Do bouquet de noiva ao Bornéu, as orquídeas viciam

Construiu a sua casa a pensar nelas e já vai em quase duas mil. Graziela Meister é “orquidodependente”, sim, e é também presidente da Associação Portuguesa de Orquidofilia. No próximo fim-de-semana, a mania das orquídeas vai andar à solta na Exponor.

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Paulo PImenta

Graziela Meister já fez viagens com grupos de orquidófilos à Malásia e a Singapura e nas viagens familiares, “sempre que há orquídeas por perto”, vai ver. Às vezes aparecem-lhe em sítios imprevistos, como nas Seychelles, quando fazia um trilho de praia com o marido e surgiu uma no meio das rochas; outras vezes em sítios mais prováveis, como em florestas do Bornéu. Mas nem precisa de ir tão longe para se deslumbrar, como quando a levaram por caminhos perto do Gerês e pararam num campo: aparentemente, só erva; entre estas, orquídeas, minúsculas. Há 28 mil espécies de orquídeas na natureza (ou seja, fora os híbridos produzidos em laboratório); 70 em Portugal (“na Arrábida, em Conímbriga, algumas também no Gerês...”). Em casa de Graziela há duas mil — não espécies, exemplares.

É no “cantinho do café” que nos sentamos — e o cantinho do café é também o “cantinho das floridas”. A grande janela, que é uma espécie de minijardim vertical, define o espaço: os vasos alinham-se no vão fundo ou penduram-se disputando a luz (e o calor) que atravessa o vidro; as floridas são orquídeas, muitas Cattleya, que para olhos destreinados são o ícone destas, com os seus longos caules e caprichosa configuração da flor. Pura ilusão, veremos.

Certo é que o seu fascínio era tanto que os navegadores chegavam a cortar árvores para as preservar e, no regresso das viagens, oferecer aos monarcas como “forma de prestar louvor”. E se as orquídeas eram as “flores dos reis”, na casa de Graziela Meister são rainhas. Tanto assim que a própria casa foi projectada a pensar nelas. Este recanto da enorme sala, o jardim de Inverno no sótão e a estufa no jardim são delas, que ainda partilham o jardim com frondosas árvores. Quase que apostamos que Graziela Meister lhes conhece todas as formas e bizarrias. Esta é, afinal, uma colecção de amor por uma planta que acabou por tornar-se uma ocupação quase a tempo inteiro. Não pelas suas orquídeas — são muitas mas “não se perde muito tempo”, assegura: todos as manhãs as vê e as que estão em flor traz para o “cantinho”; mas porque é presidente da Associação Portuguesa de Orquidofilia (APO) há nove anos e foi eleita há poucas semanas para um novo mandato, mais quatro anos. Quando terminar terá 76 anos e quem sabe se não se recandidata? “Já me disseram para o fazer, nem que seja para estar num computador”, diz, com um sorriso.

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Álbum de casamento de Graziela: o seu bouquet de noiva tinha orquídeas Paulo Pimenta

Não é bem o seu estilo. No dia anterior à nossa visita havia estado em Ermesinde, na universidade sénior, a dar um workshop para 60 pessoas. Foram sete workshops em Fevereiro, em plena contagem decrescente para a 9ª Exposição de Orquídeas do Porto (a 7ª internacional) — apesar do nome, mudou-se para a Exponor (Matosinhos), e por isso não tem direito a mupis na cidade portuense —, que se realiza entre 16 e 18 de Março. É o grande acontecimento do ano para a APO, ou não fosse esta exposição a maior da Península Ibérica, diz Graziela, ao nível das grandes da Europa (como Dresden) e atraindo participantes “até de Taiwan”.

“Há cada vez mais pessoas com o culto das orquídeas, a comprar”, considera. Então, os hortos mandam vir mais orquídeas e diferentes. “Agora há muito mais orquídeas diferentes, espécies mesmo fantásticas, não apenas as vulgares.” São os ingredientes de uma dependência. “As pessoas têm vontade de ter mais uma e depois outra e ficam dependentes.” O que vicia? “São todas diferentes”, nota Graziela, apontando as que tem em volta. “Têm alguma coisa a ver?” — a pergunta parecia de retórica, mas ela própria responde: “O perfume, há muitas que têm perfume.”

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Quando Graziela Pereira se casou, já lá vão 47 anos, não levou um ramo de flor de laranjeira, “tradicional, símbolo de pureza”. Levou um ramo de orquídeas. “Um ‘sapatinho’, só”, recorda. Mostra-nos dois, ou melhor, duas — são orquídeas, então, de nome oficial Paphiopedilum. Não se lembra porquê. “Não havia paixão pelas orquídeas”, assume, “não sei como apareceram no bouquet”. Mas ela, a paixão, não tardaria a chegar. Depois de casada, começou a ir a um horto onde existiam, “talvez importadas do Brasil, na altura havia proibições”, algumas “orquídeas diferentes”. “Comecei a encantar-me”, reconhece, e os vãos do apartamento onde morava na altura encheram-se. Quando se mudou para a casa na Avenida da Boavista, já bem perto do mar, o que Graziela não sabia é que havia tantas que poderiam habitar o jardim. “Temos clima litoral: é frio, mas não é gélido. Consigo ter mais do que, por exemplo, alguém na Maia.”

Por estes dias, são cerca de 700 as que vivem no jardim de Graziela. Não se espere, contudo, encontrá-las na explosão colorida que chama a atenção até das máquinas fotográficas dos autocarros turísticos. Estamos em época de hibernação: as cameleiras, jacarandá, cerejeira estão despidas e as orquídeas que trepam pelos troncos e se estendem nos ramos (são epífitas, sobretudo, mas também terrestres e até rupícolas) exibem apenas folhagem — outras, são tão pequenas que facilmente são descartadas por um olhar pouco conhecedor. O que não passa despercebido são os pequenos vasos pendurados nas árvores, forma de rentabilizar o espaço e ter exemplares disponíveis para os workshops e exposições (“É um acto altruísta levar as orquídeas, estragam-se muito”, diz Graziela). Em algumas semanas, tudo mudará, o jardim estará exuberante e a casa escondida.

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Lá fora estão orquídeas “selvagens”; aqui dentro as orquídeas “em cativeiro” — e esta é uma vantagem, “podem ter-se dentro de casa”: “As rosas, camélias, margaridas não”, exemplifica Graziela. É tudo uma questão de replicar o habitat natural de cada uma — há orquídeas por todo o mundo, no calor e no frio; em casa, igual. As “selvagens” necessitam de menos cuidados, menos adubo, porque têm recursos naturais que as que estão cativeiro não têm. Graziela trata de todas, às vezes com ajuda do marido, que até lhe chama atenção quando há uma flor mais engraçada: as Cattleya, que no Verão se vestem de amarelo, branco, rosa, as Masdevallia, que preferem o fresco, as Maxillaria, tão pequenas que por vezes nem se vêem na natureza, as Stanhopea, sedentas de calor, as Cymbidium, que só dão flor no Inverno.

“Há pessoas loucas por orquídeas, sobretudo em Inglaterra e nos EUA”, nota Graziela, apontando os documentários que às vezes apanha e o livro O ladrão de orquídeas, de Susan Orlean (na base do filme Inadaptado, de Spike Jonze), que leu na tradução brasileira. Ela, que não consegue isolar uma preferida, não troca a paixão pela loucura. Mas reconhece que quando lhe oferecem uma orquídea, mesmo que repetida, “é uma alegria fantástica”. Deve ser assim que se define um “orquidodependente”.