Tendência do CDS diz que partido também precisa de Manuel Monteiro

“Não queremos ser um PSD pequenino, um PSD azul e branco. Não podemos ter vergonha do nosso ADN", defendeu Abel Matos Santos.

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Adriano Miranda

O porta-voz da Tendência Esperança em Movimento, a primeira corrente interna do CDS formalizada, Abel Matos Santos, defendeu que o partido precisa de “todos” para crescer nas eleições, incluindo os que saíram com o antigo líder Manuel Monteiro. No 27.º congresso do CDS, em Lamego, vários dos primeiros subscritores das moções de estratégia global abordaram a discussão ideologia/pragmatismo. Entre eles, o líder da Juventude Popular, que quer ver Assunção Cristas como primeira-ministra, e pôs o congresso de pé.

Na apresentação da moção Portugal a sério, Abel Matos Santos defendeu a necessidade de uma “reconciliação interna” e que basta de “divisionismos sem sentido”. Num recado directo para Assunção Cristas, Abel Matos Santos lembrou Manuel Monteiro que não foi convidado para a homenagem desta manhã ao líder histórico Adriano Moreira. “Para crescermos e nos afirmarmos precisamos de todos – incluindo Manuel Monteiro, senhora presidente”, disse, depois de referir que Assunção Cristas “não pode ficar refém dos estados de alma de ninguém”.

Abel Matos Santos defendeu que “fazem falta ao CDS todos aqueles que saíram, quadros e personalidades de fundamental importância”, apelando ao envolvimento de todos “portistas e até de ‘crististas’”. “Isto é que é unir para crescer”, defendeu, sublinhando que o CDS é “um princípio de causas, de valores da democracia-cristã”. O porta-voz da TEM – que terá lugar na Comissão Política Nacional – defendeu que o CDS tem de saber distinguir-se. “Não queremos ser um PSD pequenino, um PSD azul e branco. Não podemos ter vergonha do nosso ADN. Como tão bem diz Adriano Moreira – as pessoas primeiro”, afirmou.

Com perto de 300 delegados no congresso, Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular (JP), deixou a sua visão sobre onde está o CDS. “Somos um partido de centro-direita”, disse, acrescentando a sua interpretação: é “a direita que conquista o centro e não o centro que toma conta da direita que a descaracteriza e a neutraliza. É este o sentido que o partido tem de prosseguir”. Sobre a questão ideologia ou pragmatismo, Francisco Rodrigues dos Santos defendeu que “não são um casal divorciado” e que são “irmãos siameses”. Uma sem a outra é “como professar uma religião sem ter fé, é como querer ver o mundo de olhos fechados”, disse.

Francisco Rodrigues dos Santos reafirmou a ideia de que a JP deve ter representação parlamentar e lembrou que a estrutura tem 21 mil militantes.

O líder da JP fez eco da entrevista da líder do CDS ao Expresso deste sábado e disse querer ver a eleição de Assunção Cristas como primeira-ministra. “Estamos empenhados em fazer crescer, crescer, crescer o CDS”, rematou, recebendo aplausos de pé. 

Com uma visão contraditória à doutrina, o líder da distrital de Lisboa, João Gonçalves Pereira defendeu que a discussão entre pragmatismo e ideologia é inútil. O vereador de Lisboa lançou uma pergunta na sala: “Então o Nuno Melo, a Cecília Meireles, a Assunção e o Filipe Lobo d´Ávila não são democratas-cristãos?”.

A ideia de que é pela matriz democrata-cristã que o CDS se deve distinguir foi também defendida pelo antigo secretário-geral do CDS-PP José Lino Ramos. “No actual contexto político muito se fala se o CDS é mais doutrinário ou mais pragmático, mas mais do que rótulos que nos limitam, este é o momento de afirmar o CDS”, disse. Lino Ramos defendeu que a democracia-cristã é o ADN do partido mas também é o que o “distingue dos demais partidos”.

Já Pedro Borges de Lemos, da corrente CDS XXI, notou “falta de futuro” no discurso de Assunção Cristas, "independentemente de ter falado nas vitórias". A crítica viria a ter resposta de Nuno Melo, que prescindiu de apresentar a sua moção sobre Europa, ao dizer que “quem só lê a sua moção não vê nada nas outras”. Miguel Matos Chaves, da distrital de Coimbra, deixou uma sugestão a Assunção Cristas: "Porque não cria um Governo-sombra como faz o partido conservador britânico?"