Entrevista

Nick Park vai à pré-história sem Wallace nem Gromit

O animador que criou o inventor distraído e o seu fiel e erudito cão bem como a Ovelha Choné esteve na Monstra. E trouxe o seu novo filme, A Idade da Pedra, aventura de futebol troglodita perfeita para homens das cavernas porque “é um desporto muito tribal”.

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Nick Park em Lisboa NUNO FERREIRA SANTOS
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A Idade da Pedra é a mais recente longa-metragem de Nick Park DR
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Nick Park no Festival de Toronto, em 2005, com os bonecos Wallace e Gormit Mike Cassese/ REUTERS
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Wallace e Gromit, o inventor distraído e o seu fiel e erudito cão DR
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A Fuga das Galinhas (2000), versão galinácea do clássico de guerra A Grande Evasão DR

Parecendo que não, estão quatro Óscares sentados ao nosso lado numa das salas do Cinema São Jorge, em Lisboa: os quatro prémios vencidos pelo animador britânico Nick Park (n. 1958) em 1991, 1994, 1996 e 2006 pelos seus trabalhos em stop-motion (animação de marionetes fotograma a fotograma). Parecendo que não, este senhor discreto e bonacheirão com ar de cavalheiro inglês rural é o criador de duas das personagens mais icónicas da animação contemporânea: Wallace e Gromit, o inventor distraído e o seu fiel e erudito cão, que deram a Park três dos seus quatro Óscares, pelas curtas As Calças Erradas (1993) e A Close Shave (1995) e pela longa A Maldição do Coelhomem (2005).

Park não é, contudo, apenas o homem de Wallace e Gromit. Um dos nomes-chave do estúdio inglês de animação Aardman, para onde entrou na década de 1980, deve-se-lhe também a irresistível A Fuga das Galinhas (2000), versão galinácea do clássico de guerra A Grande Evasão, e a criação da Ovelha Choné, que se estreou numa das curtas do inventor distraído e depois se autonomizou numa série televisiva e numa longa-metragem.

Em Lisboa para dar uma master-class no festival de cinema de animação Monstra, Park acompanhou também a estreia nacional da sua última longa-metragem – apenas a terceira em 20 anos, depois de A Fuga das Galinhas e de A Maldição do Coelhomem. A Idade da Pedra acompanha uma tribo de homens das cavernas, liderada pelo voluntarioso Dug (voz de Eddie Redmayne, que ganhou o Óscar por Stephen Hawking em A Teoria de Tudo), que, para evitar ser escravizada por uma tribo mais avançada, os desafia... para um jogo de futebol pré-histórico, “mais ou menos por volta da hora de almoço e ali para os lados de Manchester”.

Park nem gosta de futebol – “Não ligo nenhuma ao desporto”, ri-se –, mas a ideia era afastar-se, deliberadamente, dos lugares-comuns das animações pré-históricas (pensem nos Flintstones) e também de Wallace e Gromit, mantendo a tradição orgulhosamente artesanal e britânica das produções da Aardman, depois de namoros fugazes e algo conturbados com estúdios americanos. Meia hora de conversa fluida com um homem a quem a descrição de “inventor distraído” se aplica na perfeição, e que confessa gostar mais de ter ideias do que de gerir um estúdio: “Sou uma nódoa em tudo o que tenha a ver com organização...”

A animação em stop-motion é algo de muito demorado, mas não pode ser essa a razão pela qual A Idade da Pedra dista 13 anos da sua longa anterior, A Maldição do Coelhomem
Para ser honesto, não dei pelo tempo a passar. Nesse intervalo fiz uma curta com Wallace e Gromit, A Matter of Loaf and Death (2008), que levou algum tempo, e tenho estado distraído com imensas coisas: ajudei no estúdio, fui consultor no filme da Ovelha Choné, houve outros projectos pequeninos com Wallace e Gromit [uma série para a BBC e alguns anúncios de serviço público] e outras coisas… E isso distrai-nos imenso. A Idade da Pedra levou alguns anos a pôr de pé, só nos últimos quatro anos é que tenho estado ocupado pelo filme a tempo inteiro.

Tem consciência que toda a gente está sempre à espera de um novo Wallace e Gromit.
Sim, mas isso é bom (risos).

Isso pesa quando decide fazer um filme como este, que tem outras personagens?
Sim, sei que as pessoas querem mais do mesmo. Mas ao mesmo tempo quero fazer outras coisas. A Idade da Pedra era uma coisa que nunca tínhamos feito e que eu tinha uma vontade incrível de fazer.

