Le Pen terá usado sete milhões dos contribuintes europeus para se financiar

Os problemas na justiça acumulam-se para a líder da Frente Nacional. O processo sobre os falsos assistentes de eurodeputados pode ser a sua perdição.

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Wallerand de Saint-Just, tesoureiro e advogado da FN, diz que pode ter havido "erros involuntários" Jacky Naegelen/REUTERS
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Marine Le Pen com Thierry Légier, o seu guarda-costas, que recebeu como assistente parlamentar no PE Charles Platiau/REUTERS

Sete milhões de euros dos contribuintes europeus é quanto a Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen pode ter desviado de forma indevida para financiar as suas actividades, inscrevendo como assistentes dos eurodeputados pessoas que na verdade trabalham na sua sede em Paris ou cumprem outras funções.

Este é o processo judicial que pode prejudicar mais a presidente da FN, embora seja visada num outro que é bastante polémico, o relativo à partilha no Twitter de fotos de execuções de reféns do Daesh . Um deles mostra a morte do fotojornalista norte-americano James Foley, outro o do piloto jordano Moz Al-Kasasbeh – e como comentário escreveu “isto é o Daesh”.

O objectivo de Marine Le Pen era, como disse, responder às acusações feitas por um jornalista que comparava a Frente Nacional aos terroristas islâmicos.

A decisão de Le Pen em partilhar os vídeos foi criticada de imediato pela família de James Foley, a quem a líder da extrema-direita francesa teve de pedir desculpa. Mas se o processo for de facto para a frente – foi aberto um inquérito preliminar – e for condenada à pena máxima prevista por “difusão de imagens violentas”, poderá cumprir três anos de prisão e pagar 75 mil euros de multa, explica o Le Monde.

Consequências mais graves, ainda dependentes do que a investigação vier a revelar, pode ter o processo sobre o abuso dos fundos do Parlamento Europeu. Os juízes de instrução procuram determinar se foi de facto organizado um sistema de desvio de fundos do PE para benefício do partido e da própria Le Pen. Inicialmente, o caso era investigado apenas desde 2014, mas segundo o Journal  du  Dimanche (JDD), foi alargado a um período anterior, de 2009 a 2012 – quando o líder da FN era Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine.

Wallerand de Saint Just, que há muito tempo desempenha a dupla função de tesoureiro e advogado do partido, nega qualquer intenção de dolo. Mas, com o cerco a apertar-se à volta da líder do partido – as contas bancárias de Marine Le Pen estão a ser investigadas e o JDD noticiou recentemente que o Ministério das Finanças está a levar a cabo “um controlo fiscal” de Le Pen, notícia não confirmada nem desmentida – Saint Just fez declarações algo defensivas.

Diz que é possível que tenha havido “erros involuntários”. Os eurodeputados podem ter cometido erros nos gastos com os assistentes parlamentares "devido à regulamentação muito densa do Parlamento Europeu”.

Mas em causa não estão pequenos erros: está por exemplo a remuneração como assistente parlamentar de Catherine Griset, que é chefe de gabinete de Marine Le Pen na sede do partido em Nanterre, nos arredores de Paris, e não em Estrasburgo ou Bruxelas – e os registos de entrada nos edifícios do PE mostram que nunca passou lá muito tempo.

E há o caso de Thierry Légier, remunerado como assistente de eurodeputados da FN, mas que na verdade é guarda-costas de Marine Le Pen.

Especialmente gravoso para Le Pen parece ser o testemunho prestado à polícia  por Charles Van Houtte, que durante alguns anos foi assistente  para a contabilidade da FN no Parlamento Europeu e também administrador no PE do grupo Europa das Nações e das Liberdades – criado em Junho de 2015 pela FN e outros partidos da extrema-direita europeia. Houtte confirmou que os contratos de Griset e Légier eram fictícios, diz o Le Monde, coisa que Le Pen sempre negou.