Tim Berners-Lee pede regulação na Web para evitar que seja usada como arma

No 29.º aniversário da World Wide Web, o cientista que a criou lamenta que “aquilo que foi outrora uma rica selecção de blogues e sites, está agora limitado pelo influente peso de algumas plataformas dominantes”.

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Tim Berners-Lee trabalhava no CERN, na Suíça, quando criou a Web. Esteve em Portugal em 2015 Enric Vives-Rubio

Tim Berners-Lee, o cientista britânico que criou a World Wide Web, alertou nesta segunda-feira para a necessidade de regular as grandes empresas tecnológicas que “controlam as ideias e opiniões que são partilhadas”, criando ainda “barreiras” às empresas concorrentes. Numa carta aberta com que assinala os 29 anos da sua invenção, o britânico diz que “o facto de o poder estar concentrado em tão poucas empresas tornou possível transformar a Web numa arma”.

Entre as actuais ameaças à Web, considera, está a “má informação, a publicidade política questionável e uma perda do controlo sobre os dados pessoais”.

“Nos últimos anos temos visto teorias da conspiração nas redes sociais, contas falsas no Twitter e no Facebook a alimentarem tensões sociais, factores externos a interferirem nas eleições, e criminosos a roubarem informações pessoais valiosas”, escreve Berners-Lee numa carta aberta divulgada nesta segunda-feira pela sua Web Foundation. Aquele que é considerado o pai da Web acredita que estes problemas só acontecem porque o poder se tem concentrado nas mãos de algumas plataformas, como o Facebook, o Google e o Twitter — ainda que não se refira a elas directamente.

O cientista britânico tem aproveitado a ocasião do aniversário da World Wide Web para partilhar preocupações. Em 2014, pedia aos cidadãos que lutassem por uma World Wide Web “aberta e neutra”, através da aprovação de uma espécie de Constituição universal que salvaguardasse os direitos de todos os utilizadores.

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Valentin Flauraud/REUTERS

Em 2017, defendia a necessidade de apertar a regulação da propaganda política online, que dizia estar a ser usada de forma “antiética”, considerando-a um dos maiores desafios do futuro. A interferência russa nas eleições norte-americanas de Novembro de 2016 tem sido um dos assuntos mais falados no que diz respeito à influência que as redes sociais podem ter na tomada de decisão dos utilizadores. O próprio Facebook admitiu, no final de 2017, que houve mais de 80 mil publicações feitas na rede social com origem na Rússia e com o objectivo de influenciar a política norte-americana, podendo a informação errónea ter chegado a 126 milhões de norte-americanos.

Empresas querem mais o “lucro” do que o bem social

“Aquilo que foi outrora uma rica selecção de blogues e sites, está agora limitado pelo influente peso de algumas plataformas dominantes”, escreve em 2018 o premiado cientista, de 62 anos. Ainda que algumas destas empresas estejam “conscientes dos seus problemas” e tenham tomado medidas para os “corrigir” – ao declarar guerra às notícias falsas, por exemplo –, Berners-Lee sublinha que elas “foram construídas para maximizar o lucro mais do que para maximizar o bem social”. Para reverter a situação, é preciso criar “um quadro legal ou regulamentar” que ajude a definir objectivos sociais, argumenta.

Apesar de tudo, tem uma visão optimista: acredita que não é tarde de mais para mudar a forma como as plataformas operam e argumenta ainda que a ideia de que a publicidade é o único modelo de negócio possível para empresas online é um “mito”.

Segundo o The Guardian, o 29.º aniversário da World Wide Web coincide com o ano em que mais de metade da população mundial terá acesso à Internet. Depois de, em 2016, a ONU ter reconhecido o acesso à Internet como um direito humano, o criador desta tecnologia defende que devem ser feitos esforços para que a Web possa chegar a mais gente.

Isto inclui medidas para que as mulheres e meninas possam obter competências digitais, já que são um dos grupos com menos acesso à Internet em meios pobres. No geral, insiste Tim Berners-Lee, esta incapacidade de aceder à Internet contribui para a desigualdade social. E, para a combater, há ainda um longo caminho a percorrer.