Por causa do futebol?
Curiosamente, não! Não ligo nenhuma ao futebol, é isso que é engraçado. Tenho uma visão de fora da coisa, e tentei fazer um filme que não fosse apenas para os fãs de futebol, mas trabalho com tanta gente que gosta de futebol… O que eu não queria era fazer apenas mais um filme com homens das cavernas. Dei por mim a pensar qual seria a porta de entrada que tornaria tudo mais divertido, e desenhei um homem das cavernas com uma moca a bater numa rocha, comecei a pensar em desporto… E daí fui para o futebol porque o futebol é algo de muito tribal. E o desafio do filme tornou-se esse: como é que um grupo de homens das cavernas pode aprender um jogo disciplinado onde não se pode dar murros nem usar mocas?

Como todos os filmes da Aardman, A Idade da Pedra é muito inglês, com um humor muito específico.
Claro. Cresci com as comédias dos anos 1950 dos estúdios Ealing ou com os filmes com o actor Norman Wisdom, que eu adorava em miúdo, e que tinham sempre uma candura, uma ternura muito específica. Mas isso não é necessariamente consciente. Tem muito a ver com a cultura onde crescemos. É em parte por isso que a Aardman continua instalada em Bristol. Queremos manter algum afastamento de Hollywood. Estamos a tentar fazer animação que seja caseira, que seja nossa, mesmo que Hollywood também nos inspire. As Calças Erradas é um filme de Hitchcock que tem um pinguim como vilão! (risos) E na Fuga das Galinhas fazia sentido termos uma vedeta americana como o Mel Gibson, porque o filme remetia para as histórias da Segunda Guerra Mundial com os americanos instalados em Inglaterra.

Mas houve um momento em que vocês namoraram com Hollywood, na década de 2000, e depois deram um passo atrás.
Passámos por relações com vários estúdios, e eles sempre mostraram muito mais interesse no mercado americano do que no resto do mundo. É uma pressão que deixámos de ter desde que começámos a trabalhar com a Studiocanal. E é muito estranho, porque colocamos tudo num filme que olhamos como uma obra de arte e depois percebemos que somos vistos como mercadoria… Mas a Studiocanal confia em nós. A questão com que eles se preocupam mais é o elenco, e respiraram de alívio quando perceberam que tínhamos na versão inglesa actores de nome.

Na animação tradicional, é normal que o desenho das personagens reflicta os actores que lhes dão voz. Isso também acontece em stop-motion?
Não tanto. As personagens já estão muito definidas antes de gravarmos as vozes, mas acontece ajustarmos a figura à voz. Aconteceu, por exemplo, na personagem do Dug: aquele arco que a boca dele faz vem da cara que o Eddie Redmayne fazia quando estava a gravar a voz, com algo de ingénuo.

É muito curioso que seja você a dar voz ao Porcão, a mascote da tribo…
Não foi pensado! Eu queria um actor, mas quando fizemos os storyboards, usámos vozes temporárias e eu fiz de Porcão. Quando arrancámos com a rodagem, o pessoal disse-me: “Adoramos o que fizeste com o Porcão, porque não lhe dás tu voz?” E pronto, fiquei eu. E gostei muito de o fazer. O Porcão é um cachorrinho, um animal de estimação muito entusiasta e leal, mas é mais esperto que o Dug e é isso que tem em comum com o Gromit, que fica muito ofendido se for tratado como um cão.

A Idade da Pedra não tem nenhuma daquelas máquinas complicadíssimas que o Wallace passa a vida a inventar.
Foi deliberado. Estávamos muito conscientes do perigo de fazer um Wallace e Gromit pré-histórico. A tendência das histórias de trogloditas é pô-los a inventar qualquer coisa, mas isso aproximava-se demasiado do que já tínhamos feito e eu queria manter alguma distância. Além disso, na nossa cabeça o Dug não era um tipo com ideias, mas sim o optimista disposto a tudo, que tem fé nas suas capacidades, por oposição ao chefe da tribo que é o pessimista. Não era por aí que a história do filme ia.

Sente a tentação de voltar a Wallace e Gromit, ou isso é para si um capítulo fechado?
Não é, de todo, um capítulo fechado. O meu problema é exactamente o oposto: não me consigo afastar deles muito tempo, tenho sempre ideias, e adoro a ideia de fazer outro filme com eles. Claro que a morte do Peter Sallis [a voz de Wallace] no ano passado nos levanta um problema: quem pode preencher um tal vazio? Mas gosto de pensar que o fantasma do Peter nos vai ajudar a resolver isso.