Opinião

O desafio de Assunção Cristas

Afirmar uma liderança, para mais quando substituiu Portas, convenhamos que não era uma tarefa fácil. É possível concluir que Cristas o fez com sucesso.

A democracia é o reino das regras e do respeito por elas, só assim se impede a discricionariedade e se assegura o igual tratamento de todos por parte do Estado e da lei. Por mais bizarras ou menores que as regras pareçam ser, o dever de as respeitar é sagrado. Uma das regras que podem parecer de somenos importância é a de que os congressos dos partidos são periódicos. E alturas há em que a sua realização calha mal às direcções ou parece redundante aos olhos dos observadores. É o que acontece à direcção do CDS, partido que realiza este fim-de-semana o seu 27.º Congresso, em Lamego.

Dois anos depois de ter eleito Assunção Cristas como presidente, o CDS volta a reunir-se, quando estamos a mais de um ano do próximo ciclo eleitoral, que consistirá nas eleições europeias de Maio e nas legislativas de Outubro de 2019. É cedo, assim, para o CDS aprovar o seu programa eleitoral e lançar as campanhas. Mais: ninguém se candidata contra Cristas para lhe disputar a presidência. Resta à direcção do CDS apresentar o balanço dos dois anos de mandato e, quando muito, esperar que, no encerramento, a presidente do partido apresente algumas propostas ao país que tentará aprovar na Assembleia da República, marcando espaço político.

Apesar de surgir como um congresso de balanço e sem competição interna, penso que a reunião magna do CDS pode ser um momento importante para este partido e para a sua presidente, já que é simbolicamente nele que Cristas formalizará a sua maioridade política. Há dois anos assumiu a presidência do CDS, herdando-a de Paulo Portas, o líder que moldou o partido à sua imagem e estilo ao longo de duas décadas (1998-2005 e 2007-2015). Afirmar uma liderança, para mais quando substituiu Portas, convenhamos que não era uma tarefa fácil. Mas passados dois anos é possível concluir que Cristas o fez com sucesso.

Passo decisivo na sua afirmação na liderança foi a entrevista que deu ao PÚBLICO a 14 de Março de 2017, como então assinalei. Foi-o não só pela forma como se demarcou do primeiro-ministro, António Costa, e do estilo que este usa para a afrontar no Parlamento, como também pelo modo como conseguiu demarcar-se do seu passado no Governo PSD-CDS, liderado por Pedro Passos Coelho, e do próprio PSD. Nessa entrevista, Cristas conseguiu a proeza de se autonomizar de Portas e da sombra deste que sobre si pairava.

Afirmou então o seu percurso de forma explícita através do trabalho do grupo parlamentar do CDS, que integra, pela apresentação de projectos de lei e do despique com Costa nos debates quinzenais – facto em que beneficiou e beneficia da atitude agressiva do primeiro-ministro para com ela. Paralelamente e na esteira do que fizera Portas no passado, atirou-se com todas as forças à candidatura a presidente da Câmara de Lisboa.

Conseguiu, nas eleições de 1 de Outubro de 2017, o brilharete inesperado de colocar o CDS em segundo lugar, com uns surpreendentes 20,59%, elegendo quatro vereadores (quando antes tinha um) e empurrando o PSD para terceiro partido, com 11,22% e só dois vereadores, perdendo um em relação a 2013. Mais: viu o PS, liderado pelo já então presidente da câmara, Fernando Medina, perder a maioria absoluta, ficar pelos 42% e eleger apenas oito vereadores, num total de 17, quando quatro anos antes conseguiu 11. O PCP manteve os dois eleitos e o BE conseguiu um. É certo que a aposta do PSD em Teresa Leal Coelho falhou. Mas o eleitorado do PSD poderia ter ido para o PS. Isso não aconteceu, porque Cristas fez uma campanha em que atraiu o eleitorado, mesmo na área do PS.

Perante o êxito, Cristas lançou uma campanha de abertura do CDS à sociedade, apostando explicitamente na conquista dos abstencionistas. É essa estratégia que está contida na sua moção ao congresso. Resta saber se a segurança e a assertividade se manterão até às legislativas e se vai conseguir subir a fasquia eleitoral do CDS que, com Portas, se ficou nos 11,7% em 2011. É o desafio que está colocado a Cristas no percurso de liderança que iniciará este domingo em Lamego.