Opinião

Manuel Bosta e João Bosta

O nacionalismo supostamente vitorioso não é hoje mais do que um circo. Mudar os nomes aos palhaços não lhes muda a natureza.

Começarei por admitir, não sem algum embaraço, que a minha mãe lê estas crónicas e que portanto não me sinto muito à vontade para contar a seguinte anedota com o palavreado com que originalmente a aprendi e com que muita gente a repete. Portanto cá vai, numa versão levemente mais bem-educada.

Havia um homem que se chamava Manuel Bosta. Um dia foi ao registo civil mudar de nome. Quando anunciou a sua intenção ao funcionário, este mostrou-se compreensivo: “De facto, que situação mais desagradável; se eu me chamasse Manuel Bosta, também quereria alterar o meu nome”. O funcionário foi buscar os formulários e perguntou a Manuel Bosta: “Então que novo nome deseja adotar?”. A resposta veio célere: “João Bosta”.

Esta anedota não é uma obra-prima do humor universal. Mas foi-me irresistivelmente lembrada pelo congresso do partido de Marine Le Pen, este fim-de-semana em França. Relembremos que desde que foi derrotada nas eleições presidenciais de 2017 que a líder da Frente Nacional francesa sugeria que o partido fundado pelo seu pai deveria mudar de nome para suavizar a imagem de um nacionalismo agressivo, xenófobo e racista que tem junto dos eleitores franceses. Durante quase um ano, a mudança de nome cristalizou todas as tensões entre as correntes do partido de extrema-direita. Marine Le Pen garantia que “a designação Frente Nacional é para muitos franceses um travão ao crescimento do partido”, pelo que seria necessário alterá-la. Qual seria o novo nome? Os Patriotas? Uma outra escolha a partir do nome da líder? Quando chegou a altura da decisão, o resultado foi igual ao da anedota. Quase imagino a líder de extrema-direita em frente ao funcionário do registo dos partidos políticos: “Então que novo nome deseja para a Frente Nacional, senhora Marine Le Pen?” — “União Nacional, senhor funcionário”.

Ou seja, o partido da extrema-direita francesa deixou primeiro de ser o partido familiar de Jean-Marie Le Pen para passar a ser o partido familiar de Marine Le Pen. E agora deixa de ter um nome fascistóide como Frente Nacional para passar a ter um nome ainda mais fascistóide como União Nacional. Para retomar o tema escatológico, é justo dizer que as moscas mudam, mas que o resto é tudo igual.

Esta não é, porém, só uma questão de nome (Front National por Rassemblement National, em francês). É uma questão de conteúdos e de direção política, ainda mais assumida e convictamente de extrema-direita do que antes. Senão vejamos: o orador-surpresa do congresso da então Frente Nacional e agora União Nacional foi Steve Bannon, o antigo chefe de estratégia de Donald Trump, porta-voz da alt-right (que inclui os “supremacistas” brancos americanos), e agora profeta itinerante do nacionalismo económico.

Steve Bannon foi aplaudido com entusiasmo. Mais ainda quando decidiu dizer aos congressista que deveriam ter orgulho em serem considerados racistas. “Vão chamar-vos racistas, vão chamar-vos xenófobos, vão chamar-vos nativistas — pois bem, usem tudo isso como uma honrosa medalha”. Se de facto a extrema-direita francesa quisesse afastar-se da sua imagem racista e algo lunática, não poderia ter escolhido pior.

Mas, para os membros da Frente Nacional, a escolha não poderia ter sido melhor. Bannon disse-lhes que estavam do lado certo da história. Disse-lhes que as eleições italianas o provavam, sugerindo que a vitória contra a União Europeia estava para breve (amalgamando de caminho, como têm feito muitos analistas, os 17% que a extrema-direita teve com os mais de 30% que teve o Movimento 5 Estrelas e pressupondo que tudo isso significa um choque em breve com a UE — crenças convenientes e disseminadas, mas erradas).

Numa coisa, contudo, Bannon tem razão: na forma como assume que o racismo e o tribalismo partilham os mesmos elementos estruturais do nacionalismo. O nacionalista diz que é politicamente natural “cuidar apenas dos nossos” — o racista diz o mesmo. O nacionalista diz que o interesse próprio da comunidade deve ser a única consideração dos homens políticos — o tribalista diz o mesmo. E por aí afora. Aquilo que parece fazer a força intelectual do nacionalismo — a simplicidade, o carácter afirmativo — é também o seu primeiro ponto fraco: o facto de que não há nenhum argumento a favor do nacionalismo que não possa também ser usado a favor do racismo, do tribalismo e do sectarismo étnico ou religioso.

O que falta a este pensamento é o republicanismo, ou seja, a noção de que o objeto da comunidade política não é reproduzir a mesma mentalidade de proteção da tribo, mas dar a proteção da lei e das oportunidades iguais a toda a gente. O pensamento republicano pode facilmente expandir-se (tornando-se cosmopolitismo) para fazer face aos desafios contemporâneos: a globalização, a automação, a crise ecológica. O nacionalismo, não.

O nacionalismo continuará fazendo nos próximos tempos o espectáculo da sua afirmação, acreditando que o futuro lhe pertence e que a palavra “nação” é um talismã. Mas não tem mais para oferecer do que fragmentação, exclusão e, em última análise, conflito. O nacionalismo supostamente vitorioso não é hoje mais do que um circo. Mudar os nomes aos palhaços não lhes muda a natureza. Achar que os palhaços são sérios, menos ainda.

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