Entrevista

“Em Portugal há ilhas de competência de nível europeu”

Joaquim Menezes, de 71 anos, é o dono da Iberomoldes e desde o princípio deste mês presidente da EFFRA, a associação europeia de investigação para a indústria que dinamiza um fundo de 1150 milhões de euros. A sua eleição, afirma, é um prémio para o dinamismo nacional neste fórum europeu.

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JOANA GONÇALVES

Joaquim Menezes está há décadas habituado a negociar e desenvolver projectos de moldes para gigantes como a BMW ou a Airbus. Agora é o líder de uma associação, a EFFRA, que reúne 150 das maiores empresas industriais e centros tecnológicos da UE onde estão presentes. Com um bolo de 1150 milhões de euros para a investigação e desenvolvimento dos processos de fabrico do futuro, seja na digitalização, na automação ou no software, a Europa quer conservar-se na vanguarda da indústria mundial e, nesse processo, diz Joaquim Menezes, há “ilhas” portuguesas que servem de exemplo para o continente.

Foi nomeado presidente da EFFRA, uma associação de industriais europeus que dinamiza mais de mil milhões de euros para a investigação e desenvolvimento de novas tecnologias de produção para a indústria. É um sinal de que Portugal começa a ser um interveniente de relevo nesta área?
Penso que sim. Somos um país pequeno e, como país pequeno, temos, apesar de tudo, ao nível da inovação, um trabalho muito consistente de vários actores. Existem ilhas de competência muito interessantes em Portugal, que a maioria das pessoas não conhece…

De nível europeu?
Perfeitamente. Temos consórcios, seja nos moldes, seja noutros sectores, com as melhores universidades europeias a trabalharem dia-a-dia. Nesse aspecto nós ombreamos com eles sem qualquer complexo e isso vê-se, inclusivamente, nos projectos de inovação que têm sido submetidos à Comissão Europeia, onde nós estamos muito bem posicionados.

Faz sentido colocar num mesmo plano a indústria portuguesa e a indústria alemã?
Eu acho que sim. Deixe-me citar os moldes como exemplo, porque é o sector que conheço melhor, os moldes e a transformação de polímeros: sendo um país tão pequeno, nós temos 10 mil pessoas a trabalhar nos moldes, o que, comparativamente com a Alemanha, que é a nossa referência, é uma gota de água no oceano. E nós somos o oitavo maior produtor de moldes a nível mundial. Normalmente, a nossa maior fatia de exportação não é directamente para a Alemanha – a Espanha continua a ser o nosso maior mercado. Simplesmente a Espanha é o destino, porque, objectivamente – e no caso da minha empresa é assim – as nossas negociações para obtenção das encomendas é feita directamente com as “montadoras” de automóveis alemãs, para usar uma expressão brasileira, como a Volkswagen, a Mercedes ou a BMW, etc.

Quando fala de ilhas em Portugal que estão no nível de topo à escala europeia, são ilhas pequenas ou têm já uma dimensão significativa?
Algumas têm uma dimensão significativa por razões de “clusterização”, como é o caso dos moldes. Isso também acontece no calçado, com grande intervenção da associação, a APICCAPS, ou no próprio Citeve, o centro tecnológico da têxtil, que tem feito um trabalho excelente. Tem exclusivamente um departamento que é autónomo ao nível da nanotecnologia, na ordem da “Internet das coisas”. Estes exemplos ombreiam em competências com os parceiros europeus ou mundiais.

O interesse da indústria nacional em disputar os fundos europeus do Horizonte 2020 para a investigação e desenvolvimento tem vindo a aumentar?
Tem vindo a aumentar, até porque os fundos nacionais tendem a ser menores para as nossas ambições. E por isso nós envolvemo-nos cada vez mais com consórcios europeus para disputar os fundos europeus. A nossa contribuição a esse nível é elevada. Em muitos casos nós somos os líderes dos projectos e isso dá-nos uma relevância muito grande. Há sectores em Portugal em que os nossos parceiros consociados querem que sejamos nós a liderar.

Nos moldes, por exemplo?
Nos moldes, definitivamente. Já andamos nisto há muitos anos, desde 1998, mais ou menos. Começamos a ter consórcios mais musculados e, nessa perspectiva, as próprias empresas dos moldes, e não só, têm vindo a aliar-se e a cooperar em projectos europeus. Esta tarde, por exemplo, vou estar numa reunião de lançamento de um grande projecto que é uma referência europeia. É um projecto nacional, mas é uma referência porque os nossos concorrentes olham muito para o que nós andamos a fazer. Nós somos claramente inovadores.

Portugal deixou de ser um contribuinte líquido e tornou-se um beneficiário líquido dos programas-quadro europeus para a investigação e desenvolvimento. Isso é sintoma de uma transformação estrutural da indústria portuguesa? Podemos acreditar que a indústria nacional é hoje mais moderna e europeia?
Eu acho que sim. A indústria tem actores muito mais preparados para estar a par dos seus congéneres europeus, actores com características internacionais. Hoje em dia há empresas criadas, que não são propriamente startups – mas o termo até se poderia utilizar –, a pensar logo na exportação. Não se limitam ao território nacional, porque o mercado é pequeno. As ambições de quem começa, até por comparação com os que já cá estão há muitos anos, que fizeram o seu desenvolvimento na internacionalização, são diferentes. Eles nascem com essa ideia na cabeça. Têm de se comparar com os seus maiores clientes, que são as multinacionais. Têm de ter uma cultura empresarial que não desmereça.

