele a partir da ideia flaubertiana de que cada época engendra as suas formas de estupidez.”

Esperemos que o diagnóstico à nossa estupidez partilhada chegue mesmo quando já for Verão.

Notícia alterada às 11h22 de 14 de Março para acrescentar o preço da revista