Na guerra que ninguém pode ganhar, pode haver solução?

Os taliban rejeitam conversações com o Governo de Cabul. Trump mudou de abordagem e o Paquistão está a virar-se para antigos inimigos.

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Atentado talibam em Cabul em Janeiro: 95 mortos e 158 feridos EPA/HEDAYATULLAH AMID
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Combatentes taliban JAVED TANVEER

O Presidente afegão, Ashraf Ghani, apelou novamente ao diálogo com os taliban, e acenou-lhes até com o reconhecimento político. Só que, no mesmo dia, os combatentes deste movimento radical islâmico raptaram 30 polícias e mataram outros seis no Sul do Afeganistão. Depois da resposta de forma indirecta, a proposta de negociação foi rejeitada. 

A conversação entre ambas as partes é improvável. Mas parece ser a única forma de haver algum desenlace no Afeganistão, visto não existir nenhuma perspectiva de vitória para qualquer dos lados. 

Nesta nova fase da guerra, onde os bombardeamentos norte-americanos se intensificaram, e o contingente militar internacional aumentou, os taliban refugiaram-se nas zonas rurais e começaram a lançar ataques esporádicos nas grandes cidades. O objectivo é aprofundar o caos e expor as fragilidades do Governo. 

Em 2017, mais de dez mil civis foram mortos ou feridos em ataques terroristas, segundo os cálculos das Nações Unidas. Os taliban foram dados como vencidos poucas semanas depois do início da invasão americana em 2001 e, mais tarde, por Barack Obama. Mas estão agora activos em 70% do território afegão, controlando completamente 4% dele, segundo uma investigação da BBC. 

Paquistão move-se 

O actual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, virou-se para um lado que ainda não tinha sido explorado para resolver a questão afegã: o Paquistão. Apesar de este ser um dado muitas vezes desmentido, sabe-se que os taliban contam há muito com o apoio de Islamabad. 

Poucos dias depois de o Presidente dos EUA ter acusado Islamabad de proteger “terroristas” que Washington “persegue no Afeganistão”, a Administração Trump cortou o financiamento militar ao Paquistão, arriscando suspender uma aliança que dura há mais de 70 anos. 

Perante este afastamento dos EUA, o Paquistão começou a recorrer à Rússia e à China. EStá, desta forma, a alterar-se o puzzle de alianças que se manteve ao longo das últimas décadas na região. 

Numa entrevista ao Financial Times no final de Janeiro, o ministro da Defesa paquistanês, Kurram Dastgir Khan, explicou que Islamabad está a promover um “reequilíbrio regional da política externa e de segurança”. Ameaçando ir mais longe na resposta aos cortes anunciados por Washington, o ministro ameaçou vedar o acesso terrestre e aéreo que as tropas norte-americanas utilizam para as operações no Afeganistão. Foi também decretado o fim da partilha de informação com os EUA. 

Moscovo vê a aproximação do Paquistão com bons olhos pois, para além de lhe ter sido aberta uma janela para difundir a sua influência na região, pode tornar-se parte activa na luta contra a presença do grupo jihadista Daesh no Afeganistão

Paquistaneses e taliban estão ligados através da chamada rede Haqqani. Este grupo, liderado por Maulvi Jalaluddin Haqqani e pelo seu filho, Sirajuddin Haqqani, começou a relacionar-se com os taliban nos anos de 1990, quando estes subiram ao poder em Cabul – Jalaluddin Haqqani foi até ministro dos Assuntos Tribais.

Com a invasão americana em 2001, e a consequente queda do governo taliban, os Haqqani fugiram para o Paquistão, reagrupando-se militarmente nas zonas rurais e lançando a partir daí o combate à coligação internacional do outro lado da fronteira. 

Alguns dos últimos ataques no Afeganistão foram também reivindicados pelo Daesh (que no Afeganistão se chama Província Khorasan).

Esta presença activa dos jihadistas, que são combatidos pelos taliban, serviu de mote para que Moscovo se aproximasse de Islamabad. Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo, acusou recentemente Washington de nada ter feito para conter o avanço dos jihadistas naquele país. 
Porém, os analistas garantem que os taliban detêm muito maior influência e poder do que o Daesh, que, apesar de ter realizado alguns atentados, não controla qualquer parcela de território. 

A Rússia nomeou um cônsul para a província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa, que faz fronteira com a província afegã de Nangarhar, onde o Daesh estabeleceu o seu centro nevrálgico naquele país. O cônsul, Mohammad Arsallah Khan, já prometeu iniciar esforços para aprofundar a relação comercial entre o Paquistão e a Rússia, argumentando que o desenvolvimento económico é a maior arma contra o extremismo. 