Há um antes e um depois da crise? A crise não forçou essa necessidade?
Talvez não esteja a ver bem a história, mas penso que não. Eu sigo esse movimento para aí desde 1995 ou 1998. Nessa altura houve um despertar muito apoiado nas associações empresariais mais progressistas, com outra visão mais moderna, e nos centros tecnológicos. Os centros tecnológicos têm uma intervenção internacional muito grande porque sabem, no fundo, que precisam de aprender, de estar atentos, de entender o que é que os sectores andam a fazer, nomeadamente na Alemanha.  

O que há então de diferente é uma atitude. Há dez ou 15 anos, os centros tecnológicos olhavam apenas para o bolo dos fundos nacionais. Agora olham também para a Europa...
A nossa preocupação em olhar para a Europa resulta de sabermos que é ali que está a nossa concorrência próxima e, ao mesmo tempo, o nosso mercado. No caso do Centimfe (centro tecnológico da indústria dos moldes) a preocupação com a Europa não foram os fundos estruturais. Também eram, mas mais importante foi a necessidade de aprendermos como funcionava a Europa. E aproveitámos o que era possível. No meu tempo, havia aulas teóricas e aulas práticas. Uma coisa era aprendermos teoricamente o que era a Europa, outra era participar activamente. Foi isso que andámos a fazer. Houve uma grande preocupação no sentido de ombrear com os melhores centros de saber e de inovação europeus e não só. Isso foi para mim uma estratégia clara e aí também o Fórum Manufuture [organização que antecedeu a EFFRA], que era um think tank, permitiu-nos perceber o que o vestuário ou o calçado ou outros sectores andavam a fazer. Mesmo quando não se falava na internacionalização, o grande foco da discussão resultava já da consciência que tínhamos de que o nosso mercado era pequeno e tínhamos de sair. Veja o caso dos moldes: 95% é exportação. Ou estamos no negócio, ou não estamos.

Considera que a indústria, a produção de bens transaccionáveis está na moda? Houve uma altura em que a indústria estava na moda, na primeira metade dos anos 90, depois voltou a ser moda com a crise. E agora?
Essa discussão faz-me lembrar a discussão sobre o divórcio existente entre as universidades e as empresas. Eu acho que isso é uma balela. Depende das empresas, depende dos empresários, se fazem verdadeiramente alguma coisa ou não, se estão à espera do tecido académico, ou se o tecido académico está sentadinho, confortável, e não se aproxima. Não se pode fazer um juízo de valor da indústria como um todo. É uma questão de arquipélago, de ilhas. Há empresas excelentíssimas em Portugal. Há uma coisa que nós temos que por vezes funciona bem, outras vezes funciona mal: somos humildes como engenheiros para aprender todos os dias. Nessa perspectiva, o facto de sermos um país pequeno e sermos matraqueados por essa ideia da pequenez faz com que nos lamentemos imenso, mas, ao mesmo tempo, isso dá-nos força para querermos ser tão bons como os outros. Eu não aspiro a ser uma BMW ou uma Mercedes, não tenho condições para o ser, por causa do mercado, ou do capital necessário para atingir esses níveis; agora não tenho qualquer dúvida que o small is beautifull. Essa também é a convicção dos meus clientes. Pense numa marca de automóveis, das mais sofisticadas às menos sofisticadas: garanto-lhe que participamos no desenvolvimento dos seus modelos, até dos que podem ser o sonho de qualquer mortal. Esses clientes têm a convicção de que nós somos parceiros tecnológicos interessantes para fazermos com eles o desenvolvimento dos seus próprios produtos. Muita da concepção desses modelos é feita aqui, porque o cliente sabe da nossa criatividade e desafia-nos. Depois fazemos a prototipagem, o desenvolvimento, a engenharia até ao produto final. Somos sempre contactados quando há um modelo novo.

Faz ainda sentido falar em indústrias de futuro versus indústrias tradicionais?
Não faz. Podia fazer o paralelo com a indústria 4.0, que diz que os robots e a automação vão roubar emprego às pessoas…

Não vão?
Pessoalmente, não acredito. Vão roubar o emprego às pessoas como hoje já acontece. Hoje, nos centros de emprego, há procura de trabalho, mas são pessoas que não são qualificadas. A qualificação das pessoas é que é a questão. Na indústria de moldes só está desempregado quem quiser. O nosso problema – e não é só nosso, nos outros sectores ouço o mesmo discurso – são pessoas que se adaptem. É uma questão de atitude.

Não tem a ver com os salários?
É natural. Os salários médios em Portugal são mais baixos do que no resto da Europa

A indústria tem competitividade para aumentar salários?
Essa é outra discussão, que temos sempre. Eu tive sócios alemães que faziam em muitas situações o mesmo que nós fazíamos, só que eles faziam muito mais rapidamente. São mais competitivos e os seus salários são muito diferentes.

Não era possível replicar essa velocidade nas fábricas em Portugal?
Isso tem muito a ver com a qualificação das pessoas. Quando eu digo que quero fazer ao nível do melhor que se faz na Alemanha, tenho de passar por um período de adaptação e entender as boas práticas que me levam a querer ser como eles. Eles têm um contexto industrial em que a pedra-de-toque são as competências, a produção de tecnologias, condições que eles têm em muito mais quantidade do que em Portugal.  

Nos próximos anos, se a economia continuar a crescer, a indústria vai ter de aumentar salários? E isso é um risco para a sua competitividade?
Penso que não. Há muitos factores que levam a que Portugal tenha os salários que tem. O próprio custo de vida em Portugal é muito mais baixo do que em outros países da Europa. À medida que o país se vai desenvolvendo e se aproxima dos países que são nossos concorrentes, com certeza que haverá uma tendência para nivelar esses salários. Agora, isso vai acontecer nos próximos dez anos? Provavelmente, não. Ainda que haja pessoas em Portugal, técnicos, especialistas, que têm vencimentos parecidos com outros que estão na Alemanha. Eu tenho-os.