Putin diz que interferência nas eleições americanas pode ser obra de judeus

Presidente russo está a ser acusado de "dar nova vida a estereótipos anti-semitas".

Vladimir Putin
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Vladimir Putin LUSA/MIKHAIL KLIMENTYEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL
O Presidente russo foi entrevistado pela NBC em Moscovo
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O Presidente russo foi entrevistado pela NBC em Moscovo LUSA/MIKHAIL KLIMENTYEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL
Putin e a jornalista da NBC Megyn Kelly
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Putin e a jornalista da NBC Megyn Kelly Reuters/SPUTNIK
A entrevista teve vários momentos de tensão
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A entrevista teve vários momentos de tensão Reuters/SPUTNIK

O Presidente russo, Vladimir Putin, está a ser acusado por organizações de defesa dos direitos humanos e por políticos norte-americanos de "dar nova vida a estereótipos anti-semitas", depois de ter dito que a interferência nas eleições norte-americanas pode ter sido obra de judeus.

"Determinados indivíduos podem ter usado determinadas ferramentas em outros países. Podem ter enviado informação relevante a partir de França, da Alemanha, da Ásia, da Rússia. O que é que isso tem que ver connosco?", questionou Vladimir Putin durante uma entrevista, no Kremlin, à jornalista Megyn Kelly, da NBC News.

Mostrando alguma irritação com a linha de perguntas sobre a interferência nas eleições presidenciais de 2016, e depois de a jornalista norte-americana o ter pressionado a garantir que não houve russos envolvidos no caso, Putin respondeu: "E se forem russos? Não são responsáveis do Governo. Há 146 milhões de russos. E então?"

Pouco depois, quando questionado sobre se vê algum problema em que 13 cidadãos russos tenham interferido nas eleições norte-americanas, Putin riu-se e respondeu: "Não quero saber, não estou minimamente preocupado porque eles não representam os interesses do Estado russo."

E foi perante a insistência da jornalista que o Presidente russo voltou a avançar mais algumas hipóteses sobre os responsáveis da interferência nas eleições norte-americanas: "Se calhar nem são russos. Se calhar são ucranianos, tártaros, judeus. Só que com nacionalidade russa", disse Putin, implicando a ideia de que os judeus com nacionalidade russa não são cidadãos russos por inteiro.

Em resposta, a Liga Anti-Difamação (ADL), uma das mais importantes organizações norte-americanas de combate ao racismo e anti-semitismo, acusou Vladimir Putin de "dar nova vida a clássicos estereótipos anti-semitas que infectaram o seu país ao longo de séculos com um comentário que parece ter sido tirado das páginas dos Protocolos dos Sábios de Sião" – um texto anti-semita escrito na passagem dos séculos XIX para XX, ainda durante a Rússia czarista, que denuncia uma suposta conspiração global de judeus e maçons para dominarem o mundo.

"Vivemos num momento em que a violência anti-semita está a crescer, e em que as palavras podem ter consequências profundas, particularmente quando são proferidas por figuras públicas ou por responsáveis eleitos como o Presidente Putin. Esperamos que ele clarifique rapidamente as suas palavras antes que causem mais danos às comunidades que ele apontou", disse ainda o líder da ADL, Jonathan A. Greenblatt.

O senador norte-americano Richard Blumenthal, do Partido Democrata, reagiu no Twitter às declarações do Presidente russo, dizendo que "devem ser denunciadas pelos líderes mundiais"

"Porque é que Trump está em silêncio? A intolerância é intolerável", disse o senador do Connecticut.

O congressista Don Beyer, também do Partido Democrata, exigiu à Administração Trump que aplique o reforço das sanções norte-americanas à Rússia, aprovado pelo Congresso em 2017: "Putin sugere que os ataques russos contra as eleições americanas podem ter sido lançados por 'judeus, só que com nacionalidade russa'. Este homem não é nosso amigo, e a Administração Trump tem de aplicar as sanções aprovadas pelo Congresso", disse Beyer, citado pelo jornal israelita Haaretz.

Em 2016, ainda durante a Administração Obama, todas as 16 agências da comunidade de serviços secretos norte-americanos concluíram que houve um ataque lançado por russos com o objectivo de interferir na eleição presidencial desse ano, que viria a ser ganha por Donald Trump. Desde que foi eleito, Trump tem mostrado relutância em acusar o Governo russo de estar ligado a esse ataque. O Presidente norte-americano considera que as acusações de ingerência russa – que estão a ser investigadas pelo procurador especial Robert Mueller – servem para desvalorizar a sua vitória nas eleições contra Hillary Clinton.