Música

A dançar se reactiva um pedaço de cidade

Lisboa Dance Festival regressa, agora para assentar no Hub Criativo do Beato. Além de NAO, Joe Goddard e outros nomes, haverá uma exposição colectiva de 12 artistas.
Foto
NAO, ou seja Neo Jessica Joshua, deu nas vistas em 2016 com o álbum de estreia For All We Know DR

Foram celeiros, fábricas de pão e bolachas, salas de fornos gigantes, pastelaria – por estes dias, sexta e sábado, serão pistas de dança e espaços abertos à arte. O Hub Criativo do Beato, em Lisboa, nas antigas instalações da Manutenção Militar, recebe a terceira edição do Lisboa Dance Festival, com nomes como NAO, Joe Goddard e Nosaj Thing em destaque no cartaz.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Depois de duas edições na LX Factory, o festival fixa-se em novas instalações com um passado fabril e junto ao rio Tejo. “A intenção é sempre procurar espaços que tenham este ambiente industrial, de outros tempos e épocas”, explica Karla Campos, da promotora Live Experiences. A mudança de casa justifica-se porque a LX Factory “é um espaço de vários” e “as salas não eram todas do mesmo tamanho”. No Hub Criativo do Beato, a Live Experiences montou uma espécie de “bairro, uma zona fechada que fica em exclusivo para o festival”. Os espaços apresentam-se ainda como eram quando serviam o exército. “Não é preciso pôr mais nada, o cenário são as próprias salas”, como se o espaço também fosse um “cabeça-de-cartaz”, reflecte.

O Lisboa Dance Festival quer “ligar e dar energia a um lugar desligado e devoluto”, celebrando “a música electrónica numa visão 360 graus”. Ou seja: haverá “tecno e house com fartura”, mas também vários músicos que partem da electrónica para incorporar outros universos ou nos quais tudo se mistura com naturalidade.

Será isso que a inglesa NAO fará esta sexta-feira. Algures entre a sensualidade clássica do R&B, as tácticas do funk e o apelo de um futuro sintético, Neo Jessica Joshua deu nas vistas com For All We Know, álbum de estreia editado em 2016. “Não é uma artista de electrónica, não é uma artista de hip-hop, não é uma artista de dança”, mas é tudo isso e mais ao mesmo tempo, observa Karla.

Neste primeiro dia, as atenções voltam-se também para o britânico Romare, que constrói música com samples de universos como o disco e o jazz, e, noite fora, Octave One, colectivo tecno norte-americano, e a house extática de Leon Vynehall. A noite terá ainda uma armada portuguesa de luxo, de Xinobi a DJ Marfox.

Joe Goddard apresenta-se a solo no sábado. No ano passado, lançou Electric Lines, onde demonstra o seu interesse enciclopédico pela história da música de dança – não tem pudores em abraçar a forma da canção (ou não fosse ele membro dos Hot Chip) e territórios como a house, a pop electrónica e a soul. Nas 17 propostas da tarde e da noite de sábado, sobressaem nomes como Nosaj Thing, reputado cientista de beats que em Parallels (2017) abriu o seu labor oficinal a novos lugares, e o do norueguês Prins Thomas, que eleva o disco a matéria cósmica.

Lisboa é o novo quê?

O Lisboa Dance Festival continua a querer ir “além da música” e, este ano, deixa de realizar um mercado de instrumentos e discos para apostar na arte contemporânea. A exposição Visceral Monuments, com curadoria de John Romão, director artístico da BoCA – Biennial of Contemporary Arts, apresenta obras de 12 artistas portugueses e estrangeiros. Haverá peças de Brice Dellsperger, que mergulha no universo das drag queens, de João Onofre, habituado a tratar a música como matéria para as artes plásticas, e da artista e activista cubana Tania Bruguera. "O John [Romão] foi buscar artistas que, através de instalação, digital art ou peças escultóricas, têm uma ligação à música”, diz Karla Campos. “Explicam a vida, o modo de estar na vida, através da dança e da música”, de forma "interventiva", "questionando o que se passa”.

Este ano, o Lisboa Dance Festival volta a organizar conversas com jornalistas, músicos e agentes do meio musical e artístico. Uma das conversas (todas estão marcadas para a tarde de sexta) chama-se Lisbon is the new what? e contará com dois estrangeiros que escolheram a capital portuguesa para viver enquanto trabalham na indústria da música electrónica: Ryan Miller, da influente plataforma online Resident Advisor, que detectou em Lisboa “um mercado promissor”, e o australiano Tyson Ballard, editor, produtor e inventor de equipamento de DJ.

Como promotora, Karla acredita que os “holofotes” estão apontados para Lisboa, fenómeno visível na profusão de festivais de música electrónica. “[Um turista] Vir aqui dois ou três dias é também aquilo que fazemos em Berlim ou Amesterdão. Passámos a ter a mesma procura dessas cidades, de pessoas muito jovens, que gostam deste estilo de música. As pessoas querem o lado menos óbvio – e cada vez mais.”

Essa procura, diz Karla Campos, levará turistas este fim-de-semana ao Beato, zona que não consta dos habituais roteiros turísticos. “Lisboa tem este potencial de [possuir vários] espaços devolutos”, à espera de serem descobertos, conclui.