Crítica

Uma fascinante viagem pela arte vocal de Britten

O recital Let the florid music praise! – Tribute to Benjamin Britten foi o primeiro passo em direcção a um futuro festival anual dedicado à canção de câmara.

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André Baleiro DR
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Inês Simões DR

A música vocal ocupou um lugar central no percurso criativo de Benjamin Britten (1913-1976), cuja produção inclui uma quantidade substancial de óperas, música coral e canções de câmara. Com um sentido inato da vocalidade da língua inglesa, o compositor britânico percorreu uma infinidade de temáticas e de textos literários, sem esquecer as tradições da música popular e o legado de músicos do passado. Boa parte das suas composições teve como destinatário o seu companheiro de vida, o tenor Peter Pears, mas outras grandes figuras do canto como Kathleen Ferrier, Dietrich Fischer-Dieskau ou Alfred Deller beneficiaram igualmente das suas criações.

No passado fim-de-semana, a soprano Inês Simões, o barítono André Baleiro e os pianistas Daniel Godinho e David Santos, quatro intérpretes com uma forte afinidade artística com este universo, apresentaram no British Council, em Lisboa, o recital Let the florid music praise! – Tribute to Benjamin Britten. Uma conferência pelo musicólogo Rui Vieira Nery antecedeu as prestações musicais, que foram também comentadas pelos pianistas no que diz respeito ao conteúdo dos poemas e das opções musicais do compositor, por vezes ilustradas ao piano por David Santos, especialista na interpretação de Lied residente na Alemanha. Britten era pianista e o papel do instrumento nas suas canções é tão importante como a voz na caracterização de ambientes e estados de alma, como bem demonstraram, na prática, Daniel Godinho e David Santos.

O recital iniciou-se com a interpretação de Inês Simões e Daniel Godinho (duo cuja colaboração se pode ouvir no CD Alma Ibérica) de dois dos mais emblemáticos arranjos de Britten para canções de Henry Purcell: Music for a while e Sweeter than roses. Se nesta última peça, cuja segunda parte coloca grandes desafios ao nível da agilidade, da respiração e das mudanças de agógica, a cantora ficou algo aquém do seu potencial, no ciclo On this Island, op. 11, depois do intervalo, mostrou progressiva acuidade, versatilidade na recriação dos contrastes de carácter das diferentes peças e forte sentido teatral. Destaca-se a expressividade que atingiu em Nocturno, por oposição ao brilho mais ligeiro e à vivacidade rítmica de As it is, plenty, canção com irónicas reminiscências de música de dança e ecos jazzísticos. Inês Simões cantou ainda de forma eloquente dois dos mais conhecidos arranjos de canções populares de Britten (O Waly, Waly e Come you not from Newcastle?), precedida e seguida por André Baleiro em notáveis interpretações de The foggy, foggy dew e The plough boy da mesma colectânea (Folksong Arrangements, Vol. III: British Isles).

Vencedor do Concurso Internacional Robert Schumann de Zwickau em 2016 e do prémio “Most Promising Talent" no concurso Das Lied de Heidelberg em 2017, André Baleiro confirmou no British Council a sua estreita afinidade com o mundo da canção de câmara. Com um belo timbre ao longo de toda a extensão vocal, técnica e dicção apuradas e um sentido da relação texto-música na justa medida (ou seja, interpretando com subtileza e perspicácia o microcosmos de cada canção, mas sem cair em exageros), distinguiu-se na interpretação do ciclo Canções e Provérbios de William Blake, op. 74, dedicado a Fischer-Dieskau. Os visionários textos de Blake deram origem a um dos mais densos e originais ciclos de Britten, exigindo ao cantor e ao pianista uma ampla paleta expressiva, desde o mais intenso lirismo à forte caracterização dramática, passando por atmosferas mais ambíguas e misteriosas, que André Baleiro e David Santos souberam habilmente transmitir .

O recital, entusiasticamente acolhido pelo público, terminou com um divertido encore em dueto com acompanhamento de piano a quatro mãos: a canção americana Old Woman, old woman are you fond of courting, na qual os intérpretes deram asas aos seus dotes teatrais. Este foi o primeiro passo num projecto de festival dedicado à canção de câmara que será realizado anualmente.