Mas também a China espreita por esta porta. Pequim planeia desembolsar 55 mil milhões de dólares em infra-estruturas no Paquistão. 

Contrariando as afirmações e decisões de Trump, o porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Lu Kang, elogiou os esforços que o Paquistão tem feito para combater o terrorismo, e admitiu que pretende intensificar a colaboração com Islamabad. 

“O facto de termos feito o nosso caminho para ter melhores relações com a Rússia e aprofundarmos da nossa relação com a China são respostas ao que os americanos têm feito”, disse o ministro da Defesa paquistanês.

Instabilidade política 

O objectivo inicial dos EUA para o Afeganistão era aparentemente simples: instalar um governo, consolidá-lo e esperar que a população afegã rejeitasse definitivamente os taliban. 

Em Fevereiro, a explosão de uma ambulância e o ataque a um hotel de luxo em Cabul mataram quase 200 pessoas. Foram os mais mortíferos de vários atentados cometidos nos últimos meses

Apesar de rejeitarem quase totalmente os taliban, a verdade é que os afegãos confiam cada vez menos nos seus governantes actuais. O Governo de Unidade Nacional não tem conseguido fazer jus ao nome. Está amplamente dividido. 

Durante os últimos anos, foram vários os ministros demitidos e a tensão entre o presidente Ghani e Abdullah Abdullah, que é uma espécie de primeiro-ministro, é latente. Este último ficou em segundo lugar, atrás de Ghani, nas presidenciais de 2014 (e depois de várias recontagens por suspeitas de fraudes). Perante o impasse, chegaram a um entendimento, mediado pelos EUA, e formaram o Governo de unidade. 

O último abalo político no país foi desencadeado pela demissão do poderoso governador da província de Balkh, Atta Muhammad, despedido pelo Presidente. Mas Muhammad recusa-se a abandonar o cargo, o que abriu mais um foco de conflito político. 

Estão marcadas eleições para 2019, e a corrida eleitoral promete ser tensa e imprevisível. 

Toda esta instabilidade, aliada à corrupção endémica maioritariamente ligada à droga – o Afeganistão é o maior produtor mundial de ópio – acaba por abrir as portas à insegurança nas ruas. E os taliban, que não vêem a hora de o Governo cair, alimentam-se deste caos. 

Para sempre

Se durante os primeiros anos de conflito, as administrações Bush e Obama anunciavam que a hora da vitória estava a chegar, ultimamente os analistas têm utilizado expressões que indicam sentimentos diferentes: “a guerra interminável” ou “a guerra invencível”. 

É muito pouco provável que os rebeldes tenham capacidade para ganhar esta guerra, pelo menos enquanto Cabul acolher forças dos EUA. 

Por outro lado, também é muito pouco provável que Cabul, juntamente com os EUA e a coligação internacional que estes lideram, derrote os taliban. Como escreve o analista Seth G. Jones na revista Foreign Affairs, os taliban são “demasiado fracos para ganhar e demasiado fortes para perder”. 

Desde que Donald Trump entrou na Casa Branca, a estratégia norte-americana mudou novamente. Os bombardeamentos intensificaram-se e foi ordenado o envio de mais quase quatro mil militares para o Afeganistão
Manter a presença militar para assegurar as mais básicas funções do Estado e esperar que sejam os próprios afegãos a chegar a um entendimento para a paz parece ser o actual caminho. Mas esta estratégia obriga os EUA a abdicarem da liderança da reconstrução da democracia afegã que lhes daria maior influência no país e na região. Por outro lado, assegura a manutenção de um governo que não seja controlado pelos taliban. 

No final de Fevereiro, Barnett Rubin, que foi representante especial para a região durante a Administração Obama, escreveu uma carta aberta aos taliban na revista New Yorker. Pedia-lhes que encetassem conversações com Cabul e não apenas com Washington: “A falha nos vossos apelos ao diálogo é que é apenas dirigida aos americanos, e não aos vossos compatriotas afegãos. (...) O vosso diálogo com o Governo dos EUA não pode substituir o diálogo com o Governo [afegão] e com os milhões de outros afegãos que receiam os vossos ataques e o vosso regresso. Tentar ignorá-los é repetir o erro que os EUA cometeram ao ignorar-vos.”

Dias depois, os taliban responderam a Rubin, numa carta que serviu também de resposta à proposta de reconhecimento feita pelo Presidente afegão: “O nosso país foi ocupado, o que levou ao surgimento de um alegado governo afegão ao estilo americano que nos foi imposto. A sua visão de que devemos falar com eles e aceitar a sua legitimidade é a mesma fórmula adoptada pela América para ganhar a guerra.”