As fábricas do Barreiro agora expelem livros

No século XX lançavam gases poluentes. Neste século são cenário para exposições ou lançamento de livros, como este sábado com Da Fábrica que Desvanece à Baía do Tejo.

Foto
RUI GAUDÊNCIO

Ao longo do século XX o Barreiro ficou conhecido, entre outras coisas, por albergar o maior complexo industrial da Península Ibérica (o quarto maior da Europa). No imaginário de muitos, era a cidade dos gases poluentes lançados pelas fábricas. Mas nos últimos tempos a vasta zona fabril tem vindo a sofrer um processo de reconversão. O território é industrial, mas alguns dos agentes e das empresas, em parte associados às indústrias culturais, já não expelem gases. Lançam livros, criam arte e fazem a cultura acontecer.

É nesse território, denominado Parque Empresarial da Baía do Tejo, que hoje estão instalados artistas como Alexandre Farto (Vhils) ou projectos como a Ephemera, a biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. Foi também nessa zona industrial que, em 2014, uma série de artistas (António Bolota, Dalila Gonçalves, Martinha Maia, Ricardo Jacinto, Projecto Teatral e Valter Ventura) esteve em residência artística, num projecto da Baía do Tejo, Casinfância e Fundação Calouste Gulbenkian. Da mesma haveria de resultar uma exposição com curadoria de Claúdia Ramos, composta por seis intervenções em diálogo com o lugar. Para além da relevância artística, a mostra permitiu também a quem a visitou descobrir um território que continua a ser, em larga medida, desconhecido para o grande público.

Da Fábrica que Desvanece à Baía do Tejo era o nome dessa exposição que, a partir deste sábado, vai ser também livro. O lançamento é este sábado, às 17h, no Museu Industrial Baía do Tejo, no Barreiro, claro. E marca um acontecimento que foi crucial para a Baía do Tejo, entidade que faz a gestão do parque empresarial do Barreiro (antigas CUF e Quimigal), do Seixal (antiga Siderurgia) e de Estarreja (Quimitécnica), além dos antigos estaleiros da Lisnave na Margueira.

“Foi realmente a partir dessa exposição que tivemos a percepção do interesse que aqueles territórios, de matriz marcadamente industrial, provocavam noutros intérpretes que não apenas as indústrias ou empresas tradicionais“, diz-nos o responsável da comunicação da Baía do Tejo, Humberto Fernandes. “Percebemos que havia pessoas com uma visão diferente – entre eles, artistas – sobre este tipo de infra-estruturas. E aí – sem perder a visão de negócio – projectámos a diversificação de fontes de investimento, encontrando condições específicas para alojar empresas ligadas às indústrias criativas. Daí decorreu, entre outras coisas, o apoio aos festivais Barreiro Rocks ou OutFest, bem como a ligação com artistas, entre eles o Vhils, ou com o arquivo da Ephemera."

Neste momento, segundo Humberto Fernandes, há ali “200 empresas” a laborar. “As pessoas pensam que o parque industrial é só ferrugem”, ironiza, “mas eu duvido que exista outro com tantas empresas, havendo ao mesmo tempo uma lógica de adaptação do espaço à medida dos clientes e do investimento em conjunto com eles”. Paralelamente à requalificação urbanística e ambiental da área, existe uma lógica de promoção através da arte e da cultura. “A intervenção no território e a sua dinamização social, económica e cultural é algo que está por detrás desta estratégia, daí por exemplo o Vhils ir inaugurar aqui a sua maior intervenção de sempre em espaço livre, ao mesmo tempo que o Pacheco Pereira irá estar por detrás de uma grande exposição de cartazes espontâneos – recolhas de manifestações – que abrirá um dia antes do 25 de Abril. Ou seja, algumas das contrapartidas acordadas com esses agentes têm a ver com a sua capacidade de intervirem e dinamizarem a própria cidade e tudo à volta.”

Nesta ampla zona industrial, cujas antigas fábricas estão na sua grande maioria desactivadas e deram lugar a espaços semiabandonados, operam na actualidade pessoas das mais diversas áreas. Foi aí que nasceu Da Fábrica que Desvanece à Baía do Tejo, a residência artística que foi exposição e que agora é também livro, numa reinterpretação de todos esses signos históricos em esculturas, desenhos, fotos, instalações ou textos. E essa é agora uma das alavancas que estão a possibilitar a reinvenção daquele território.