Comércio

Mais um encerramento na Baixa: Hortícola de Coimbra não resistiu aos 140 anos

Loja que estava na mesma família desde a fundação fecha no mesmo mês que a livraria de Miguel de Carvalho.
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Um dos estabelecimentos mais antigos da Baixa de Coimbra fechou as portas no início deste mês. A Hortícola de Coimbra fazia 140 anos em 2018. O proprietário, João Castro Gomes, explica ao PÚBLICO que a razões são diversas, mas diz que a reforma do último trabalhador da loja deu o mote.

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O negócio, que estava na mesma família desde a fundação, já não sustentava o custo de manter as portas abertas. “O que se tem visto é que o negócio caiu. Foi genérico pela Baixa coimbrã”, afirma. Mesmo que a Hortícola se situe na rua Visconde da Luz, uma das vias pedonais mais movimentadas da Baixa, o comércio daquela zona da cidade mudou. O encerramento de lojas mais antigas deu lugar ao surgimento de vários estabelecimentos cujos produtos são mais orientados para o turista.

João Castro Gomes diz também compreender a opção de quem passou a deslocar-se a grandes superfícies comerciais, onde há condições como estacionamento. Mas, no seu caso, não pesam apenas os problemas da Baixa. A queda da actividade agrícola levou à diminuição do comércio de produtos como sementes e bolbos, que representavam o grosso das vendas da Hortícola.

Acrescem os problemas de mobilidade da região. O fecho do Ramal da Lousã, em 2010, fez com que sentisse uma diminuição do número de clientes. A circulação de comboios entre Coimbra e a Lousã foi interrompida sob o pretexto de instalar ali o Metro Mondego que nunca lá passou. “Quando ainda existia a automotora, [a ligação] permitia que muita gente dos arredores de Coimbra comprasse sementes. Desde esse encerramento notei um decréscimo”, conta o comerciante.

A casa Hortícola de Coimbra nasceu abriu em 1878 pelas mãos do seu trisavô e passou pelas várias gerações da família até hoje. Há também um lado emocional. “É uma situação que me custa bastante”. Na montra fica um papel com a inscrição “em poisio”, expressão aplicada à terra não cultivada que está em repouso.

João Castro Gomes sublinha que o motivo do encerramento não se prende com o aumento do preço das rendas, ao contrário de o que tem acontecido com outros estabelecimentos históricos. Apenas as dificuldades do negócio.

O proprietário explica que a loja nunca foi a sua actividade profissional. Actualmente com 42 anos, ficou à frente do estabelecimento após a morte do pai, em 1994. “Sempre a mantive porque acho que se deve manter estas lojas”, diz, em tom de desabafo. “Há uma sensação de que à nossa volta tudo está a desaparecer e não se faz nada.”

Sobre o que se pode fazer para evitar o encerramento de mais lojas históricas da Baixa, surgem-lhe mais questões do que respostas. Refere que não procurou apoio, mas considera que “as entidades é que deveriam proteger de alguma forma estas lojas”.

Este é mais uma espaço vazio a deixar cicatriz na Baixa de Coimbra este mês. Na semana passada, o livreiro Miguel de Carvalho anunciou que também fecharia portas no final de Março. A livraria situada na rua Adro de Baixo desde 2001 encerra por falta de clientes.